quarta-feira, 12 de setembro de 2012

FANATISMO - Político

...FANATISMO - (POLÍTICO) Como em todas as cidades Brasil afora, também se insere a nossa, entre aquelas em que acima da vontade política do eleitor, existe a predisposição pra "enDEUSar" candidatos, atribuindo-lhes qualidades que sabidamente são virtudes inerentes aos homens honestos. Enquanto a mídia enaltece o "candidato ficha limpa", aqueles que deveriam fazer cumprir com lisura essas leis tão bem-vindas, as burlam, e acima do bem e do mal, referendam como postulantes a cargos eletivos, suspeitos de fraudes e de improbidade administrativa. Como já dizia Boris Cazoy e por certo se aqui estivesse, falaria: "Isso é uma vergonha" Não tenho a pretensão do dom da clarividência, entretanto, antevejo o resultado das próximas eleições, até pela postura anti-ética de candidatos que roubam, mormente em época de campanha política, a consciência dos eleitores, em sua maioria, inscientes, que induzidos por eles, vendem a única arma democrática de defesa que possuem; seu voto! Indubitavelmente, vencerá também nas urnas, aquele que apesar de ser considerado presa fácil, com competência e segurança, souber se impor perante os seus adversários. A convicção do êxito será pertinente àquele que despojado do assédio habitual, artifício utilizado por muitos, fizer amigos correligionários, e não apenas, vis, seguidores fanáticos. Como agentes motivadores do fanatismo, destaco: futebol, religião e política. Dos três, o mais pernicioso deles, o político, consegue anular do incauto eleitor, sua identidade, e o escraviza. Senhor das verdades, ele não é capaz de discernir o "bem do mal", ou ainda, num lampejo de sanidade, aceitar de cidadãos normais, sugestões e críticas construtivas. Do fanático político, qual navalha, sua língua fere, e dos sulcos deixados, poucos deles cicatrizam. Falaz, sorri como uma hiena, e a sua postura lembra o bote de uma cascavel. Afeito à subserviência, seus frutos políticos são de serventia discutível, inda que seja visto pelo grupo, como elo de sustentação. Qual uma cobra cega, serpenteia, mas não assusta. Fanatismo é um caso de saúde pública, e os portadores dessa doença, que nem sempre são pessoas incultas, como doentes, deveriam ser tratados. Muitos deles, não raro, ostentam diploma acadêmico, mas são marionetes, e como bonecos, são manipulados. Nas campanhas, desprezam antigas amizades, mas idolatram qual um ídolo, o candidato. É decepcionante ver que à semelhança dos Eleitores Fanáticos, também os Puxa-Sacos, por "escusas motivações", se rendem aos benefícios de candidatos ímprobos e corruptos. A "Paixão" doentia que povoa a mente de um Fanático Político, lhe rouba os sentimentos, tira dele o sentido real da palavra Justiça, e destrói valores que deveriam ser preservados: - Amor a si Próprio, à Democracia e ao Cidadão, inda que seja ele seu adversário político! Por Rômulo > 09/2012

terça-feira, 4 de setembro de 2012

....ANIVERSÁRIO

F E L I Z .. A N I V E R S Á R I O. Quem nunca ouviu frase igual, quase um jargão, proferida por familiares e amigos de fato, em momentos especiais que marcaram nossas vidas?! Me recordo, sim, inda que de sua essência, não tivesse compreensão plena, ela lembrava: festas; bolos; doces e algazarra, mas, interagir com os convidados era muito mais importante do que as fartas guloseimas. Aniversário é um encontro festivo, onde as crianças e os idosos se lambuzam ao comer! Quando criança, poucas foram as vezes em que festejaram o meu aniversário, contudo não esqueciam os meus pais, que naquela data, eu havia nascido. Abraçados a mim, me desejavam saúde, e os beijos protagonizavam a frase do tipo: Feliz aniversário, meu filho. De prole numerosa, jamais lhes reivindiquei outra manifestação, senão de carinho e amor. Aniversário é um encontro festivo, onde normalmente os convidados esquecem o regime! Ter sido um filho pródigo, foi tão ou mais significativo para o meu "velho", que os beijos e abraços ocasionais a ele dirigidos por mim, no Dia dos Pais. Fui seu admirador, e o amei como a um irmão, até, posto que também era um maçom. Homem de conduta ilibada, dispensava os elogios, e sabia disfarçar se os ouvia, virtude inerente aos homens probos. Busco esconder meu visível embaraço por ser o alvo da comemoração, agravado pelas congratulações do Dia dos Pais; sendo um deles e mesmo que orgulhoso, fico deprimido. Doze de agosto de 2012 - cinquenta e nove anos de vida e realizações. Vou mais longe! Aniversário é um encontro festivo, onde se comemora a vida, e não alguns anos de vida! Não questiono que existam Pais e Filhos Especiais, apenas repudio a convenção que diz ser o segundo domingo de agosto, considerado o todo especial - "D i a d o s P a i s". Ora, Especiais a meu ver são todos os Dias enquanto Pais e Filhos no exercício da cidadania, e unidos, se respeitarem sempre, justificando portanto, os festejos em família do tão comemorado evento -"Dia dos Pais"- Se você, leitor, for também um Pai, parabéns. Nas confraternizações, que resplandeça o amor sincero, razão maior desse Dia Especial. Pelo meu aniversário e por mera coincidência, também no Dia dos Pais- 12/08/201. Por Rômulo. Fim

segunda-feira, 23 de abril de 2012

.....R E F O R M A

.......R E F O R M A ...Material e Espiritual Imunizado contra gripes, temi não sobreviver à excessiva poeira, e ainda que o barulho advindo da obra fosse suportável, permanecer recluso num quarto quente e sem refrigeração foi imprescindível, não obstante a benesse de lânguidos sopros provenientes das pás de um puído, mas oportuno ventilador. De preferência e gosto questionáveis, há quem assegure poder decifrar e ouvir como uma maviosa melodia, o som intermitente de um "malhete" fustigando preciso o cimo do "cinzel", e mais, dos cacos de cerâmicas e pedras que se atritam pelo chão, diz captar sutis nuanças de uma provável escala musical. Seria crível, não fosse tão expletivo e beirando as raias do exagero, o Aprendiz que se dizia Mestre, mas em verdade era um simples pedreiro! Atento às asperezas das "Pedras Brutas" existentes em cada um de nós, iniciado ou não, aceitei o desafio pra acompanhar de perto, pasmem, a reforma do nosso apartamento em Salvador, a Capital dos Orixás. Vale frisar que o "repicar" do bendito martelo chegava aos meus ouvidos como "pancadas", apenas, e tão somente os "espirros" em profusão guardavam similaridade rítmica, oriundos das matérias em suspensão. Edifiquei "Templos às Virtudes" e trilhei com segurança os caminhos da honradez, e pra tanto usei com destreza ferramentas, como: a régua; a trolha; o prumo e o compasso, dentre outras, mas confesso que apesar da sabedoria peculiar dos qualificados "Pedreiros do Universo", não fui capacitado pra lidar com instrumentos não virtuais, como os da construção civil, utilizados pra erguer o Grande Templo de Salomão! Azulejos revestiam de branco e enchiam de graça a nossa cozinha, entretanto, ameaçados de serem expulsos pela exaustão da comprometida argamassa, arriscaram das paredes já sem algumas pedras, fuga coletiva, inda que decorrente da precipitação, todos se transformassem em entulho, com destino a um lixão. Foi imperioso tentar salvar da extinção parte daquelas relíquias, em vão, posto que sem triagem foram trituradas pelos fortes golpes de "malhetes" que o desvairado e falso "obreiro", bramiu sem compaixão! Amante de flores raras, colhi há trinta anos uma "acácia" que doei pra Cássia, e pus ambas no meu jardim. À época reformei pra nosso deleite, não um suntuoso apartamento, contudo, uma casa simples, humilde e de um quarto, só, que foi suficiente para nos abrigar e à nossa recém nascida, minha primogênita Milena. Construía ali, algumas das "colunas" que deram sustentação a um longo convívio de amor, respeito e união! REFORMANDO, crônica baseada em mistérios maçônicos, descreve com sutileza a rotina dessa obra, e meu envolvimento em suas etapas, a exemplo de uma outra que protagonizei com o mesmo fim, no passado. Dignos de elogios são os criadores desse projeto familiar, os moradores do apartamento, meu filho Ricardo e a esposa Marina, aos quais desejo até pelo mérito dos resultados: Saúde, Sabedoria e Amor! O ser humano, por certo a maior obra de arte do criador, se rende à força natural da perpetuação, e procria! Surgi dessa fórmula mágica, depois vi dos meus rebentos os seus filhos nascerem, esses meus netos que tanto amo, e o milagre da multiplicação da espécie me fez repensar a vida, ou melhor, a minha vida, a qual julgava ter vivido muito mais do que me tinha reservado o Grande Arquiteto! Ah, como estava enganado... F i m Rômulo > 28/03/2012

quarta-feira, 11 de abril de 2012

P O S T O - F I S C A L

POSTO FISCAL DE COQUEIROS


Confesso não ser saudosista, entretanto, relato da minha infância fatos adormecidos, o que me parece justo, posto que resgato relevantes trechos com experiências adquiridas, e concomitante, trago à luz da evidência para enriquecer o texto, outros episódios, dos quais apenas me inseri como coadjuvante. Omiti nomes de personalidades por uma questão ética.

Se faz mister frisar pra melhor compreensão, "espaço" e "tempo", os motivadores dessa narrativa! Construído na BR 242, o Posto pertencia desde 1959 a Andaraí para Arrecadação e Fiscalização. Naquela unidade, serviram vários agentes, dentre eles o meu saudoso pai Isidoro, que ao se aposentar contava com mais de quarenta anos de bons serviços prestados.

Como em toda Repartição Pública, funcionários se destacam, mas ali, não era apenas pela excelência no serviço, coisa rara naquele Posto. Usando de ardis, o "Gordo" que perdeu seu prenome pela aparência obesa, praticava atos abomináveis. Certa vez e não foi a única, fez retornar no seu plantão, um motorista e seu caminhão de carga, numa operação padrão, lícita, não fosse pelo abuso de poder. Coagido, o cidadão usou a marcha ré por quase mil metros, e ainda sob a mira do revólver de um presunçoso policial. O "modus operandi" lhe fez confrontar com a Lei do Retorno!

Com atuação semelhante e compleição física idêntica à do primeiro, outro Agente agia de má fé no exercício da função, sem que fosse punido, pois burlava a segurança e era amigo de um Segurança forte, cujo nome rima com Sorte ou com Poste, enfim, com algo de grande Porte! Citações à parte, o guarda corrupto não sabia mesmo ser ético, e surripiava das cargas que apreendia, produtos diversos, e os colocava à venda sem escrúpulos, pasmem, no seu ponto comercial.

