quarta-feira, 12 de setembro de 2012
FANATISMO - Político
terça-feira, 4 de setembro de 2012
....ANIVERSÁRIO
segunda-feira, 23 de abril de 2012
.....R E F O R M A
quarta-feira, 11 de abril de 2012
P O S T O - F I S C A L
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
...........A L C O O L I S M O
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
..........M A T R I M Ô N I O
.......C A S A M E N T O - Ricardo & Marina
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
......P O T I R A
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
......T A Y N A R A
Vestido Branco
O ano letivo findava, e mais uma vez estava convicto da minha aprovação também naquele último semestre. No boletim de notas, lia-se em destaque o termo "distinção", como de costume, e até por isso planejaria com antecedência as férias, mais uma que marcaria a minha adolescência. Chegara o dia, enfim!
A noite que antecedia a viagem, em especial, aquela, parecia mesmo não ter fim. O Fusca azul que ainda exalava cheirinho de carro novo, fora arrumado de véspera, e parecia incomodado não apenas pela excessiva bagagem, todavia, pelo orvalho frio e abundante em seu teto, a escorrer como lágrimas, até o chão! Da fresta, também via o dia amanhecer, e com ele, a certeza que partiríamos para Redenção.
Meu pai, um homem de prendas mil, no ofício de motorista deixava a desejar; mas era determinado. Seguíamos no Fusquinha sem sustos e sem paradas, exceto quando acometidos da ânsia de vômitos. No interior do carro, além do calor sufocante, tínhamos que inalar como se fumantes fôssemos, a maldita fumaça daquele cigarro Continental sem filtro. Meu "velho", o meu herói, não percebia até por conta da dependência ao fumo, que nos expunha a graves doenças respiratórias. A viagem transcorreu dentro do esperado, e na manhã de um sábado, dia da feira, adentramos no povoado, o berço do meu nascimento.
A rua que dividia ao meio todo o povoado, lembrava sem exageros, uma gigantesca colmeia. Em lugar das abelhas, feirantes em frenesi e aos berros, tentavam vender os seus produtos. Respeitadas as proporções, o barulho na extensa via pública, guardava em decibéis, similaridade com o característico som da torcida do Flamengo em festa, no Maracanã. A feira ao ar livre, essencialmente um lugar para negócios, cedia espaço também para encontros e acordos amorosos; e quase sempre terminavam em casamento!
O seu final acontecia à tarde, quando das praças e adjacências, recolhiam amorfas, dezenas de barracas.
Rostos conhecidos desfilavam diante do embaçado vidro, em profusão, mas nenhum deles me interessava. Mãos acenavam à nossa passagem, como se desses gestos simples quisessem nos desejar, boas-vindas; aquilo, enchia de orgulho o meu ego, entretanto, sofria por não ver entre tantos outros, o seu rosto lindo, minha querida "Taynara". Dessa vez seria diferente! Iria procurá-la, nem que fosse à porta de sua Igreja. Essa adolescente com traços da raça indígena, me encantava não apenas pela candura e ingenuidade, sobretudo, pelo desafio da conquista, já que professava diferente de mim, segmento religioso não católico!
Colégio, matérias e professores, coisas do tipo, ainda que importantes preferia nem lembrar; a propósito. Queria como sempre, e isso ocorria em todo verão, andar a cavalo na fazenda do saudoso tio Octávio; pescar piabas e tomar banho de "cuia" no tanque de tia Branca, a convite do primo Nondas; jogar uma "pelada" em dia chuvoso e lavar o meu corpo suado nas frias águas das "bicas", de cueca, e nu, às vezes!
Guiado por amigos de infância, não resistia à tentação do banho nas barrentas águas do Tanque da Nação. Aconteceu, e logo comigo... Depois do nado que em nada parecia com o sincronizado, de volta pra casa, até pelo capim em viço que feria nossos rostos, velozes, corríamos em fila indiana. Desatento, me embaracei num fio de arame farpado, reminiscência do que fora antes uma cerca. Fiquei suspenso, qual manta de carne em açougue, e do meu tórax escorria em abundância um líquido quente e viscoso...sangue! A cicatriz não mais existe no meu peito, embora tenha perdurado em definitivo, a dantesca cena de horror.
Redenção, de tantas vitórias, e muitas delas com participação efetiva de seus fundadores, Izidoro e Angelina, jamais será por nós, seus filhos, esquecida. Mesmo à distância, ainda assim, torço pra que outros filhos seus, administradores políticos te coloquem em destaque, mormente diante de suas coirmãs, cidades históricas da Chapada Diamantina. Sua ascensão ao patamar de cidade nos fez sentir, deveras, honrados.
E o menino que em férias, aprontava todas?! O que mais fizera, ele? Continuemos a falar de suas estórias... Acolhido por todos os parentes, hospedava-se sempre com as irmãs, Jandira e Valda! Já ouviram o adágio, "galo onde canta, janta"? Pois é, caro leitor, o garoto moreno, de olhos graúdos e cabelos fartos, Rominho, carinhosamente chamado, se sentia em casa. Simpático e "metido" a galanteador, às vezes se dava, bem.
De minha preferência, a Praça do Mercado, bem iluminada, não diferia das demais, exceto por um motivo - residia em uma daquelas casas, uma adolescente morena, muito especial, pra mim. Com uma plástica singular, Taynara a filha de um comerciante local, me fascinava. Garota tímida, de formação religiosa rígida, estava tão perto de mim, mas um abismo nos separava - ela, era evangélica, e eu, um iniciado católico!
Os dias, quais ponteiros de relógio Suíço, não paravam nunca, e a segunda semana das férias, findava. Precisava encontrar rapidamente, um jeito de transpor aquele incômodo, obstáculo. Minhas bucólicas manhãs eram todas preenchidas com atividades lúdicas, razão pela qual detinha corpo e mente, sã.
À noite, refém do desejo da aproximação, vagava de um lado ao outro do jardim, na expectativa de ficarmos juntos. Isso só ocorria ao término das obrigações religiosas, e sempre na companhia dos fiéis escudeiros.
A quarta semana havia chegado, e algo parecia nos dizer quão próximos estávamos da separação. Todos os amigos, apiedados, tentavam nos animar, em vão. Angustiado, tinha muita pressa, por isso ansiava que findasse o dia e surgisse a noite, mesmo sem o luar, quando poderia ver e quem sabe, até acariciar a face daquela menina de jeito dengoso, e com sorte, até poderia beijá-la; ah, quem dera, fosse factível...
Cruel destino! Ingrato destino...roubastes de mim, sem piedade, um amor adolescente que imaginava não ser correspondido. Restou-me saber, ainda bem, ter ele sobrevivido todo esse tempo, embora adormecido!
Naquela noite, ao final de mais um culto de oração, me dirigi à pracinha e notei você, mais linda ainda pelo contraste do seu "Vestido Branco", que envolvia como se fora um manto, o seu juvenil corpo, bronzeado. Me veio à lembrança a visão do seu ombro desnudo, e dele pendia sem malícia, uma parte de suas vestes; era uma manga desgarrada displicentemente, como se a propósito, para delírio meu, seu eterno admirador.
As férias, antes tão esperadas, não tinham mais de mim, o mesmo interesse e razão. A cidade perdeu toda a graça, se é que a graça dela partia, o que duvido, pois quem de fato dava vida e graça a tudo, era você! Você se foi, Taynara, de maneira sutil e definitiva. Jamais ousei criticar a escolha que fizestes, e que tantos bons frutos desse relacionamento, colhestes. São dádivas divinas os teus filhos, criados na Paz do Senhor!
O jovem entusiasta, que vivia a cantar, não mais cantou, principalmente naquela praça onde tudo começou. Como bem dissestes, "de caju em caju" eram assim as minhas visitas, e isso implicou na sua tomada de decisão. Ratifico isenção de culpa, até pela hipótese da não reciprocidade afetiva, que parecia verdadeira.
Do meu casamento, qual o seu, Taynara, também vi nascerem filhos maravilhosos, e até netos. Creio, portanto, que temos algo a mais em comum: Amor irrestrito pela família que constituímos. Deus há de preservar nosso vínculo de amizade, à semelhança do que fez no passado, com nossos estimados, Pais.
O tempo passou, é evidente, e a menina ingênua e meiga, que por timidez até "chorava às escondidas" se fez excelente Mãe de Família. Que apesar da precoce perda de um ente querido, não se deixou abater, e buscou na fé, a continuidade de um importante Projeto de Vida; criar e educar os seus filhos com dignidade.
Querida Taynara - externo incondicional admiração por você, nessas três fases de sua vida: infância, como amigos; na adolescência, até mesmo pelo envolvimento todo especial que tivemos; e, já como adulta, pela serenidade ao administrar sozinha, sua família, e ainda preservar princípios fundamentais, como: honestidade e fidelidade, dentre outros! Me obrigo a apontar o fator determinante pra muitas das decisões equivocadas...o seu inquebrantável "Princípio Religioso", que como dogma, era fundamental. E as regras? Regras são regras, e podiam ser ignoradas.
Como teria sido diferente o desfecho, se as tivéssemos violado!
Fim
Por Rômulo Bispo Em 15/11/11
domingo, 18 de dezembro de 2011
......F O B I A S
FOBIAS PRECOCES - por Rômulo
Maria Luísa, essa menina serena e meiga, aos seis meses de idade se vê diante de um desafio, o primeiro, quiçá, derradeiro; colocada diante de um sapo, não o teme, e surpreendentemente o acaricia. Parecia entender que o animal ao alcance de sua mão não a incomodaria, até porque era um artefato moldado em barro cozido, apesar de sugerir em incautos curiosos, do próprio bicho, similaridade de imagem.
Decorrido algum tempo, agora com quinze meses de vida, ela não mais se aproxima do amigo com outra intenção, senão a de machucá-lo. Com o olhar fixo, dedo em riste e a sobrancelha em arco, aproxima-se cautelosa e chuta o bicho. Aquela reação sinalizava, a meu ver, o início precoce da primeira fobia. A melhor defesa é sempre o ataque.
O espaço de sua preferência, nosso jardim florido, conserva nas gramíneas, os desenhos e esculturas que também encantam o sapo, agora preterido. Cata-ventos coloridos, pinheiros com enfeites e luzes do Natal, tão belos, e nem assim fica sozinha, ali, a menina que agora teme as aranhas, e as baratas. Detesta as moscas, fustiga e pisoteia certeira, os insetos, com ênfase aos peçonhentos.