Naquela Unidade, presenciei fatos e escutei estórias que envolviam Deus e até o próprio Diabo, mas morria de medo de um reles cemitério abandonado, onde sequer havia quem sepultasse nas covas rasas, os raros defuntos, enterrados pelos infortunados parentes. A cerca, inda que de arame farpado não continha dos cães famintos, os saques nas sepulturas recentes, sacrilégio testemunhado por bougainvilles, e pelas flores brancas de abundantes jasmineiros.

Estrategicamente dispostos naquele trecho da BR 242, "cavaletes" pintados de amarelo e preto, impediam dos carros maiores, sua acessibilidade, mas guardavam entre si, espaço livre para os demais veículos, inexplicavelmente obstado pela urna fúnebre deixada ao relento, e que ocupava literalmente, o vão existente entre os mesmos!

Era meia noite naquela noite sem lua, e portanto, escura, quando o féretro seguido de familiares do morto se aproxima do Posto, e quebra o silêncio da madrugada. Findas as cantigas lamurientas, as lágrimas cessaram e deram lugar às piadas de mau gosto, apesar dos aplausos. Alcoolizados, ainda assim, degustavam as sobras dos Biscoitos Sentinela, regados a generosas doses de pinga, servidas do Bar de Juvenal, e num lampejo de lucidez, se levantam e correm ao encontro da falecida, que inerte e fria, aguardava sobre os cavaletes, chegarem os algozes que a levaria pra o calvário!

Imaginem do vigia o seu semblante, no exato momento que abria os cavaletes para os carros transitarem! Pensava ele:
"Que coisa mais esquisita, meu Deus" - apelou pra a divindade, pois sentia medo, mas quando iluminou o pálido rosto do defunto, sentiu prazer e satisfação; era ela, a sua mui querida sogra! Ignorando as normas, se juntou aos bêbados e pessoalmente, testemunhou o enterro da "Jararaca". Não creio que tenha o Preto, chorado a morte de Inês, a "Branca".

A iluminação emanava de um velho lampião Petromax que requeria do operador, certa habilidade ao ajustar a camisinha de aparência frágil. Quando incandescente, clareava toda sala e uma mesa onde se podia ver por detrás dela, sentado a trabalhar, um dos mais queridos e respeitados agentes do Posto de Coqueiros, meu velho Pai. Na verdade, "Velho" é um reforço de expressão, gentil de minha parte, pois era jovem e bem humorado, razão pela qual sempre "aprontava".

Divergindo das movimentadas estradas atuais, no trecho da rodovia onde instalaram o Posto Fiscal, o trânsito não era intenso, e foi daí que pra quebrar a monotonia, o guarda Izidoro articula pra apavorar o vigia, coitado, sempre ele, um plano assustador... Atada a um longo barbante, uma lata vazia foi colocada na parte mais alta da ladeira, de onde descia em intervalos previamente calculados, pelo asfalto, puxada pelas mãos de um guarda astuto e irreverente!

Deslizando pelo asfalto, a lata emitia um som metálico consequência do atrito, e que era potencializado pelo silêncio da noite, quebrado pelo canto nada mavioso de uma coruja. Não obstante o medo, cabia-lhe desvendar o mistério, e cauto, ao reiniciar o irritante barulho, ele "cai de pau" na lata que machucada, se cala. Preto, o vigia "moreno" que eu cria ser "muito esperto" se fazia de "bobo", mas por conveniência! Saindo da penumbra, exibe das mãos trêmulas, o seu troféu!

De volta às tarefas do cotidiano, o eficiente funcionário já em seu arriscado posto de serviço, atende a uma ocorrência, e por instante se vê diante de um contumaz, sonegador de impostos. Tolerante, age com sensatez, mas pede que seja regularizada a pendência documental, e o libera. Motivado por um salário bem merecido seguia firme no dia a dia de trabalho, onde pra seu aconchego tinha ao lado, parte de sua família, filhos e netos, e ainda sua inseparável esposa!

Criativo, captava das chuvas e armazenava em "manilhas" a água necessária ao consumo, e colhia de hortaliça própria, os legumes e verduras. Experiente lavrador, plantava em benefício da unidade, árvores frutíferas e em pequena escala, até os saborosos abacaxis. Costumava quando da escassez das chuvas, por empréstimo, valer-se do vizinho Jacobina, vulgo, "Mão de Onça" para o suprimento extra de água potável. A "Lagoa" equidistante, só aos animais, saciava a sede!

De leite e queijos nos abasteciam respectivamente, Dão e Cornélio, mas pra comprá-los requeria de nós, andar a pé!
Ah, esporadicamente era poupado! Meu pai com seu filho predileto, o João que me tirou o posto de caçula, com a sua Vespa Veslan executava a tarefa. Amedrontado, pois chovia a cântaros, o irmãozinho tremia de frio, e sentia medo que mergulhassem ambos, piloto e co-piloto nas águas fétidas dos poços, já contaminados por bactérias! Sim, chovia muito!

Das freadas bruscas, rastros de pneus eram percebidos à distância, caracterizando a imperícia do condutor, nosso pai. Sutil, o ardiloso pirralho que de bobo nada tinha, planeja e salta da moto; por precaução, opta por continuar a pé, e de longe pode ouvir bem clara, a ordem: "desça e abra a porteira, menino". Qual não foi a surpresa dele ao ver que estava sem o ajudante! "abra logo isso, e suba rápido, seu moleque", bufava o destemido piloto que quase usou de "força" física pra convencer o irritadiço aspirante a motoqueiro, e companheiro de aventura!

Intimidado, não ousou recusar dele o novo convite, e ambos saíram de moto pra comprar da filha do Mestre Dão algumas galinhas Caipira. De fato, nem tempo houve pra lavar a Vespa, e os pneus de novo mergulharam nas poluídas poças de lama, que acolhiam centenas de borboletas amarelas e verdes, atraídas pelo salitre. Despreocupados e à sombra do Ipê, o "Véi Zidoro" e Anorina "conversavam" amigavelmente! E as galinhas?! Corriam pelo terreiro, driblando o esperto João, mas ele sabia, é evidente, que empoleiradas já estavam as aves que de fato, seriam comercializadas!

Embora não tenha sido convidado pra o passeio de moto, me senti útil, pois me permitiram buscar o leite fresco numa fazenda próxima, a Santa Helena, propriedade que pertencia a Carlito Medrado, grande amigo e colega de Seo Izidoro!
Montado em um animal marrento, em sua garupa, e não na da Vespa como teria preferido, segui insatisfeito pela trilha que me levaria ao curral construído com Ipê Roxo, madeira largamente explorada e em extinção já àquela época.

No dorso do jumento chucro e sentada no meio de uma "cangalha" estava ela, uma afro-descendente, amiga da família, negra jovem e de boa aparência, que despertava nos homens, o inevitável desejo de possuí-la já à primeira vista.
Com o sorriso a exibir dentes muito alvos, beija o peão amado que se despede com um olhar maroto; era o mesmo que nos serviu cambrexo (leite com farinha e açúcar) direto do peito da vaca! Iniciamos a volta pra casa, mas de repente...
Com a malícia que lhe permitia a tenra idade, cantava para mim, quando fomos surpreendidos por Betinho, um maníaco sexual que sob protestos da menina ainda virgem, a sequestra, e consuma o vil estupro! Nada pude fazer, e fui embora!

Filho de Chico, um velho que virou manchete pelas doze mulheres que dizia possuir, o depravado Betinho, compadre do meu Pai, gostava mesmo das brigas, e sempre se metia em confusão. Sujeito destemido, que a exemplo de Julião, não temia inimigos, mas, uma miragem amedrontava o valentão. Era mofino, e se apavorou quando em visita à nossa chácara, viu algo esquisito com aparência de um negro, cão! É bem provável ter visto ele, a imagem do próprio Satanás!
De crente, virou católico, e logo veio o desencanto. Morreu ateu, mas a sua mortalha era de um autêntico, Pai de Santo!

Dispondo de um vigia e dois seguranças, seria tranquilo o atendimento da noite, cria o guarda Izidoro não fosse um fato isolado, ou melhor, um terrível incidente que iria quebrar do plantão, a rotina, e roubaria dele, o sono e a sua paz.
Com ações ponderadas e firmes, mas divergentes daquelas protagonizadas por Pamponé, outro motorista cometeu um semelhante erro, e teve melhor sorte, apesar de desrespeitar o aviso de "Parada Obrigatória". Perseguido, foi conduzido de volta ao Posto, onde prestaria explicações necessárias, contudo não o obrigaram a dirigir de ré, o pesado caminhão.

Debruçado num surrado cofre que sabíamos conter dinheiro de arrecadações, o caminhoneiro negociava com o Agente, a provável liberação da "carga" apreendida, quando seu corpo é agitada por fortes convulsões, e ele cai sobre a mesa, onde estarrecido, meu pai viu o rosto dele se chocar contra o chão. Embora abertos, seus olhos não tinham mais vida.
Um enfarto fulminante causou a sua morte, e por pouco, muito pouco, também deixava de pulsar no peito, o coração de um homem justo, que pautado na verdade nada podia temer, entretanto, chorava pela "passagem" precoce do cidadão!

Me senti na obrigação de homenagear esse homem sério, esse "guarda" que trabalhou incansável por mais de quarenta anos em um local quase deserto, onde sua segurança basicamente advinha do respeito para com os caminhoneiros e seus patrões. A relação de fraternidade demonstrada ao meu pai pelos seus superiores, e colegas, me motivou a seguir o seu exemplo, e ao me aposentar, vi a história se repetir, e como ele, fui homenageado por ser um homem honrado!

Fim > por Rômulo - 01/01/2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

...........A L C O O L I S M O

--------- S E M N O Ç Ã O - Vícios e mortes

Contrariando os ditames da minha vã compreensão, o argumento de um alcoólatra que ingeria drogas e se dizia feliz reacendeu em mim a necessidade de pesquisar os efeitos do álcool como estimulante, vez que contribui para a degradação psíquica, física e moral do indivíduo, e como a vida é feita de escolhas, teve como prêmio, a sua própria morte!

Deus no uso da sapiência fez o homem à sua semelhança, deu-lhe inteligência, mas ele usou do "livre arbítrio", uma "invenção do Diabo" para persuadi-lo a conhecer o inferno!

Após alguns anos de observação, vi pessoas instruídas, algumas com formação na área de saúde, amigos meus, inclusive, que sentiram na pele, ou melhor, na mucosa nasal o ardor e a incandescência das pedras de craque em chamas; é fato... Homens que tiveram ceifadas as suas vidas em detrimento da fatídica e contumaz ingestão de drogas, também aquelas aceitas como lícitas, qual o cigarro e álcool, mas que inexoravelmente, matam!

Vítima da indução dos anos oitenta, cria tanto quanto outros jovens num estereótipo do "mocinho", aquele que degustava whisky e fumava charutos "Havana" nos raros filmes, enquanto as informações bem limitadas diferiam das atuais, quando a mídia televisiva e jornais dão enfoque especial sobre os graves riscos dessa prática, pouco recomendável.
Por sensatez antevi melhor qualidade de vida, e determinado me esquivei do fumo e do álcool, exemplo que deu aos meus filhos a chance de uma vida saudável e sem vícios.