Do escuro ela não foge, e se esgueira entre os móveis sem contudo reclamar de suposto, apagão. Mas tem horror em ficar só, e logo escuto seu insistente clamor: "vovô" - "vovô". De braços erguidos e com o sorriso de volta aos lábios, se deixa erguer faceira, buscando em mim, aconchego e proteção.
Quando se iniciam e findam as fobias? Não se sabe ao certo, entretanto, nas crianças ocorre muito cedo, e salvo algumas exceções, perduram por toda a infância. Há casos, e não são raros, de adultos e até mesmo idosos que não conseguiram debelar o mal, e em decorrência disso, graves acidentes são registrados e até com óbito.
Vejamos, pois, um relato de um desses fatos, onde um veterano e habilidoso motorista sem conter o medo de baratas, deixa à deriva o automóvel que sai desgovernado da rodovia, caindo de uma altura considerável, matando-o de imediato. Outro episódio de veracidade incontestável, ocorreu com um colega do Banco do Brasil, que mesmo estando no seu posto de atendimento e com um cliente à sua frente, abandona-o, e corre alucinado, escada abaixo. A camisa rasgada por ele deixava ver seu tronco nu, e dos trapos caídos ao chão, um gafanhoto que sem nada entender, fora esmagado.
Sutil e gradativamente devemos orientar a criança portadora de fobias, a confrontar-se com a realidade. A fuga nesses casos só tende a agravar o mal. Com Maria Luísa, minha neta, tenho obtido resultados positivos, e é fato, aproximando-a das situações supostamente, de risco. Certa noite, escrevia distraído, e só percebi o terceiro dos seus chamados; levantei-me e fui ao seu encontro. Encostada na parede tinha ela nas mãos suadas, creio que em decorrência da aflição, uma pequena lagartixa, já morta.
Seus olhos não demonstravam sinal de júbilo, mas de dor e compaixão. Isso eu pude observar no semblante daquela menina peralta, que sem temor, exibia aquele animalzinho sem vida. Inclinando lateralmente a cabeça, abre os braços, e exclama a todo pulmão: Ooooohhhhhh - Ainda que expletivo, caro leitor, jamais traduziria com as frases, outro sentimento para aquela exclamação, senão o de tristeza e piedade.
Via da regra, os adultos inscientes são responsáveis por parte das fobias, irreversíveis às vezes, adquiridas pelas nossas crianças. Autores consagrados, os pais e a própria mídia, insistem na mediocridade do repasse oral das lendas urbanas e de músicas voltadas ao público infantil, com indução clara ao medo e ao terror.
Cito por exemplo - Mula sem Cabeça; Saci Pererê e outras tantas focadas no sobrenatural mundo das trevas, como: Drácula e Lobisomem. (essas, para crianças maiores), como se tamanho fosse posto! As músicas que persistem ao tempo, remetem à lembrança do mal imediato: Atirei o Pau no Gato; Cai-Cai Balão; Pai Francisco (foi pra prisão), obras que despertam nelas - ódio, vingança e frustração.
Fim - 11/11/11
Crônica dedicada às crianças, especialmente pra Maria Luísa que reacendeu em mim, seu vovô predileto, o hábito saudável da leitura e da escrita.
Minha amizade por você é tão forte quanto o aço, e tão resistente quanto o mais puro dos diamantes. JAMAIS se DESGASTARÁ com o tempo, e é inversamente proporcional às suas fobias que apenas permanecerão vivas, em suas lembranças.
08 de Dezembro - Sra. Conceição
Em um dia oito, diferente do oito de hoje, mas, igual a tantos oito de dezembro, me permito lembrar - cercado por crianças, ávidas pra degustar de sua esposa Angelina, as iguarias do almoço anual, meu Pai Izidoro cumpria mais uma vez sua promessa feita à Imaculada Conceição, pelas graças alcançadas.
Consagrado, esse dia enaltece e representa a família, célula máter da identidade de seus membros: pai, mãe e filhos, estilo que assegurava ensinamentos necessários à formação de probos cidadãos. Se manteve desde o Brasil Colonial, mas registra-se alterações significativas no Conceito de Família ao longo do tempo.
Autodidata, ele ministrava aulas como se fosse um mestre, e conseguia apesar das limitações, transformar o ambiente em que vivia. Transferia com simplicidade seus conhecimentos, legado exclusivo de poucos, em benefício dos conterrâneos, os moradores "Das Matas" que em breve seria Povoado, e a seguir, Redenção.
Afeito ao exercício da agricultura familiar, dormia cedo e acordava mais cedo ainda, tentando fugir do calor do sol de verão, e seguia determinado a cuidar do seu plantio de subsistência: mandioca, milho e feijão.
Na terra prometida, havia poucos moradores, e todos eram agricultores. À noite, cansados de tanto carpir se agrupavam os amigos num barracão, onde definiam ações para o dia seguinte. Depois de muita prosa e discussão, ébrios, erguem um brinde, o último, e retornam pra casa cambaleantes, imersos na escuridão.
Paciente, mas com a energia peculiar da mulher cabocla, minha mãe acolhe o marido, embriagado, alimenta-o e o induz ao sono reparador. No dia seguinte, à semelhança do ocorrido na noite anterior, a cena se repete, e o homem trabalhador, envergonhado tenta se explicar, em vão, pois nem podia se expressar.
Sem ser brotada da minha fértil imaginação, por ouvi dizer, relato e me desculpo se maculo a sua imagem, Pai querido, um fato que culminou na sua abstinência etílica, irreversível. Aquele que te obrigou a refletir... Passava da meia noite, e levavas do Barracão às costas, provisões para a semana. Qual marujo em terra firme, seu andar nem tão firme denunciava a embriaguez, e sob chuva forte, parou à beira do Rio Parauaçu.
Seu olhar vago, deixava crer que desmaiaria, mas resistiu o quanto pode, e mesmo alcoolizado achou a trilha de pedras submersas, que o levaria em segurança para o outro lado do rio. Parecia ouvir da esposa, ou da filha adolescente, gritos angustiados pedindo que voltasse, mas ele teria que continuar, e pôs o saco com os víveres sobre a cabeça, e caminhou sobre as pedras, confiante. Lograria êxito, o seu intento?
Não muito distante dali, na tosca casa de taipa, ansiavam, mãe e filha. Devotas fervorosas da Santa do dia, oravam por um retorno com saúde do companheiro amado, vítima da bebida; um alcoólatra em potencial... Seguia na trilha, cauteloso, mas não chegaria à outra margem, pois o tronco trazido pela correnteza, atinge em cheio suas pernas, e faz dele, um náufrago. À mercê das ondas, vê com pesar o saco com as compras, afundar, e num lampejo de lucidez, pede clemência. Em instantes, passa em sua mente o filme da sua vida! Imaginando-se diante da Santa de sua devoção, suplica: Imaculada Senhora da Conceição! Rogo-te seja a mim permitido a abstinência do álcool, e me livre de outros vícios, que coloque a minha e a vida dos meus familiares em risco. Que me seja concedida essa graça, oh, Mãe piedosa, e em troca prometo alimentar sete crianças pobres, e seus acompanhantes, a cada dia oito de dezembro, enquanto vida eu tiver!
Hoje, 08 de Dezembro de 2011, sem promessas e sem as típicas comidas caseira, nada comemoramos em família, senão o momento religioso, e de fé. Das iguarias à base de milho, quase nada se vê, nem mesmo a galinha caipira e o macarrão, dupla que marcava presença no variado cardápio dos banquetes!
Aceitos, também no povoado distante, terra que escolheram pra empreender, os meus pais fizeram por merecer de seus habitantes, sem exceção, o gozo do respeito e da admiração, plena! Homenageado, teve o nome Izidoro Bispo, emprestado para uma Escola, e também pra uma Via Pública no centro da cidade. Construiu a sua e tantas outras casas ali, a primeira, inclusive, num claro sinal que antevia a transformação daquelas terras boas, "As Matas", numa próspera e acolhedora cidade - a Nova Redenção.
Desejoso de conhecer outras paragens, fez algumas alternâncias de residência: em Ubiraitá, ainda no mesmo município, também construiu uma excelente casa, e ali passou uma boa parte de sua vida.
Na premissa de que os filhos, já em bom número, precisavam de boas escolas, ele parte, e dessa vez escolhe Lençóis, na Chapada Diamantina. Com características próprias, essa cidade oferecia além dos estudos, uma fonte inesgotável de lazer. Cercada por serras e com água em abundância, agradou a todos.
Mas...e o almoço do dia 08 de dezembro, sofreu perda de continuidade, ou não foi mais citado, a propósito? Sim, até pra não faltar com a verdade, posto que em citações anteriores, o fiz pelo bom uso do "ouvi dizer". Como poderia não mencionar de importância igual, a participação voluntária das mulheres da família, que davam graça e descontração ao evento, já em Lençóis, e por muito mais tempo, em Parnaíba.
Por quantas vezes tiveram elas, as crianças, de também nas esteiras se acomodarem, em virtude da escassez de cadeiras e mesas, já repletas de adolescentes, pais e convidados. Uma poltrona, entretanto, tinha lugar reservado...sentado, tinha seu prato à mão, e sorria feliz, o meu querido pai, o eterno, anfitrião!
Ainda que falte na mesa, alimentos como os do seu tradicional almoço de 08 de Dezembro, me sacio dos exemplos de fé, qual inquebrantável promessa sua, feita à Imaculada e piedosa, N. Senhora da conceição.
Homenagem (in memorian) aos meus pais, Izidoro e Angelina. (08/12/2011) Fim > por Rômulo
Os Filhos
O S F I L H O S
terça-feira, 13 de setembro de 2011
.......................Willy - O Cão
Já vi cenas repugnantes, mormente em filmes "trashes", entretanto, menos intrigantes do que aquelas vistas no idoso e enfermo, Willy. Outro dia, em um passeio matinal com os cães, ao fazermos a higienização e trocar a fralda já cheia de urina e fezes, de um deles, percebemos que uma mosca de cor azul, incomodada, se espreme e voa insatisfeita, portanto.
Registrado o incidente, ouvimos de suas asas o zumbido pouco audível, e continuamos a limpar a área da persistente, ferida; julgamos ter sido tão somente uma visita esporádica, da inescrupulosa, "mosca azul". De um porte maior, e até por isso mais lenta nos rasantes voos direcionados, a meu ver, não fosse ela transmissora de doenças, aquela, de cor de um azul intenso e metálico, seria dentre todas as dípteras, a mais bela. Prefiro, apesar de expletivo, vê-la de mim, bem distante, posto que sem limites, busca incansável saciar o seu voraz apetite.