A motivação de escrever sobre o tema "Alcoolismo e suas consequências" me levou a descobertas inusitadas, e citaria se pudesse, além dos fatos, nomes de personalidades vítimas precoces desse vício terrível, o grande vilão que causa dor e muito sofrimento.
Numa comunidade de pequeno porte como Lençóis, o consumo de laticínios, a exemplo do leite, é infinitamente inferior ao da bendita "cachaça" que ostenta o primeiro lugar.

A concentração de alcoólatras na Rua das Pedras é bastante expressiva, e a exemplo da "cracolândia" se amontoam nos passeios e portas de tradicionais "Pontos Comerciais" do centro da cidade, afugentando turistas e nativos que evitam transitar naquela via, pois as abordagens são constantes, pouco gentis, e sempre incomodam. Se a vida é mesmo um show, ver o ser humano sucumbir refém da dependência química é o seu pior espetáculo!

Protagonizando a escolha medíocre e "sem noção" pela entrega aos vícios, estão aliados e democraticamente juntos na mesma desgraça - homens, mulheres e até adolescentes que excluídos do processo social de direito, padecem na esperança de um tardio socorro.
A ação da Loja maçônica Amor e Luz III experiente no combate aos vícios, atuou no resgate de alguns desses infortunados profanos que ainda assim, retornaram às trevas.

O alcoolismo em Lençóis é uma questão de saúde pública, e os poderes constituídos, até por um dever humanitário, poderiam viabilizar projetos de combate, recuperação e reintegração dos dependentes químicos de volta às suas famílias e ao convívio social. Sem distinção de raça e nem mesmo da condição sócio-econômica, o álcool, o fumo e estimulantes outros, têm levado a óbito - pobres e ricos, ignorantes e intelectuais, e um número considerável de "aposentados" que conscientemente fizeram uso do livre arbítrio!

Por quanto tempo haveremos de derramar sobre túmulos de amigos e parentes, nossas já escassas lágrimas de dor?! Famílias tradicionais e nem por isso menos sofridas, choram a perda dos entes queridos, não obstante o custo da "urna fúnebre", pois são todas iguais as MÃES ENLUTADAS que sofrem pelos seus filhos, alguns ÓRFÃOS de PAIS VIVOS. #

F i m

Por Rômulo _ 02/2012

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

..........M A T R I M Ô N I O

............. Ricardo & Marina

Por Rômulo

A ânsia tomava conta dos nubentes, até pelo cansaço das noites mal dormidas, onde cada detalhe do projeto "casamento" foi por eles exaustivamente checado. Oito de janeiro de dois mil e doze amanheceu quente e ensolarado, uma bênção de RÁ o Deus Sol e Iemanjá a Rainha das Águas. A celebração inda que solene quebrou paradigmas, quando não por acaso foi realizada ao ar livre, e no encontro de um rio com o mar.

Águas Brasil com sutil requinte e visível estilo, foi o local perfeito pra receber do Rio Joanes e vindo do mar, uma noiva deslumbrante que ousou inovar. Do seu violino acordes afinados arrancavam da platéia, os aplausos, enquanto no barco que deslizava em águas mansas, a jovem inspirada, e ao por do sol, interpretava a canção "Quando a Gente Ama" de Oswaldo Montenegro. Por um instante vimos ignoradas as formalidades, e até mesmo o Meritíssimo juiz celebrante deixou o púlpito, a exemplo dos padrinhos e convidados, pra testemunhar aquele momento raro, de magia e beleza indescritível, que seria citado no seu sermão!

Perplexos nos voltamos pra ver da pequena embarcação, descer em terra firme, a emocionada Marina, quando o solo suave do seu instrumento, de repente cedeu lugar a um som forte e bem definido de um saxofone. Do altar nada convencional onde não se via resquícios das ricas pinturas barrocas, Ricardo orgulhosamente deu continuidade à canção símbolo de um amor recíproco, e sua impecável interpretação não deixou dúvidas de quão emocionadas ficaram as pessoas, posto que não contiveram suas lágrimas.

Com trajes simples, mas de muito bom gosto, o casal de noivos inovou também no vestuário pouco usual, sobretudo numa cerimônia de casamento, que foi registrado em foto e vídeo. Ela esbanjou estilo ao desfilar com o vestido creme de cauda longa e detalhes em renda cearense. A pintura discreta acentuou seu rosto bonito, encimado por um penteado que deixava ver com simetria, pequenas rosas brancas, feitas à mão. O irreverente noivo dispensou o tradicional terno com gravata, que provavelmente lhe assentaria muito bem, e não menos elegante caminhou com graça e leveza como se estivesse numa passarela. Suas vestes, composta de uma bata rica pelas rendas de bilros e a calça também branca e de puro linho, fez toda a diferença, e ainda optou por usar uma Sandália Stephanie pra calçar os seus pés. Assim, foram para o altar.

A cerimônia foi celebrada pelo Juiz de Paz, o doutor Alberto que fez uma palestra com enfoque no amor sem restrições; no amor puro e verdadeiro, coisa rara, até pelo excessivo número de divórcios que coloca em cheque a credibilidade da instituição família. As alianças, símbolo de união foram levadas aos nubentes por Thaís a irmã de Marina que se emocionou, mas refeita, leu "A Aliança" poesia preferida de Dona Nancy.

Findas as ponderações pertinentes, doutor Alberto, o juiz, fez ao casal o questionamento de praxe e ouviu sem surpresa o "sim" que o público presente ouviu claramente..."desejamos ficar sempre juntos, disseram".

O segundo e o último momento da cerimônia culminou com a leitura de uma crônica - "A Bênção das Areias" escrita por Rômulo o pai de Ricardo. Criam os recém casados como bem citou na mensagem o literato, que a fusão das areias "azul e laranja" levadas ao altar, seriam abençoadas, e depois de misturadas por ambos, fortaleceria a expectativa de que poderiam viver...

............ "Juntos para Sempre, e Separados, somente pela Morte!

Fim > 09/01/2012

Considerações: O evento foi bastante comentado - antes, durante, e depois de sua realização.

Antes - Quando da criação e idealização do projeto de autoria de Ricardo & Marina;
Durante - Quando da busca por profissionais especializados, e a inserção deles no projeto;
Depois - Pela mídia e convidados quando das críticas elogiosas ao ousado e bem elaborado projeto.


.......C A S A M E N T O - Ricardo & Marina

...................B Ê N Ç Ã O. .D A S. .A R E I A S


O matrimônio, provém do amor incondicional, e sempre culmina com a União Indissolúvel, desde que seja fortalecido por um relacionamento, sólido. Presenciamos nesse instante a união de dois jovens que se encontraram ao sabor do acaso, e não por acaso optaram por viverem "Juntos e Felizes para Sempre", como se fosse em um Conto de Fadas.


A metáfora "O Encontro das Águas" vista no criativo convite de casamento, retrata parte da trajetória do casal, e nos mostra que apesar de terem nascido em diferentes regiões, seriam contemplados pelo destino, não obstante os obstáculos enfrentados e vencidos.
A perseverança de ambos tornou exequível um grande projeto - A União, se por amor!


Essa moça que esbanja felicidade, é privilegiada por ser baiana e ter sido criada em belas praias. Com seu Barquinho imaginário, de cor laranja, sem pressa, aguarda. Só aguarda! Espera que surja pela maré, e vindo das águas límpidas das cachoeiras de Lençóis na Chapada, o Barquinho Azul com seu amado! Ricardo era o filho dos rios e Marina, do mar!


As areias de cores vibrantes, que ora veem, indicam o Amor efervescente que dá graça e vida a esse enlace matrimonial. A areia Azul simboliza as intenções do noivo, Ricardo, e a disposição dele em fazer feliz aquela a quem escolheu pra ser sua eterna, companheira.
Marina, representada pela Areia de cor Alaranjada, mostra quão feliz foi a sua escolha, e se deixa levar ao altar, e aceita ser misturada, porque entende que outros tons, surgirão!


Inseparáveis, os grãos de areia antes dispersos, já sem cor definida, definem o destino desses amantes, responsáveis pelas lágrimas que afloram e umedecem os finos lenços, enquanto nós, os Pais afortunados, nos realizamos em ver felizes nossos filhos, unidos pelo santo matrimônio. Rogamos que sejam as areias abençoadas, e que da fusão dos seus grãos surjam as rochas que edificarão o novo lar, com Sabedoria, União e Amor!

Por Rômulo,

08/01/2012




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

......P O T I R A

...................POTIRA - Inocência e Pecado
Por Rômulo > 25/12/11

Como qualquer criança, ela brincava de roda, pulava corda, e dentre todas, a indiazinha Potira era a preferida da aldeia. Os cabelos negros e lisos reluziam ao sol, e bailavam livremente ao sabor do vento. Juntou-se também aos demais irmãos e primos, a menina que contava apenas doze anos de idade, mas dava mostras de coragem e sabedoria. Exibindo destreza, se agarra com firmeza em um galho que pendia da Gameleira vivaz, e se lança num mergulho acrobático com a precisão de uma exímia, campeã olímpica! Naquela tarde quente, as crianças exauridas pelo calor, resolveram banhar-se nas águas do Rio Tory.

Observadas à distância, sequer temiam da Sucurí faminta, o seu ataque fulminante. A convivência com situações de risco era algo tão natural, que elas usavam apenas a intuição como defesa ao perigo iminente. Despreocupados, os índios se ocupavam da rotineira caçada, enquanto suas mulheres preparavam o jantar, onde podiam farta-se com beijus e peixes assados na palha da bananeira. Findava assim, o dia na aldeia".

O amanhecer, que em nada lembrava os centros urbanos, chegava e enchia de sons, alguns bucólicos como o canto da Araponga, e outros maviosos, qual o do Rouxinol, despertando a todos para um novo dia! Os adultos reunidos naquela manhã, me faziam crer na quebra da rotina, em breve, pois alguns traziam do mato ali perto, muitos troncos, cipós e palhas. Começaria nova atividade dentro do círculo festivo da Aldeia.

A iniciação sexual, como de praxe, acontecia muito cedo, até mesmo pela irrestrita liberdade que tinham. Bons observadores, viam dos animais silvestres, o coito; e por quê não imitá-los? Instintivamente, trepavam.
Seguindo os ditames já estabelecidos, a entrega em definitivo das supostas virgens aos parceiros, atendia a um ritual, quase macabro; teriam que mostrar bravura e coragem, nas provas, pra conseguir delas, o amor!

Potira, qual fêmea de leopardo no cio, exalava ferormônios, e aguçava dos participantes, a sua conquista. Era de fato, muito bonita, e seus seios rijos despertavam nas concorrentes, o sentimento vil, da inveja! Separadas dos outros adolescentes, as meninas em cárcere privado, ansiavam pelo início da competição que lhes restituiria a liberdade, e a chance da procriação. Ao vencedor, o direito da perpetuação da espécie.