Apesar da higiene dispensada ao poodle, na noite do dia seguinte fui acordado com latidos que mais pareciam gemidos de dor, vindos do sofrido, animal. O cachorro que se mostrara bastante incomodado durante todo o dia, não despertou em nós nenhuma suspeita da gravidade do seu problema, em virtude de ser esse o seu comportamento depois que foi acometido da doença.
Serena e convicta do que fazia, Milena esbanja técnica e segurança, e inicia ali mesmo, no sanitário, o socorro ao seu cãozinho indefeso; alguma coisa parecia querer devorá-lo vivo!
Meu pai... Ouço seu apelo, agora entre soluços, quando buscava em mim, apoio ao que fazia. Indubitavelmente, ficar à distância seria mais prudente não tivesse também sido despertada em mim, uma co-responsabilidade pelo bem estar daquele animal moribundo. Sempre disposto a ajudá-la, atendi de pronto ao chamado e me postei também ali, ao seu lado. Suas mãos que se igualavam à sua voz, também tremiam ao apontar com uma pinça, e delas pingos de sangue me sugeriam entender que algo inusitado teria acontecido ao enlouquecido, animal.
Portador de uma doença não rara em cães, e já com úlceras que o afligem há tempos, não foi difícil crer num diagnóstico do temido câncer prostático. Além do mal que já sabíamos ser incurável, temos também a certeza de não poder operá-lo, face os sérios riscos de morte.
Animal de estimação que nos acompanha há mais de quinze anos, nosso Poodle Willy tem uma vontade enorme de viver. Alimenta-se bem, faz parte do nosso dia a dia, e ainda consegue apesar de tudo, ter uma sobrevida satisfatória. Recentemente nos acompanhou a uma viagem a Salvador, em 31 de julho de 2011 local onde se deu o incidente que volto a comentar...
Assustadores, os "bichos" brotavam aos montes da região anal, com forte indicativo ao óbito, não fosse a intervenção da minha filha, que incansável, o socorreu. Passava da meia noite e nós, ali, sem contar com recursos outros, fazíamos o possível prá amenizar o sofrimento do pobre animal. A idéia da ducha quente com esguicho forte, além do Baygon, foi providencial.
Mais calmo, posto que apenas alguns persistentes bichos carnívoros relutassem em deixar o pútrido banquete, Willy se deita e aceita os afagos daquela dedicada, enfermeira. Um a um, todos foram retirados, apesar da resistência, e finalmente podemos descansar, sem esquecer o apoio logístico de Cássia, minha esposa, que possibilitou que a operação fosse exitosa.
Imagino como seria o desfecho desse apavorante drama, aos nossos olhos, se não fosse pela intervenção corajosa da sua "dona", Milena. Pena que outros cães não tenham dela, cuidados.
Me orgulho de tê-la como técnica na área de saúde, vez que assim como nossos animais de estimação, também os seus pacientes, sem exceção, são alvos de seus préstimos.
sábado, 21 de agosto de 2010
Oitenta e um Anos - Parabéns, Ivanyce.
O tempo é mesmo inexorável... Outro dia comemorávamos em festa de gala os seus bem vividos 80 anos de idade. Decorrido algum tempo, rendemos graças ao bom Deus por novamente tê-la conosco com alegria e paz, em mais um aniversário entre amigos e parentes.
Como seria maravilhoso se outra pessoa que também amei, tanto quanto a você, professora, tivesse conseguido se esquivar ao passamento precoce, pra comigo desejar-lhe, vida longa. Minha Mãe nos incluirá em suas orações, e isso fortalecerá meu vínculo de amizade a você.
No vigor dos seus 81 anos, nota-se como ostentas um corpo que ainda conserva os traços de outrora, e sem dúvida, sua boa aparência é consequência de uma saúde invejável e das suas bem escolhidas, vestes. Inteligente e altiva, você segue firme rumo ao centenário.
Um dia que não o de hoje, mais precisamente no seu aniversário passado, alguém querendo testar minha amizade e o respeito que lhe devoto, me inquiriu: “Muitos políticos e pessoas outras já renderam homenagens à professora Ivanyce; por que você se mantém calado”? Sem me aborrecer, pois estava convicto de que não faria necessariamente de público a minha manifestação aos feitos daquela mulher dinâmica, que a tantos ajudara, retruquei à insinuação nefasta com esse provérbio indiano: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio”. Reporto-me àqueles que não têm o cuidado de esconder suas falácias, mormente quando se tornam imprescindíveis os aplausos dos incautos.
Sem que vissem, à exceção de amigos internautas, rendi à minha professora aniversariante uma homenagem em forma de crônica, com todos os adjetivos que lhe pude direcionar. Hoje, tanto quanto no ano passado, ratifico o meu respeito e amizade a você, que apesar de ter militado na área política, o fez com bastante lisura e dedicação pelo ser humano. Seus projetos foram todos direcionados à melhoria da qualidade de vida de munícipes, seus eleitores ou não.
Seus exemplos como cidadã Lençoense, somados ao que nos ensinastes como verdadeira Mestra fez de mim, e de todos aqueles que te conheceram, eternos admiradores.