Os índios que postulavam a vitória no embate, vestiam uma espécie de tanga de tecido natural do babaçu, abundante na região. Na cabeça, usavam da mesma planta, os frutos, unidos, formando uma vistosa tiara. À frente das duas colunas formada pelos jovens, havia um fosso, onde teriam que atravessá-lo tendo às costas uma tora muito pesada. Vale ressaltar que seriam tentados a parar também pelas ferroadas de formigas pretas e venenosas, previamente selecionadas e colocadas na madeira. O martírio começava...

De repente, surge por trás da oca onde estavam, um índio adulto e convence a ingênua Potira a deixar-se por ele ser pintada. Afirma que seria rápido, e que voltariam a tempo pra ver iniciada, a competição. Agarrada pelos cabelos, somem os dois pelo milharal, à cata, dizia enfático o malfeitor, de tintas especiais. Enquanto isso, competiam com a determinação de titãs, os guerreiros, pois sonhavam receber do chefe, o prêmio mais importante e cobiçado por todos...a indiazinha dos lábios de mel - Potira!

Deitada à força, cede aos caprichos do astuto e malvado índio, seu irmão de sangue. Sim, haviam nascidos da mesma mãe, e eram filhos do poderoso Cacique Aimoré. Impedido de concorrer por motivo óbvio, o filho planeja e cumpre seu insano desejo de possui-la. Violentada várias vezes, volta cambaleante, e desmaia ao ser amparada pelo próprio, Pai - o valente Acauã. Momentos antes ele validara a vitória do seu futuro genro. O incesto não era uma prática do índio, traço esse, herdado do homem branco e cristão, que o catequizou!

Atendendo ao grito de dor daquele pai sofrido, toda a aldeia em pé de guerra se mobiliza em busca do depravado nativo que maculou e envergonhou o povo indígena. A festa não mais continuaria, pois piorava a hemorragia decorrente do bestial, estupro. Seus lábios entreabertos não mais cantariam, e nem seus olhos poderiam ver novamente o por do sol, pois se fecharam para sempre. Inerte, ela jazia nos braços do Pai.

As toras e as palhas antes recolhidas pelos guerreiros, ardiam numa enorme fogueira. As altas labaredas pareciam das suas contorções, querer passar a ideia de serem festivas, pois elas dançavam. Dançavam frenéticas as chamas, ao som de gritos horripilantes que vinham do moribundo assassino da linda Potira. Com músicas e gritos de júbilo, os índios batiam os pés descalços no chão, numa ritualística toda especial...
Em transe, e num círculo que lembrava a "cadeia da união", executavam a temida, DANÇA DA VINGANÇA#

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

......T A Y N A R A

Vestido Branco

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O ano letivo findava, e mais uma vez estava convicto da minha aprovação também naquele último semestre. No boletim de notas, lia-se em destaque o termo "distinção", como de costume, e até por isso planejaria com antecedência as férias, mais uma que marcaria a minha adolescência. Chegara o dia, enfim!

A noite que antecedia a viagem, em especial, aquela, parecia mesmo não ter fim. O Fusca azul que ainda exalava cheirinho de carro novo, fora arrumado de véspera, e parecia incomodado não apenas pela excessiva bagagem, todavia, pelo orvalho frio e abundante em seu teto, a escorrer como lágrimas, até o chão! Da fresta, também via o dia amanhecer, e com ele, a certeza que partiríamos para Redenção.

Meu pai, um homem de prendas mil, no ofício de motorista deixava a desejar; mas era determinado. Seguíamos no Fusquinha sem sustos e sem paradas, exceto quando acometidos da ânsia de vômitos. No interior do carro, além do calor sufocante, tínhamos que inalar como se fumantes fôssemos, a maldita fumaça daquele cigarro Continental sem filtro. Meu "velho", o meu herói, não percebia até por conta da dependência ao fumo, que nos expunha a graves doenças respiratórias. A viagem transcorreu dentro do esperado, e na manhã de um sábado, dia da feira, adentramos no povoado, o berço do meu nascimento.

A rua que dividia ao meio todo o povoado, lembrava sem exageros, uma gigantesca colmeia. Em lugar das abelhas, feirantes em frenesi e aos berros, tentavam vender os seus produtos. Respeitadas as proporções, o barulho na extensa via pública, guardava em decibéis, similaridade com o característico som da torcida do Flamengo em festa, no Maracanã. A feira ao ar livre, essencialmente um lugar para negócios, cedia espaço também para encontros e acordos amorosos; e quase sempre terminavam em casamento!

O seu final acontecia à tarde, quando das praças e adjacências, recolhiam amorfas, dezenas de barracas.

Rostos conhecidos desfilavam diante do embaçado vidro, em profusão, mas nenhum deles me interessava. Mãos acenavam à nossa passagem, como se desses gestos simples quisessem nos desejar, boas-vindas; aquilo, enchia de orgulho o meu ego, entretanto, sofria por não ver entre tantos outros, o seu rosto lindo, minha querida "Taynara". Dessa vez seria diferente! Iria procurá-la, nem que fosse à porta de sua Igreja. Essa adolescente com traços da raça indígena, me encantava não apenas pela candura e ingenuidade, sobretudo, pelo desafio da conquista, já que professava diferente de mim, segmento religioso não católico!

Colégio, matérias e professores, coisas do tipo, ainda que importantes preferia nem lembrar; a propósito. Queria como sempre, e isso ocorria em todo verão, andar a cavalo na fazenda do saudoso tio Octávio; pescar piabas e tomar banho de "cuia" no tanque de tia Branca, a convite do primo Nondas; jogar uma "pelada" em dia chuvoso e lavar o meu corpo suado nas frias águas das "bicas", de cueca, e nu, às vezes!

Guiado por amigos de infância, não resistia à tentação do banho nas barrentas águas do Tanque da Nação. Aconteceu, e logo comigo... Depois do nado que em nada parecia com o sincronizado, de volta pra casa, até pelo capim em viço que feria nossos rostos, velozes, corríamos em fila indiana. Desatento, me embaracei num fio de arame farpado, reminiscência do que fora antes uma cerca. Fiquei suspenso, qual manta de carne em açougue, e do meu tórax escorria em abundância um líquido quente e viscoso...sangue! A cicatriz não mais existe no meu peito, embora tenha perdurado em definitivo, a dantesca cena de horror.

Redenção, de tantas vitórias, e muitas delas com participação efetiva de seus fundadores, Izidoro e Angelina, jamais será por nós, seus filhos, esquecida. Mesmo à distância, ainda assim, torço pra que outros filhos seus, administradores políticos te coloquem em destaque, mormente diante de suas coirmãs, cidades históricas da Chapada Diamantina. Sua ascensão ao patamar de cidade nos fez sentir, deveras, honrados.

E o menino que em férias, aprontava todas?! O que mais fizera, ele? Continuemos a falar de suas estórias... Acolhido por todos os parentes, hospedava-se sempre com as irmãs, Jandira e Valda! Já ouviram o adágio, "galo onde canta, janta"? Pois é, caro leitor, o garoto moreno, de olhos graúdos e cabelos fartos, Rominho, carinhosamente chamado, se sentia em casa. Simpático e "metido" a galanteador, às vezes se dava, bem.

De minha preferência, a Praça do Mercado, bem iluminada, não diferia das demais, exceto por um motivo - residia em uma daquelas casas, uma adolescente morena, muito especial, pra mim. Com uma plástica singular, Taynara a filha de um comerciante local, me fascinava. Garota tímida, de formação religiosa rígida, estava tão perto de mim, mas um abismo nos separava - ela, era evangélica, e eu, um iniciado católico!

Os dias, quais ponteiros de relógio Suíço, não paravam nunca, e a segunda semana das férias, findava. Precisava encontrar rapidamente, um jeito de transpor aquele incômodo, obstáculo. Minhas bucólicas manhãs eram todas preenchidas com atividades lúdicas, razão pela qual detinha corpo e mente, sã.
À noite, refém do desejo da aproximação, vagava de um lado ao outro do jardim, na expectativa de ficarmos juntos. Isso só ocorria ao término das obrigações religiosas, e sempre na companhia dos fiéis escudeiros.

A quarta semana havia chegado, e algo parecia nos dizer quão próximos estávamos da separação. Todos os amigos, apiedados, tentavam nos animar, em vão. Angustiado, tinha muita pressa, por isso ansiava que findasse o dia e surgisse a noite, mesmo sem o luar, quando poderia ver e quem sabe, até acariciar a face daquela menina de jeito dengoso, e com sorte, até poderia beijá-la; ah, quem dera, fosse factível...

Cruel destino! Ingrato destino...roubastes de mim, sem piedade, um amor adolescente que imaginava não ser correspondido. Restou-me saber, ainda bem, ter ele sobrevivido todo esse tempo, embora adormecido!

Naquela noite, ao final de mais um culto de oração, me dirigi à pracinha e notei você, mais linda ainda pelo contraste do seu "Vestido Branco", que envolvia como se fora um manto, o seu juvenil corpo, bronzeado. Me veio à lembrança a visão do seu ombro desnudo, e dele pendia sem malícia, uma parte de suas vestes; era uma manga desgarrada displicentemente, como se a propósito, para delírio meu, seu eterno admirador.

As férias, antes tão esperadas, não tinham mais de mim, o mesmo interesse e razão. A cidade perdeu toda a graça, se é que a graça dela partia, o que duvido, pois quem de fato dava vida e graça a tudo, era você! Você se foi, Taynara, de maneira sutil e definitiva. Jamais ousei criticar a escolha que fizestes, e que tantos bons frutos desse relacionamento, colhestes. São dádivas divinas os teus filhos, criados na Paz do Senhor!

O jovem entusiasta, que vivia a cantar, não mais cantou, principalmente naquela praça onde tudo começou. Como bem dissestes, "de caju em caju" eram assim as minhas visitas, e isso implicou na sua tomada de decisão. Ratifico isenção de culpa, até pela hipótese da não reciprocidade afetiva, que parecia verdadeira.

Do meu casamento, qual o seu, Taynara, também vi nascerem filhos maravilhosos, e até netos. Creio, portanto, que temos algo a mais em comum: Amor irrestrito pela família que constituímos. Deus há de preservar nosso vínculo de amizade, à semelhança do que fez no passado, com nossos estimados, Pais.

O tempo passou, é evidente, e a menina ingênua e meiga, que por timidez até "chorava às escondidas" se fez excelente Mãe de Família. Que apesar da precoce perda de um ente querido, não se deixou abater, e buscou na fé, a continuidade de um importante Projeto de Vida; criar e educar os seus filhos com dignidade.

Querida Taynara - externo incondicional admiração por você, nessas três fases de sua vida: infância, como amigos; na adolescência, até mesmo pelo envolvimento todo especial que tivemos; e, já como adulta, pela serenidade ao administrar sozinha, sua família, e ainda preservar princípios fundamentais, como: honestidade e fidelidade, dentre outros! Me obrigo a apontar o fator determinante pra muitas das decisões equivocadas...o seu inquebrantável "Princípio Religioso", que como dogma, era fundamental. E as regras? Regras são regras, e podiam ser ignoradas.

Como teria sido diferente o desfecho, se as tivéssemos violado!