....PARABÉNS PELO SEU ANIVERSÁRIO, MESTRA QUERIDA.
Rômulo Bispo dos Anos.
Lençóis – BA, 20 de agosto de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
..........PEQUENO FOX
Embora temido por exibir afiados e grandes caninos, é de pequeno porte o meu inseparável amigo, Fox. De raça não definida, mas com a insinuante aparência de uma raposa de pelo amarelo fulvo, o cãozinho lembra um chiuaua, o menor cão do mundo.
...........................Fim.
.................Autor – Rômulo Bispo dos Anjos
....................Lençóis – Bahia 01/06/2010
sábado, 22 de maio de 2010
.................G A R I M P O S
Todo lugar onde o homem se instala, levado por necessidades, é obrigado a fazer algo pela sua sobrevivência, que, aliás, é uma lei natural que atinge todo e qualquer ser vivo. Inspirei-me em um personagem fictício que se assemelhar com qualquer pessoa, é uma coincidência como também o são espaço e tempo vivido por ele neste conto. (Quem sabe, poderiam ser garimpeiros de serra, que tanto víamos na Chapada Diamantina).
Eis que em meado de 1925, um forte jovem de pele curtida pelo sol, sentiu que devia procurar um emprego. Mas que emprego? Ficara órfão aos doze anos e aos vinte e dois, não aprendera outra arte senão revolver pedras e barrancos a procura de diamantes!
No povoado de Caldeirões, vivia o solitário Peri Bateia, assim chamado por carregar o cascalho extraído da corredeira até o local onde seria guardado para lavagem posterior.
Graças a este tipo de serviço, Peri foi desenvolvendo seu forte físico e também as suas habilidades no manejo da bateia ao ralar o cascalho bruto.
Aos dezoito anos Bateia tentou abandonar a vida do garimpo e trabalhar como ajudante no único barracão do povoado que pertencia ao Sr. Severino.
Aos domingos, a pracinha se enchia de meias-praças (garimpeiro fornecido por patrão,) pra no barracão, fazerem suas bocas-de-saco, (provisão de alimentos), que devia passar até o sábado, quando desciam de novo a serra, uns risonhos, outros tristes, mas no fundo ainda persistentes. O sonho do Bambúrrio não lhes saía das cabeças.
Naquele emprego Peri ganhava o seu sustento, contudo o achava um tanto monótono. Estaria Bateia, encaixado num trabalho a altura do seu espírito irrequieto e aventureiro?
Retrocedamos ao menino Peri que chegara a Caldeirões com onze anos e acompanhado de seus pais: Zé Silva e sua companheira, Dona Benta, ambos já acostumados à vida do garimpo. Imbuídos pelo desejo de uma vida melhor, enfrentaram as intempéries da mãe natureza, deslocando-se por estreitos canais, e desafiando as correntezas dos rios. Zé Silva com sua família chegou ao já abarrotado de garimpeiros, povoado de Caldeirões, encravado entre serras ricas em diamantes e carbonatos.
Ao ser informado que Antônio Brejos possuía alguns garimpos, Zé foi à sua residência solicitar um emprego. Aquele homem rude ao lhe contratar, retrucou:
“Se num tróxer quarquer coisa, mermo um xibiu, não ti furneço mais, home. Escói bem o lugar pru que diamante, num farta, Zé.”
Logo que acertou o trabalho, ele foi para a serra. No garimpo, Dona Benta, Zé Silva e o filho Peri, derrubavam pedras, descobriam o cascalho, passavam-no pelo processo de lavagem e sempre no sábado apuravam alguns bons diamantes. Também no sábado a família descia para o povoado, muito alegre. Peri badocava passarinhos, cantava, e às vezes adiantava-se no caminho e escondido entre as moitas, assustava aos pais.
Depois de quase um ano de garimpagem, a situação financeira da família melhorou substancialmente. Zé adquiriu uma casinha no povoado onde passava a festa de São Sebastião, que era o padroeiro local. Tudo parecia correr bem com a feliz família Silva.
Era uma manhã de sol quente quando Peri saiu em perseguição a uma "rolinha" que se escondia nas folhagens, frustrando o esperto caçador. Distraído, distanciou-se bastante.
Enquanto isso Dona Benta cozinhava o feijão para o almoço e lavava suas roupas em um regato perto do garimpo onde já se encontrava Zé Silva a trabalhar.
Enfim, Peri consegue abater o passarinho, mas seria difícil encontrá-lo, pois caíra num mato fechado. O garoto fica aborrecido porque o petisco estava a lhe escapar das mãos.
Lá no garimpo, iam os dois rodeando a rocha até que encontraram um orifício de onde saíam horripilantes morcegos pretos. Zé falou: “Vamu entrá minha Véia”. Mas, onde supunham ser o acesso ao interior da gruta, havia um amontoado de pedras sobrepostas umas às outras, impedindo a entrada. Assim que o casal conseguiu adentrar, Zé pisou numa pedra saliente que milagrosamente mantinha o equilíbrio sobre todas as outras. Isso fez com que desencadeasse uma avalanche e ela vedou a passagem de tal maneira que jamais conseguiriam sair com vida, a não ser que fossem as pedras tiradas pelo lado de fora e sem muita demora, pra que ambos não corressem risco de morte.
“E Peri, ondé qui tá? Gritou D. Benta. “Tá lá fora Véia” “Pelo meno nosso fio tá sarvo”.
Contrastando com aquela cena terrível, estava Peri já a caminho do rancho, depois de ter encontrado a pomba rolinha. O rancho estava vazio e o garimpo também. Onde estão os meus pais? Pensava o menino que sentado em um banco que servia de guarda-comida, ficou a refletir. Abandonando sua caça, deixou a imaginação tomar conta de sua mente.
Dentro da gruna o ar a cada minuto ficava mais raro. A escuridão aumentava o pavor que já se apoderava do casal vitimado pelo destino cruel. Alguns morcegos pequenos que voavam há pouco, agora esvoaçavam frenéticos soltando guinchos e parecendo a enormes vampiros. A vida parecia ter parado dentro da gruna e a luz deu lugar às trevas.
Arquejantes, os dois gemiam, choravam e lastimavam da má sorte. Movida pela fé que sempre tivera D. Benta ajoelhou-se e sem que soubesse, bem sobre pedras pontiagudas que lhe tiraram muito sangue. Como se isso não tivesse a mínima importância, ergueu seus olhos para aquele escuro teto da gruna, onde incrivelmente estes o atravessaram, fazendo-a ver o lindo céu daquela manhã, e com fé, pediu a São Sebastião: “Meu santo protetor, faiz cum qui meu fio escuta meus grito”.
Como era sábado e ignorava a existência de tal gruna, Peri achou que seus pais tivessem descido a serra rumo ao povoado. Pra lá foi ele cantando e assobiando, e vez por outra chamava: PAI, MÃE, espereu! Passaram-se duas longas horas para que ele chegasse ao povoado de Caldeirões, onde tinham a casinha. Os velhos lá não estavam, e nem na casa de Antônio Brejos, o patrão de seu pai.
Ao perceber o caldeirão virado dentro do regato, Peri seguiu os grãos de arroz e feijão que a correnteza puxava como se sua mãe tivesse deixado aquela pista, pra que depois ele a encontrasse. Mais adiante, e enganchado numa ponta de graveto estava o pedaço de sabão envolto em espumas brancas que reluziam sob as tochas dos garimpeiros. Aqui ocorreu um grave acidente, dizia um deles; e é provável que não haja sobreviventes.
Encontraram sem muita dificuldade o monte de pedras, e elas pareciam ter caído há pouco.
Pedra por pedra, uma, duas, três, todas elas foram retiradas deixando assim desimpedida, a porta da gruna. Peri que se mantivera afastado orando a São Sebastião lançou-se em direção à porta depois de arrebatar uma candeia de um garimpeiro. A cena que se lhe estampou foi por demais, estarrecedora.
Os homens se aproximando, viram o bastante pra entender que o menino que se chamaria Peri Bateia, ficara órfão. E de que maneira brutal!
Os mais velhos tentavam minimizar a dor que o consumia, com palavras confortantes: “Chora qui é bão meu fio. É as coisas ruim qui acuntece cum o homi do garimpo. Teu pai num foi o premeiro, tumbém infelirmente num será o úrtimo.” Dizia outro: “Donde ele tá ele ti ajuda, vai vê”.
Mas, como estava o menino? Chorando, triste? Qual nada! Quando tomou conhecimento do que acontecera ali, não apenas deixou que se escorregasse a candeia, como deu aquela gargalhada que fez gelar e arrepiar os cabelos dos braços dos homens que o seguiam de perto. O susto fora grande o suficiente pra fazê-lo perder a noção das coisas que o cercava.
Sem que ele percebesse os homens enterraram os corpos mutilados dentro da mesma gruna, em uma vala existente na rocha que servia de abrigo para cobras e morcegos.
O comportamento do garoto contrastava à idéia de violência. Perambulava pelas ruas de Caldeirões sempre cantando, assobiando e sem se saber por que, se escondia numa esquina e pregava aquele susto em quem por ali passasse. O seu inconsciente guardara essa travessura que fazia com seus pais, ao descerem da serra onde a família trabalhava o garimpo.
Três anos se passaram e ao que se sabe nada de ruim aconteceu ao menino pobre, que sem o amparo dos falecidos pais, sobrevivia ainda pela benevolência do povo de Caldeirões.
Alimentava-se de esmolas que pedia às portas daqueles que dele tinham compaixão. Herdou dos pais a casa da periferia do povoado, e sempre sozinho, dormia.
Diante do seu bom comportamento, Antônio Brejos achou por bem mandá-lo para um garimpo onde ele iria servir como aprendiz. O trabalho pouco necessitava de inteligência, apenas um pouco de força física, pois ele seria “carregador de bateia”.
Recordações povoavam sua mente? Dos pais, não demonstrava a mais vaga das lembranças.
São Sebastião quando pode, atende ao pobre faiscador e o transforma em um rico garimpeiro.
Numa tarde, a equipe do garimpo “Ferrugem” da qual fazia parte o menino Peri, inicia as escavações muito próximas ao regato responsável direto das mortes dos seus pais. Pouco ou quase nada lembrou. Munidos de ferramentas e muita fé, os homens ocupam o tosco rancho.