Fim

Por Rômulo Bispo Em 15/11/11

domingo, 18 de dezembro de 2011

......F O B I A S

FOBIAS PRECOCES - por Rômulo

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Maria Luísa, essa menina serena e meiga, aos seis meses de idade se vê diante de um desafio, o primeiro, quiçá, derradeiro; colocada diante de um sapo, não o teme, e surpreendentemente o acaricia. Parecia entender que o animal ao alcance de sua mão não a incomodaria, até porque era um artefato moldado em barro cozido, apesar de sugerir em incautos curiosos, do próprio bicho, similaridade de imagem.

Decorrido algum tempo, agora com quinze meses de vida, ela não mais se aproxima do amigo com outra intenção, senão a de machucá-lo. Com o olhar fixo, dedo em riste e a sobrancelha em arco, aproxima-se cautelosa e chuta o bicho. Aquela reação sinalizava, a meu ver, o início precoce da primeira fobia. A melhor defesa é sempre o ataque.

O espaço de sua preferência, nosso jardim florido, conserva nas gramíneas, os desenhos e esculturas que também encantam o sapo, agora preterido. Cata-ventos coloridos, pinheiros com enfeites e luzes do Natal, tão belos, e nem assim fica sozinha, ali, a menina que agora teme as aranhas, e as baratas. Detesta as moscas, fustiga e pisoteia certeira, os insetos, com ênfase aos peçonhentos.

Do escuro ela não foge, e se esgueira entre os móveis sem contudo reclamar de suposto, apagão. Mas tem horror em ficar só, e logo escuto seu insistente clamor: "vovô" - "vovô". De braços erguidos e com o sorriso de volta aos lábios, se deixa erguer faceira, buscando em mim, aconchego e proteção.

Quando se iniciam e findam as fobias? Não se sabe ao certo, entretanto, nas crianças ocorre muito cedo, e salvo algumas exceções, perduram por toda a infância. Há casos, e não são raros, de adultos e até mesmo idosos que não conseguiram debelar o mal, e em decorrência disso, graves acidentes são registrados e até com óbito.

Vejamos, pois, um relato de um desses fatos, onde um veterano e habilidoso motorista sem conter o medo de baratas, deixa à deriva o automóvel que sai desgovernado da rodovia, caindo de uma altura considerável, matando-o de imediato. Outro episódio de veracidade incontestável, ocorreu com um colega do Banco do Brasil, que mesmo estando no seu posto de atendimento e com um cliente à sua frente, abandona-o, e corre alucinado, escada abaixo. A camisa rasgada por ele deixava ver seu tronco nu, e dos trapos caídos ao chão, um gafanhoto que sem nada entender, fora esmagado.

Sutil e gradativamente devemos orientar a criança portadora de fobias, a confrontar-se com a realidade. A fuga nesses casos só tende a agravar o mal. Com Maria Luísa, minha neta, tenho obtido resultados positivos, e é fato, aproximando-a das situações supostamente, de risco. Certa noite, escrevia distraído, e só percebi o terceiro dos seus chamados; levantei-me e fui ao seu encontro. Encostada na parede tinha ela nas mãos suadas, creio que em decorrência da aflição, uma pequena lagartixa, já morta.

Seus olhos não demonstravam sinal de júbilo, mas de dor e compaixão. Isso eu pude observar no semblante daquela menina peralta, que sem temor, exibia aquele animalzinho sem vida. Inclinando lateralmente a cabeça, abre os braços, e exclama a todo pulmão: Ooooohhhhhh - Ainda que expletivo, caro leitor, jamais traduziria com as frases, outro sentimento para aquela exclamação, senão o de tristeza e piedade.

No trato com os cães, é carinhosa, mas o relacionamento não é tão amistoso, assim.

Convive com dois deles: Willy, o Poodle, e o arredio Fox com raça não definida. Dizem, e até concordo, ser ele um verdadeiro, cão chiuawa. Com o Poodle tem maior afinidade, mas em verdade, se percebe pelo chiuawa, relação pública de amor e ódio, fruto das mordidas dele, em crises de puro ciúme. Os cães não lhe causaram fobias!

Via da regra, os adultos inscientes são responsáveis por parte das fobias, irreversíveis às vezes, adquiridas pelas nossas crianças. Autores consagrados, os pais e a própria mídia, insistem na mediocridade do repasse oral das lendas urbanas e de músicas voltadas ao público infantil, com indução clara ao medo e ao terror.

Cito por exemplo - Mula sem Cabeça; Saci Pererê e outras tantas focadas no sobrenatural mundo das trevas, como: Drácula e Lobisomem. (essas, para crianças maiores), como se tamanho fosse posto! As músicas que persistem ao tempo, remetem à lembrança do mal imediato: Atirei o Pau no Gato; Cai-Cai Balão; Pai Francisco (foi pra prisão), obras que despertam nelas - ódio, vingança e frustração.

Fim - 11/11/11

Crônica dedicada às crianças, especialmente pra Maria Luísa que reacendeu em mim, seu vovô predileto, o hábito saudável da leitura e da escrita.

Minha amizade por você é tão forte quanto o aço, e tão resistente quanto o mais puro dos diamantes. JAMAIS se DESGASTARÁ com o tempo, e é inversamente proporcional às suas fobias que apenas permanecerão vivas, em suas lembranças.

08 de Dezembro - Sra. Conceição

Em um dia oito, diferente do oito de hoje, mas, igual a tantos oito de dezembro, me permito lembrar - cercado por crianças, ávidas pra degustar de sua esposa Angelina, as iguarias do almoço anual, meu Pai Izidoro cumpria mais uma vez sua promessa feita à Imaculada Conceição, pelas graças alcançadas.

Consagrado, esse dia enaltece e representa a família, célula máter da identidade de seus membros: pai, mãe e filhos, estilo que assegurava ensinamentos necessários à formação de probos cidadãos. Se manteve desde o Brasil Colonial, mas registra-se alterações significativas no Conceito de Família ao longo do tempo.

Autodidata, ele ministrava aulas como se fosse um mestre, e conseguia apesar das limitações, transformar o ambiente em que vivia. Transferia com simplicidade seus conhecimentos, legado exclusivo de poucos, em benefício dos conterrâneos, os moradores "Das Matas" que em breve seria Povoado, e a seguir, Redenção.

Afeito ao exercício da agricultura familiar, dormia cedo e acordava mais cedo ainda, tentando fugir do calor do sol de verão, e seguia determinado a cuidar do seu plantio de subsistência: mandioca, milho e feijão.
Na terra prometida, havia poucos moradores, e todos eram agricultores. À noite, cansados de tanto carpir se agrupavam os amigos num barracão, onde definiam ações para o dia seguinte. Depois de muita prosa e discussão, ébrios, erguem um brinde, o último, e retornam pra casa cambaleantes, imersos na escuridão.

Paciente, mas com a energia peculiar da mulher cabocla, minha mãe acolhe o marido, embriagado, alimenta-o e o induz ao sono reparador. No dia seguinte, à semelhança do ocorrido na noite anterior, a cena se repete, e o homem trabalhador, envergonhado tenta se explicar, em vão, pois nem podia se expressar.

Sem ser brotada da minha fértil imaginação, por ouvi dizer, relato e me desculpo se maculo a sua imagem, Pai querido, um fato que culminou na sua abstinência etílica, irreversível. Aquele que te obrigou a refletir... Passava da meia noite, e levavas do Barracão às costas, provisões para a semana. Qual marujo em terra firme, seu andar nem tão firme denunciava a embriaguez, e sob chuva forte, parou à beira do Rio Parauaçu.

Seu olhar vago, deixava crer que desmaiaria, mas resistiu o quanto pode, e mesmo alcoolizado achou a trilha de pedras submersas, que o levaria em segurança para o outro lado do rio. Parecia ouvir da esposa, ou da filha adolescente, gritos angustiados pedindo que voltasse, mas ele teria que continuar, e pôs o saco com os víveres sobre a cabeça, e caminhou sobre as pedras, confiante. Lograria êxito, o seu intento?

Não muito distante dali, na tosca casa de taipa, ansiavam, mãe e filha. Devotas fervorosas da Santa do dia, oravam por um retorno com saúde do companheiro amado, vítima da bebida; um alcoólatra em potencial... Seguia na trilha, cauteloso, mas não chegaria à outra margem, pois o tronco trazido pela correnteza, atinge em cheio suas pernas, e faz dele, um náufrago. À mercê das ondas, vê com pesar o saco com as compras, afundar, e num lampejo de lucidez, pede clemência. Em instantes, passa em sua mente o filme da sua vida! Imaginando-se diante da Santa de sua devoção, suplica: Imaculada Senhora da Conceição! Rogo-te seja a mim permitido a abstinência do álcool, e me livre de outros vícios, que coloque a minha e a vida dos meus familiares em risco. Que me seja concedida essa graça, oh, Mãe piedosa, e em troca prometo alimentar sete crianças pobres, e seus acompanhantes, a cada dia oito de dezembro, enquanto vida eu tiver!

Hoje, 08 de Dezembro de 2011, sem promessas e sem as típicas comidas caseira, nada comemoramos em família, senão o momento religioso, e de fé. Das iguarias à base de milho, quase nada se vê, nem mesmo a galinha caipira e o macarrão, dupla que marcava presença no variado cardápio dos banquetes!

Aceitos, também no povoado distante, terra que escolheram pra empreender, os meus pais fizeram por merecer de seus habitantes, sem exceção, o gozo do respeito e da admiração, plena! Homenageado, teve o nome Izidoro Bispo, emprestado para uma Escola, e também pra uma Via Pública no centro da cidade. Construiu a sua e tantas outras casas ali, a primeira, inclusive, num claro sinal que antevia a transformação daquelas terras boas, "As Matas", numa próspera e acolhedora cidade - a Nova Redenção.

Desejoso de conhecer outras paragens, fez algumas alternâncias de residência: em Ubiraitá, ainda no mesmo município, também construiu uma excelente casa, e ali passou uma boa parte de sua vida.
Na premissa de que os filhos, já em bom número, precisavam de boas escolas, ele parte, e dessa vez escolhe Lençóis, na Chapada Diamantina. Com características próprias, essa cidade oferecia além dos estudos, uma fonte inesgotável de lazer. Cercada por serras e com água em abundância, agradou a todos.

Mas...e o almoço do dia 08 de dezembro, sofreu perda de continuidade, ou não foi mais citado, a propósito? Sim, até pra não faltar com a verdade, posto que em citações anteriores, o fiz pelo bom uso do "ouvi dizer". Como poderia não mencionar de importância igual, a participação voluntária das mulheres da família, que davam graça e descontração ao evento, já em Lençóis, e por muito mais tempo, em Parnaíba.

Por quantas vezes tiveram elas, as crianças, de também nas esteiras se acomodarem, em virtude da escassez de cadeiras e mesas, já repletas de adolescentes, pais e convidados. Uma poltrona, entretanto, tinha lugar reservado...sentado, tinha seu prato à mão, e sorria feliz, o meu querido pai, o eterno, anfitrião!