Ao cair da tarde se reúnem no velho rancho, junto a uma enorme fogueira onde fariam a última refeição daquele árduo dia de trabalho. Assim que terminaram, o tal Curió, alisando com mãos sujas de comida sua pança muito cheia, disse: “Peri Bateia, vá lavá os prato sujo qui tá no regato.” Bateia atende prontamente ao pedido, em verdade uma imposição, sem demonstrar insatisfação. Estancou como se puxado por uma mão invisível e esbugalhando os olhos, abriu tanto quanto pode a boca como que para sorver por ela, o ar do mundo todo.
Que teria visto Peri? Virado dentro do regato estava um amassado caldeirão, e de dentro dele saíam algumas folhas de capim e pequenos frutos, puxados pela força da água.
Sim, parecia que o incidente fizera aflorar algo que se calara no seu subconsciente. Sem conter sua ira, saiu gritando e caindo pelo caminho estreito que levava ao distante, povoado.
Ainda não recuperara de todo a memória, porém, o bastante pra não voltar jamais ao garimpo.
Engajou-se como ajudante no barracão do Severino, como já foi dito, e dali tirava seu sustento, mas não achava o serviço condizente à sua personalidade serrana. Havia nascido Peri Bateia pra ser garimpeiro e não pra carregar pacotes em uma mercearia de um povoado qualquer.
Um mistério, entretanto, persistia em sua vida. Por que correra apavorado quando vira aquele regato? E por que temera o velho e encardido caldeirão ali abandonado?
Como todo garimpeiro e algumas pessoas que nascem em terras diamantíferas, tinha também Peri o micróbio utópico em suas veias. Queria ser rico, cheio de jóias e possuir uma bela casa com jardim e pomar. Em suma, queria encontrar-se através das jornadas infrutíferas ou não, empreendidas sob o sol causticante ou mesmo nas noites quentes e insones sob a luz do luar.
Insatisfeito com aquela monotonia, agora com vinte e dois anos, abandonou o emprego. Peri Bateia, com mantimentos e instrumentos necessários, foi para uma temporada na serra.
Levara cinco galinhas, um galo e uma cabra parida que lhe daria todo dia o precioso leite.
Garimpou em vários lugares, mas sem resultado nenhum. Resolveu, pois, subir o rio e se instalar perto do “Regato do Mistério”, assim como ele o batizara.
Aquela cata já havia sido trabalhada, mas ele conseguiu bamburrar, e fixou-se por ali mesmo. Em uma noite bem escura, acorda sobressaltado com os berros da cabra à porta do seu rancho.
Vestido com seu peculiar roupão branco feito de saco de açúcar foi Peri certificar-se do que estava acontecendo. “Qui é qui tu tem cabra, oxém, dexeu drumi sinhora.” Mas ao alisá-la, notou que o sangue que brotava de um pequeno ferimento escorria quente ainda pelo pescoço.
“Foro os miserávis dos mucêgos, né? Vou percurá ondé qui dormi os marvados qui ti chupou”. “Passa bicho”- Disse Bateia inclinando-se quando vários deles voavam por sobre sua cabeça. Foi no rancho, apanhou uma pequena vassoura de ramos retorcidos, a candeia e saiu a persegui-los. Notou que os mesmos sumiram sob galhos e ramos floridos que desciam acompanhando o mesmo sentido inclinado da rocha. Era, pois, a boca da gruna.
Com muita sutileza, afastou-as um pouco e exclamou a todo pulmão:
“MEU PAI... MINHA MÃE! Agora sim, lembro-me de tudo.”
Seu peito musculoso ondulava ante os fortes soluços que dele brotava. Começou a procurá-los como se o tempo não tivesse passado. Como se ele tivesse vindo agora do mato, ali bem perto, quando abatera a rolinha e ouvisse os gritos de socorro que ele não havia percebido, daquela querida e inesquecível mãezinha. Na sua agitação caíra várias vezes. Sentia o sangue correr em seu rosto, entrando em sua boca, mas nada o incomodava. Queria encontrar seus pais, ou pelo menos, o que deles restara. Foi essa obsessão que o atormentou e o fez sofrer em toda sua vida.
A candeia resvalou entre as rochas pontiagudas e estava sem azeite, pois este derramara e descia escorrendo por sobre o lajedo, assemelhando-se a uma gigantesca lágrima negra iluminada por uma réstia de luz.
A erosão pôs à mostra os ossos de um pequeno pé; tão logo o vira, lançou-se a escavar com as mãos, vendo-as tingir de um líquido quente e pegajoso. SANGUE! Nada o interrompia na sua marcha alucinada. Nem mesmo a picada de uma temida CASCAVEL que antes ele empurrara de sobre a cova o fez parar. Ignorou o perigo de que estava acometido. Pôs a descoberto um esqueleto que estava em uma vala na rocha, e quase não teve forças pra retirar o outro.
Abraçou-se num choro calmo e resignado, àqueles dois esqueletos desengonçados. Não percebeu que jamais os soltaria, pois estavam findando seus últimos segundos de vida.
Aconchegando-se mais ainda, exclamou alegremente. Incrível, Alegremente:
“COMO É BOM PODERMOS FICAR SEMPRE JUNTOS, MEU QUERIDO PAI, e MINHA SANTA MÃEZINHA”.
.................................F I M
Autor do conto – Rômulo Bispo dos Anjos.
..........................12.02.1975