Ainda que falte na mesa, alimentos como os do seu tradicional almoço de 08 de Dezembro, me sacio dos exemplos de fé, qual inquebrantável promessa sua, feita à Imaculada e piedosa, N. Senhora da conceição.

Homenagem (in memorian) aos meus pais, Izidoro e Angelina. (08/12/2011) Fim > por Rômulo

Os Filhos

O S F I L H O S

Fui agraciado com três deles, e com igual comoção lia dos testes preliminares, o resultado sempre positivo, em cada um dos eventos. O nascimento era pra mim singular momento de reflexão, pois sentia que Deus em sua infinita bondade, presenteava-me sem contra-partida; em compensação, jamais o decepcionaria.

Experiência inusitada, mas gratificante, decorreu do meu contato com aquela menina pequena, que se chamaria Milena. Nascia em 1979 - Ano Internacional da Criança, a minha tão esperada, primogênita!
Não estávamos sozinhos naquele desafio primeiro, vez que o suporte familiar clamava por cooperar conosco, e isso foi fundamental.

Maria Andrade, tia-avó abnegada, teve relevante influência na criação e na formação dos nossos filhos.
Intelectual notável, essa mulher, minha segunda sogra, escolheu nunca procriar, mas ironicamente, criou!
Fez como poucas teriam feito, o papel de Mãe, de educadora e de conselheira, ao assumir como se fora sua, a filha da irmã, não menos idolatrada. Credito também às tias tão amorosas, o mérito da participação.

Resultante de prévio acordo, surge não por acaso, Ricardo o nosso segundo filho. Um menino forte, sadio, e que à semelhança da Mãe, Cássia, fazia suscitar das visitas, elogios também por ser ele, muito bonito!
Crescia rápido, e de repente ficava surpreso com suas peraltices. Ao chegar do trabalho ficava radiante com os relatos, mas, em detrimento do serviço, não podia acompanhar, mormente em dias úteis, os meus filhos.

A participação familiar foi importante e decisiva! Ricardo, qual Milena, contava com mais um reforço; Dona Alda, uma professora super exigente, tia deles, que os orientava no aprendizado extra escolar; com afinco. Dona Elza, a outra tia, tão meiga quanto as outras, ministrava-lhes boas maneiras, traço presente até hoje.

Ah, lembro-me e eles também de "Beata", uma serviçal negra de alma branca, que os entretinha com seus causos e estórias. Por mim, demonstrava simpatia, e em tom de pilhéria, me chamava de "Romiu" o caixa do Banco do Brasil, única pessoa em quem confiava pra receber seu benefício da aposentadoria.
Beatriz, seu verdadeiro nome, batizara aquela mulher miúda e servidora, que certamente devíamos favores.

Amo todos os meus filhos, e Michelle a última filha a nascer, foi para nós como uma estrela brilhante que surgiu e encheu de luz as nossas vidas. É provável, e o tempo nos ajudou a concluir, até pela sua personalidade marcante, que seu nascimento veio contrariar a máxima: "três é demais", quando nos induz o velho ditado a aceitar que: "um é pouco" e "dois seria bom", por certo! Ledo engano!

Jamais iria prescindir da nossa linda caçula, garota inteligente e afetuosa, beneficiada por extensão divina com a bênção da gravidez. Muito em breve em complemento à nossa felicidade, nascerá Fernanda, a sua primogênita. Mas não para por aí... Milena, deu à luz a Maria Luísa, nossa neta, que apenas com um ano e meio, disse a todos a que veio; tornar mais feliz aquele que dela se aproximar! Qual "Maria", Luísa é Luz!

É provável não ter sido o Pai Perfeito, mas não tive essa pretensão, inda que estivesse bem próximo disso. Pautei minha vida na simplicidade, e fiz dos exemplos, ensinamentos. Confirmo sem modéstia ter colhido assim, dos meus filhos, resultados impressionantes. Com eles, e para nossos netos, o poder dos exemplos.

O ser humano, inconformado como sempre, esqueceu de evoluir espiritualmente, por se sentir realizado. Quantos de nós, pais e até mesmo avós, perdemos a chance de corrigir com acertos as falhas do passado.
Por certo, ei de considerar a evolução no plano material, um grande feito, mas nunca será uma realização.
A realização se dá quando conciliamos para o benefício de muitos, aquilo que apenas poucos têm acesso!

ACREDITEMOS em DEUS, sempre, e AMEMOS MAIS aos NOSSOS FAMILIARES.

Fim

terça-feira, 13 de setembro de 2011

.......................Willy - O Cão


Já vi cenas repugnantes, mormente em filmes "trashes", entretanto, menos intrigantes do que aquelas vistas no idoso e enfermo, Willy. Outro dia, em um passeio matinal com os cães, ao fazermos a higienização e trocar a fralda já cheia de urina e fezes, de um deles, percebemos que uma mosca de cor azul, incomodada, se espreme e voa insatisfeita, portanto.

Registrado o incidente, ouvimos de suas asas o zumbido pouco audível, e continuamos a limpar a área da persistente, ferida; julgamos ter sido tão somente uma visita esporádica, da inescrupulosa, "mosca azul". De um porte maior, e até por isso mais lenta nos rasantes voos direcionados, a meu ver, não fosse ela transmissora de doenças, aquela, de cor de um azul intenso e metálico, seria dentre todas as dípteras, a mais bela. Prefiro, apesar de expletivo, vê-la de mim, bem distante, posto que sem limites, busca incansável saciar o seu voraz apetite.

Apesar da higiene dispensada ao poodle, na noite do dia seguinte fui acordado com latidos que mais pareciam gemidos de dor, vindos do sofrido, animal. O cachorro que se mostrara bastante incomodado durante todo o dia, não despertou em nós nenhuma suspeita da gravidade do seu problema, em virtude de ser esse o seu comportamento depois que foi acometido da doença.
Serena e convicta do que fazia, Milena esbanja técnica e segurança, e inicia ali mesmo, no sanitário, o socorro ao seu cãozinho indefeso; alguma coisa parecia querer devorá-lo vivo!

Meu pai... Ouço seu apelo, agora entre soluços, quando buscava em mim, apoio ao que fazia. Indubitavelmente, ficar à distância seria mais prudente não tivesse também sido despertada em mim, uma co-responsabilidade pelo bem estar daquele animal moribundo. Sempre disposto a ajudá-la, atendi de pronto ao chamado e me postei também ali, ao seu lado. Suas mãos que se igualavam à sua voz, também tremiam ao apontar com uma pinça, e delas pingos de sangue me sugeriam entender que algo inusitado teria acontecido ao enlouquecido, animal.

Portador de uma doença não rara em cães, e já com úlceras que o afligem há tempos, não foi difícil crer num diagnóstico do temido câncer prostático. Além do mal que já sabíamos ser incurável, temos também a certeza de não poder operá-lo, face os sérios riscos de morte.
Animal de estimação que nos acompanha há mais de quinze anos, nosso Poodle Willy tem uma vontade enorme de viver. Alimenta-se bem, faz parte do nosso dia a dia, e ainda consegue apesar de tudo, ter uma sobrevida satisfatória. Recentemente nos acompanhou a uma viagem a Salvador, em 31 de julho de 2011 local onde se deu o incidente que volto a comentar...

Assustadores, os "bichos" brotavam aos montes da região anal, com forte indicativo ao óbito, não fosse a intervenção da minha filha, que incansável, o socorreu. Passava da meia noite e nós, ali, sem contar com recursos outros, fazíamos o possível prá amenizar o sofrimento do pobre animal. A idéia da ducha quente com esguicho forte, além do Baygon, foi providencial.
Mais calmo, posto que apenas alguns persistentes bichos carnívoros relutassem em deixar o pútrido banquete, Willy se deita e aceita os afagos daquela dedicada, enfermeira. Um a um, todos foram retirados, apesar da resistência, e finalmente podemos descansar, sem esquecer o apoio logístico de Cássia, minha esposa, que possibilitou que a operação fosse exitosa.
Imagino como seria o desfecho desse apavorante drama, aos nossos olhos, se não fosse pela intervenção corajosa da sua "dona", Milena. Pena que outros cães não tenham dela, cuidados.
Me orgulho de tê-la como técnica na área de saúde, vez que assim como nossos animais de estimação, também os seus pacientes, sem exceção, são alvos de seus préstimos.

sábado, 21 de agosto de 2010

Oitenta e um Anos - Parabéns, Ivanyce.

.......Querida professora e amiga, Ivanyce Alcântara de Souza.

O tempo é mesmo inexorável... Outro dia comemorávamos em festa de gala os seus bem vividos 80 anos de idade. Decorrido algum tempo, rendemos graças ao bom Deus por novamente tê-la conosco com alegria e paz, em mais um aniversário entre amigos e parentes.

Como seria maravilhoso se outra pessoa que também amei, tanto quanto a você, professora, tivesse conseguido se esquivar ao passamento precoce, pra comigo desejar-lhe, vida longa. Minha Mãe nos incluirá em suas orações, e isso fortalecerá meu vínculo de amizade a você.

No vigor dos seus 81 anos, nota-se como ostentas um corpo que ainda conserva os traços de outrora, e sem dúvida, sua boa aparência é consequência de uma saúde invejável e das suas bem escolhidas, vestes. Inteligente e altiva, você segue firme rumo ao centenário.

Um dia que não o de hoje, mais precisamente no seu aniversário passado, alguém querendo testar minha amizade e o respeito que lhe devoto, me inquiriu: “Muitos políticos e pessoas outras já renderam homenagens à professora Ivanyce; por que você se mantém calado”? Sem me aborrecer, pois estava convicto de que não faria necessariamente de público a minha manifestação aos feitos daquela mulher dinâmica, que a tantos ajudara, retruquei à insinuação nefasta com esse provérbio indiano: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio”. Reporto-me àqueles que não têm o cuidado de esconder suas falácias, mormente quando se tornam imprescindíveis os aplausos dos incautos.

Sem que vissem, à exceção de amigos internautas, rendi à minha professora aniversariante uma homenagem em forma de crônica, com todos os adjetivos que lhe pude direcionar. Hoje, tanto quanto no ano passado, ratifico o meu respeito e amizade a você, que apesar de ter militado na área política, o fez com bastante lisura e dedicação pelo ser humano. Seus projetos foram todos direcionados à melhoria da qualidade de vida de munícipes, seus eleitores ou não.

Seus exemplos como cidadã Lençoense, somados ao que nos ensinastes como verdadeira Mestra fez de mim, e de todos aqueles que te conheceram, eternos admiradores.


....PARABÉNS PELO SEU ANIVERSÁRIO, MESTRA QUERIDA.

Rômulo Bispo dos Anos.
Lençóis – BA, 20 de agosto de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

..........PEQUENO FOX




................L i t t l e - - F o x

Embora temido por exibir afiados e grandes caninos, é de pequeno porte o meu inseparável amigo, Fox. De raça não definida, mas com a insinuante aparência de uma raposa de pelo amarelo fulvo, o cãozinho lembra um chiuaua, o menor cão do mundo.

As Manchetes Internacionais, mormente aquelas voltadas ao cumprimento de leis em defesa dos bichos, me impressionam, em especial, de cães e gatos abandonados. Criadores, mesmo aqueles que amam seus animais, se decorrente de viagens ou por algum motivo de força maior, deixa-os ao relento ou os aprisiona, são interpelados e julgados pela prática de maus tratos contra animais indefesos, e às vezes, condenados.

Muitas ONGs de Proteção a Animais são vistas em nosso país, mas não contam com o apoio logístico necessário para se fazer cumprir suas Leis. Omissas, as autoridades municipais permitem também nas cidades do interior, e a nossa é uma delas, criadouros a céu aberto, de cachorros e gatos adoentados e sempre famintos.

Defensor de bichos de estimação e com várias matérias postadas com esse tema, ainda assim, conclamo a atenção da área de saúde pública para o risco da Leishmaniose, doença não contagiosa, causada por parasitas que se reproduzem dentro das células, fazendo parte do Sistema Imunológico da pessoa infectada. Dentre outros animais, o cachorro pode ser o hospedeiro e um agente proliferador da doença.

Quem ama, cuida! É fácil perceber a diferença entre ter um cão e gostar de um cão. Não insinuo que devam ser banidos das ruas, como animais pestilentos, os nossos cães, mas que sejam remanejados para um canil público, onde deverão receber de veterinários os cuidados médicos, e que alimentados possam ser disponibilizados para uma possível adoção. Esses animais à solta e sempre mendigando um pedaço de pão sob as mesas, e entre as pernas de turistas incomodados, infestam as portas de bares, restaurantes e lanchonetes. Apesar de sua agressividade, esses bichos esquecidos pelos donos, mostram sempre no olhar piedoso, a dor da fome que os consome. Muitos deles passam a noite com míseros nacos de carne, caídos ao acaso de um sandwich, objeto da disputa que premia não o mais faminto, mas, o cão mais astuto.

E por falar em astúcia, volto a escrever sobre as peraltices do meu esguio e feroz, Fox! Por descuido ou mesmo por incompetência, deixamos de ensinar também a ele, que um cão não pode viver sem o convívio de outros bichos da sua espécie. Tarde demais! Com mais de um ano de idade, nos preocupa o dia quando tiver que fazer sua iniciação sexual, sem que primeiro tenha ele, o ímpeto de comer nas preliminares, a orelha da sua amada. Anseio que o instinto prevaleça, surjam os filhotes, e que vivam em união.

Sem que seja preciso chamá-lo com assobio, que, aliás, é um método de interação, um leve silvo emitido com os lábios, é o suficiente para tê-lo bem depressa, junto a mim. Faceiro e subserviente sempre está disposto a corresponder às minhas brincadeiras. Resgatado que foi na distante favela, o pobre cachorro assustado não tem mais fome, nem medo, e se fez um protegido dela, a minha filha, sua dona de fato, mas não de direito. Fui adotado por esse Cão sapeca, que me ensinou o valor da amizade; e se hoje divido o seu afeto, é que mais do que ela tive com sobras, tempo pra lhe dar atenção.

Nas tardes de domingo, sua companhia é indispensável até quando movidos por uma grande paixão, ficamos também os dois refestelados no sofá para assistir e torcer pelo Flamengo, O Campeão. Ao grito de gol, coisa rara desde que nos sagramos vencedores no Carioca 2009, o cãozinho sapeca late, pula e corre pelo piso de madeira, exibindo-se veloz como se entendesse que de fato aquele é o momento pra alegria e empolgação.

Contrastando com essa explosão de satisfação, consigo compreender sua tristeza, e quase sempre se dá quando tenho que me ausentar. É comum nas noites em que estou paramentado e saindo para a minha Loja de Trabalhos Maçônicos, não vê-lo perto de mim; esconde-se sob uma mesa, e do desvão que o protege, fica a me rosnar.

Decorrido algum tempo, cansado chego sonolento, mas o moleque ainda está a me esperar. Faz uma grande festa e com mordidas leves, ele parece querer me castigar. Logo fazemos as pazes e o bichinho esperto pula de alegria, e sem que eu o proíba, sobe nos meus ombros, e como se fosse uma raposa, me enlaça com sua pele macia.

Seja gato ou cão, em verdade, todo animal merece carinho e a nossa afeição. Olhemos um pouco mais para aqueles abandonados e doentes, pois um dia, tenham certeza, foram saudáveis, tiveram uma família, e não precisavam disputar um pedaço de pão.

...........................Fim.
"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede"...Carlos D. de Andrade.

.................Autor – Rômulo Bispo dos Anjos
....................Lençóis – Bahia 01/06/2010

sábado, 22 de maio de 2010

.................G A R I M P O S

...............................P E R IBateia

Todo lugar onde o homem se instala, levado por necessidades, é obrigado a fazer algo pela sua sobrevivência, que, aliás, é uma lei natural que atinge todo e qualquer ser vivo. Inspirei-me em um personagem fictício que se assemelhar com qualquer pessoa, é uma coincidência como também o são espaço e tempo vivido por ele neste conto. (Quem sabe, poderiam ser garimpeiros de serra, que tanto víamos na Chapada Diamantina).

Eis que em meado de 1925, um forte jovem de pele curtida pelo sol, sentiu que devia procurar um emprego. Mas que emprego? Ficara órfão aos doze anos e aos vinte e dois, não aprendera outra arte senão revolver pedras e barrancos a procura de diamantes!
No povoado de Caldeirões, vivia o solitário Peri Bateia, assim chamado por carregar o cascalho extraído da corredeira até o local onde seria guardado para lavagem posterior.
Graças a este tipo de serviço, Peri foi desenvolvendo seu forte físico e também as suas habilidades no manejo da bateia ao ralar o cascalho bruto.

Aos dezoito anos Bateia tentou abandonar a vida do garimpo e trabalhar como ajudante no único barracão do povoado que pertencia ao Sr. Severino.
Aos domingos, a pracinha se enchia de meias-praças (garimpeiro fornecido por patrão,) pra no barracão, fazerem suas bocas-de-saco, (provisão de alimentos), que devia passar até o sábado, quando desciam de novo a serra, uns risonhos, outros tristes, mas no fundo ainda persistentes. O sonho do Bambúrrio não lhes saía das cabeças.
Naquele emprego Peri ganhava o seu sustento, contudo o achava um tanto monótono. Estaria Bateia, encaixado num trabalho a altura do seu espírito irrequieto e aventureiro?

Retrocedamos ao menino Peri que chegara a Caldeirões com onze anos e acompanhado de seus pais: Zé Silva e sua companheira, Dona Benta, ambos já acostumados à vida do garimpo. Imbuídos pelo desejo de uma vida melhor, enfrentaram as intempéries da mãe natureza, deslocando-se por estreitos canais, e desafiando as correntezas dos rios. Zé Silva com sua família chegou ao já abarrotado de garimpeiros, povoado de Caldeirões, encravado entre serras ricas em diamantes e carbonatos.
Ao ser informado que Antônio Brejos possuía alguns garimpos, Zé foi à sua residência solicitar um emprego. Aquele homem rude ao lhe contratar, retrucou:

“Se num tróxer quarquer coisa, mermo um xibiu, não ti furneço mais, home. Escói bem o lugar pru que diamante, num farta, Zé.”

Logo que acertou o trabalho, ele foi para a serra. No garimpo, Dona Benta, Zé Silva e o filho Peri, derrubavam pedras, descobriam o cascalho, passavam-no pelo processo de lavagem e sempre no sábado apuravam alguns bons diamantes. Também no sábado a família descia para o povoado, muito alegre. Peri badocava passarinhos, cantava, e às vezes adiantava-se no caminho e escondido entre as moitas, assustava aos pais.

Depois de quase um ano de garimpagem, a situação financeira da família melhorou substancialmente. Zé adquiriu uma casinha no povoado onde passava a festa de São Sebastião, que era o padroeiro local. Tudo parecia correr bem com a feliz família Silva.

Era uma manhã de sol quente quando Peri saiu em perseguição a uma "rolinha" que se escondia nas folhagens, frustrando o esperto caçador. Distraído, distanciou-se bastante.
Enquanto isso Dona Benta cozinhava o feijão para o almoço e lavava suas roupas em um regato perto do garimpo onde já se encontrava Zé Silva a trabalhar.

Acidentalmente, escapou das mãos dela um pedaço de sabão. Então ela se pôs a correr seguindo o mesmo curso do regato pra recuperá-lo. Pega aqui, ali, acolá, acabou desaparecendo sabão e regato sob uma rocha inclinada. Zé Silva foi ver o que acontecia. De repente, disse pra ela: ”Minha Véia, isso é uma gruna. Rumbora percurá uma entrada.” Ao que D. Benta acrescentou: “Pois sim, Véi”. “Vai ver que tem muito diamante nesse cascai virge”.

Enfim, Peri consegue abater o passarinho, mas seria difícil encontrá-lo, pois caíra num mato fechado. O garoto fica aborrecido porque o petisco estava a lhe escapar das mãos.

Lá no garimpo, iam os dois rodeando a rocha até que encontraram um orifício de onde saíam horripilantes morcegos pretos. Zé falou: “Vamu entrá minha Véia”. Mas, onde supunham ser o acesso ao interior da gruta, havia um amontoado de pedras sobrepostas umas às outras, impedindo a entrada. Assim que o casal conseguiu adentrar, Zé pisou numa pedra saliente que milagrosamente mantinha o equilíbrio sobre todas as outras. Isso fez com que desencadeasse uma avalanche e ela vedou a passagem de tal maneira que jamais conseguiriam sair com vida, a não ser que fossem as pedras tiradas pelo lado de fora e sem muita demora, pra que ambos não corressem risco de morte.

“E Peri, ondé qui tá? Gritou D. Benta. “Tá lá fora Véia” “Pelo meno nosso fio tá sarvo”.
Contrastando com aquela cena terrível, estava Peri já a caminho do rancho, depois de ter encontrado a pomba rolinha. O rancho estava vazio e o garimpo também. Onde estão os meus pais? Pensava o menino que sentado em um banco que servia de guarda-comida, ficou a refletir. Abandonando sua caça, deixou a imaginação tomar conta de sua mente.

Dentro da gruna o ar a cada minuto ficava mais raro. A escuridão aumentava o pavor que já se apoderava do casal vitimado pelo destino cruel. Alguns morcegos pequenos que voavam há pouco, agora esvoaçavam frenéticos soltando guinchos e parecendo a enormes vampiros. A vida parecia ter parado dentro da gruna e a luz deu lugar às trevas.

Arquejantes, os dois gemiam, choravam e lastimavam da má sorte. Movida pela fé que sempre tivera D. Benta ajoelhou-se e sem que soubesse, bem sobre pedras pontiagudas que lhe tiraram muito sangue. Como se isso não tivesse a mínima importância, ergueu seus olhos para aquele escuro teto da gruna, onde incrivelmente estes o atravessaram, fazendo-a ver o lindo céu daquela manhã, e com fé, pediu a São Sebastião: “Meu santo protetor, faiz cum qui meu fio escuta meus grito”.

Como era sábado e ignorava a existência de tal gruna, Peri achou que seus pais tivessem descido a serra rumo ao povoado. Pra lá foi ele cantando e assobiando, e vez por outra chamava: PAI, MÃE, espereu! Passaram-se duas longas horas para que ele chegasse ao povoado de Caldeirões, onde tinham a casinha. Os velhos lá não estavam, e nem na casa de Antônio Brejos, o patrão de seu pai.
Preocupado, o senhor Antônio comandou um grupo de garimpeiros que juntos com o menino, voltaram ao garimpo, munidos com candeias, pois a noite já havia caído. Sim, era noite.
Apercebido que algo de ruim acontecera a seus pais, chorava agora o alegre e irrequieto Peri, pelo caminho que tanto percorrera com aquele casal pobre, mas tão feliz. Era uma noite sem lua, iluminada apenas pelas tochas vermelhas das candeias. Dentro da gruna, o verdadeiro pânico, a verdadeira cena tétrica já se consumara.

A escuridão e o oxigênio já bem escasso; o ruído das asas dos morcegos e a ânsia de se enxergar uma luz; enfim, desejosos em ver aquele monte de pedras desobstruindo a única saída, fez antecipar sem dúvida, o fim do casal Silva.

Ao perceber o caldeirão virado dentro do regato, Peri seguiu os grãos de arroz e feijão que a correnteza puxava como se sua mãe tivesse deixado aquela pista, pra que depois ele a encontrasse. Mais adiante, e enganchado numa ponta de graveto estava o pedaço de sabão envolto em espumas brancas que reluziam sob as tochas dos garimpeiros. Aqui ocorreu um grave acidente, dizia um deles; e é provável que não haja sobreviventes.

Encontraram sem muita dificuldade o monte de pedras, e elas pareciam ter caído há pouco.
Pedra por pedra, uma, duas, três, todas elas foram retiradas deixando assim desimpedida, a porta da gruna. Peri que se mantivera afastado orando a São Sebastião lançou-se em direção à porta depois de arrebatar uma candeia de um garimpeiro. A cena que se lhe estampou foi por demais, estarrecedora.

Os corpos ensanguentados, cabeças deixando a mostra grandes sulcos, mãos feridas, joelhos desfigurados. Sim, seus pais haviam chegado à loucura, todavia, antes, no ápice da morte, um olhar conformado, um olhar de resignação. A candeia caíra das mãos do menino, apagando-se em seguida. Por instantes voltou a reinar a escuridão que havia pouco antes.
Os homens se aproximando, viram o bastante pra entender que o menino que se chamaria Peri Bateia, ficara órfão. E de que maneira brutal!

Os mais velhos tentavam minimizar a dor que o consumia, com palavras confortantes: “Chora qui é bão meu fio. É as coisas ruim qui acuntece cum o homi do garimpo. Teu pai num foi o premeiro, tumbém infelirmente num será o úrtimo.” Dizia outro: “Donde ele tá ele ti ajuda, vai vê”.
Mas, como estava o menino? Chorando, triste? Qual nada! Quando tomou conhecimento do que acontecera ali, não apenas deixou que se escorregasse a candeia, como deu aquela gargalhada que fez gelar e arrepiar os cabelos dos braços dos homens que o seguiam de perto. O susto fora grande o suficiente pra fazê-lo perder a noção das coisas que o cercava.
Sem que ele percebesse os homens enterraram os corpos mutilados dentro da mesma gruna, em uma vala existente na rocha que servia de abrigo para cobras e morcegos.

O comportamento do garoto contrastava à idéia de violência. Perambulava pelas ruas de Caldeirões sempre cantando, assobiando e sem se saber por que, se escondia numa esquina e pregava aquele susto em quem por ali passasse. O seu inconsciente guardara essa travessura que fazia com seus pais, ao descerem da serra onde a família trabalhava o garimpo.

Três anos se passaram e ao que se sabe nada de ruim aconteceu ao menino pobre, que sem o amparo dos falecidos pais, sobrevivia ainda pela benevolência do povo de Caldeirões.
Alimentava-se de esmolas que pedia às portas daqueles que dele tinham compaixão. Herdou dos pais a casa da periferia do povoado, e sempre sozinho, dormia.

Em uma calçada, certa vez estava o Louquinho brincando com alguns meninos, quando um deles disse-lhe: Você mora só, não é mesmo? Quem lhe serve à mesa? E nas noites de inverno, quem lhe faz retornar ao corpo a coberta caída à noite? Cabisbaixo e com ar muito sério, lhe respondeu: “Num tenho quem me serve na mesa, mas de noite, uma muié carinhosa, branca como a neve, me imbrúia quando tô disimbruiado.” Aquele gesto era de sua mãe, apesar de falecida.
Diante do seu bom comportamento, Antônio Brejos achou por bem mandá-lo para um garimpo onde ele iria servir como aprendiz. O trabalho pouco necessitava de inteligência, apenas um pouco de força física, pois ele seria “carregador de bateia”.

O Louquinho não tinha plena consciência, mas já estava naquele serviço braçal há dois anos e meio. Fazia-se notar como um belo exemplar do sexo forte, pois adquirira força e robustez.
Recordações povoavam sua mente? Dos pais, não demonstrava a mais vaga das lembranças.
São Sebastião quando pode, atende ao pobre faiscador e o transforma em um rico garimpeiro.
Numa tarde, a equipe do garimpo “Ferrugem” da qual fazia parte o menino Peri, inicia as escavações muito próximas ao regato responsável direto das mortes dos seus pais. Pouco ou quase nada lembrou. Munidos de ferramentas e muita fé, os homens ocupam o tosco rancho.

Ao cair da tarde se reúnem no velho rancho, junto a uma enorme fogueira onde fariam a última refeição daquele árduo dia de trabalho. Assim que terminaram, o tal Curió, alisando com mãos sujas de comida sua pança muito cheia, disse: “Peri Bateia, vá lavá os prato sujo qui tá no regato.” Bateia atende prontamente ao pedido, em verdade uma imposição, sem demonstrar insatisfação. Estancou como se puxado por uma mão invisível e esbugalhando os olhos, abriu tanto quanto pode a boca como que para sorver por ela, o ar do mundo todo.

Que teria visto Peri? Virado dentro do regato estava um amassado caldeirão, e de dentro dele saíam algumas folhas de capim e pequenos frutos, puxados pela força da água.
Sim, parecia que o incidente fizera aflorar algo que se calara no seu subconsciente. Sem conter sua ira, saiu gritando e caindo pelo caminho estreito que levava ao distante, povoado.
Ainda não recuperara de todo a memória, porém, o bastante pra não voltar jamais ao garimpo.

Engajou-se como ajudante no barracão do Severino, como já foi dito, e dali tirava seu sustento, mas não achava o serviço condizente à sua personalidade serrana. Havia nascido Peri Bateia pra ser garimpeiro e não pra carregar pacotes em uma mercearia de um povoado qualquer.
Um mistério, entretanto, persistia em sua vida. Por que correra apavorado quando vira aquele regato? E por que temera o velho e encardido caldeirão ali abandonado?

Como todo garimpeiro e algumas pessoas que nascem em terras diamantíferas, tinha também Peri o micróbio utópico em suas veias. Queria ser rico, cheio de jóias e possuir uma bela casa com jardim e pomar. Em suma, queria encontrar-se através das jornadas infrutíferas ou não, empreendidas sob o sol causticante ou mesmo nas noites quentes e insones sob a luz do luar.

Insatisfeito com aquela monotonia, agora com vinte e dois anos, abandonou o emprego. Peri Bateia, com mantimentos e instrumentos necessários, foi para uma temporada na serra.
Levara cinco galinhas, um galo e uma cabra parida que lhe daria todo dia o precioso leite.
Garimpou em vários lugares, mas sem resultado nenhum. Resolveu, pois, subir o rio e se instalar perto do “Regato do Mistério”, assim como ele o batizara.

Aquela cata já havia sido trabalhada, mas ele conseguiu bamburrar, e fixou-se por ali mesmo. Em uma noite bem escura, acorda sobressaltado com os berros da cabra à porta do seu rancho.
Vestido com seu peculiar roupão branco feito de saco de açúcar foi Peri certificar-se do que estava acontecendo. “Qui é qui tu tem cabra, oxém, dexeu drumi sinhora.” Mas ao alisá-la, notou que o sangue que brotava de um pequeno ferimento escorria quente ainda pelo pescoço.

Foro os miserávis dos mucêgos, né? Vou percurá ondé qui dormi os marvados qui ti chupou”. “Passa bicho”- Disse Bateia inclinando-se quando vários deles voavam por sobre sua cabeça. Foi no rancho, apanhou uma pequena vassoura de ramos retorcidos, a candeia e saiu a persegui-los. Notou que os mesmos sumiram sob galhos e ramos floridos que desciam acompanhando o mesmo sentido inclinado da rocha. Era, pois, a boca da gruna.
Com muita sutileza, afastou-as um pouco e exclamou a todo pulmão:

MEU PAI... MINHA MÃE! Agora sim, lembro-me de tudo.”

Seu peito musculoso ondulava ante os fortes soluços que dele brotava. Começou a procurá-los como se o tempo não tivesse passado. Como se ele tivesse vindo agora do mato, ali bem perto, quando abatera a rolinha e ouvisse os gritos de socorro que ele não havia percebido, daquela querida e inesquecível mãezinha. Na sua agitação caíra várias vezes. Sentia o sangue correr em seu rosto, entrando em sua boca, mas nada o incomodava. Queria encontrar seus pais, ou pelo menos, o que deles restara. Foi essa obsessão que o atormentou e o fez sofrer em toda sua vida.

A candeia resvalou entre as rochas pontiagudas e estava sem azeite, pois este derramara e descia escorrendo por sobre o lajedo, assemelhando-se a uma gigantesca lágrima negra iluminada por uma réstia de luz.

A erosão pôs à mostra os ossos de um pequeno pé; tão logo o vira, lançou-se a escavar com as mãos, vendo-as tingir de um líquido quente e pegajoso. SANGUE! Nada o interrompia na sua marcha alucinada. Nem mesmo a picada de uma temida CASCAVEL que antes ele empurrara de sobre a cova o fez parar. Ignorou o perigo de que estava acometido. Pôs a descoberto um esqueleto que estava em uma vala na rocha, e quase não teve forças pra retirar o outro.

Abraçou-se num choro calmo e resignado, àqueles dois esqueletos desengonçados. Não percebeu que jamais os soltaria, pois estavam findando seus últimos segundos de vida.

Aconchegando-se mais ainda, exclamou alegremente. Incrível, Alegremente:

“COMO É BOM PODERMOS FICAR SEMPRE JUNTOS, MEU QUERIDO PAI, e MINHA SANTA MÃEZINHA”.

Com um gemido rouco declinou-se lentamente sobre seus dois entes mais queridos, naquele triste povoado de Caldeirões.

.................................F I M

Autor do conto – Rômulo Bispo dos Anjos.
..........................12.02.1975