sábado, 20 de fevereiro de 2010

.......................V E R Ã O














......T R I L H A S .D E. V E R Ã O


O sol no zênite, exibindo luz e muito calor, parecia mesmo despedir-se do longo verão.
O outono logo chegaria, mas o último sábado daquela quente estação indicava que o astro continuaria sendo o melhor guia pelas conhecidas trilhas da Chapada Diamantina.
Não obstante a mal dormida noite, levantei-me bem cedo e determinado. Faria de bike, a trilha Lençóis-Pai Inácio-Lençóis, pela BR 242 e retornaria por um tortuoso e longo caminho de pedras que faz limite com o Povoado, Barro Branco. Ali, tudo parecia desolado e o silêncio reinava absoluto. A paisagem naquele vilarejo pouco lembrava o verde vale, meu preferido, rico em cachoeiras, orquídeas e bromélias, onde iria pedalar.

A bike que tão pouco fora utilizada no trecho de pedras, agora se fazia útil, e veloz me conduzia por uma estrada de barro e em declive. A descida rápida se tornava perigosa, exigindo de mim, ciclista veterano, habilidades adquiridas e que provavelmente me livrariam de um tombo certo sobre aquele cascalho de pedras soltas.
O cansaço na trilha é recompensado pela visão privilegiada que se tem ao chegar ao ponto conhecido como Cruzeiro das Almas. Dali se vê todo o emaranhado de ruas e becos que se iniciam na antiga Praça do Comércio, hoje conhecida por Horácio Mattos.

A seguir, descreverei como fiz sozinho e pela terceira vez, esse passeio indescritível.

Saindo da cidade nas primeiras horas da manhã, pedalei forte por uma subida de mais ou menos cinco quilômetros até o platô conhecido por Cascalheira. Chegar à Subestação da Coelba não foi difícil e logo estava na pista oficial. O sol inclemente não demorou e surgindo brilhante, parecia querer fazer-me desistir do meu intento. O calor era intenso.

Sentia a adrenalina pulsar em minhas veias, quando os grandes caminhões que enfileirados, não aliviavam e me faziam parecer invisível. Apesar do medo, estava resoluto e atento. Meu corpo suado pouco desfrutava do vento fresco ao ser ultrapassado pelos veículos, posto que aquele deslocamento, também fazia sacudir perigosamente a bicicleta, forçando-me às vezes, sair em fuga para um acostamento, nem sempre seguro.
Já havia passado pelo Rio Mucugezinho e estava próximo ao Pai Inácio, onde sairia do asfalto e iniciaria finalmente, o meu planejado passeio por aquele vale maravilhoso.

A quietude do cerrado rompia-se pelo cantar dos pássaros-pretos, e dos barulhentos periquitos. Os gafanhotos em pânico fugiam lépidos voando sobre minha cabeça, e dispersavam-se na vegetação espinhosa que arranhava e feria os meus braços e pernas.
O primeiro banho foi em um rio de pouca água, mas muito refrescante. Ao atravessar a tosca e mal conservada ponte de tábuas, ainda nesse mesmo rio, resolvi descansar em uma chácara, onde os frutos fartos cobriam com abundância, o chão sob as jaqueiras e mangueiras. A simpática e feliz proprietária há muito falecera, e não mais me receberia.

Parei sem hesitar, pois já conhecia aquele local. Sem cerimônias, comi alguns frutos e reservei outros pra degustar depois, em um riacho de águas escuras e ferruginosas.
A trilha sinuosa onde se podia tocar e sentir o perfume das orquídeas, roxas e amarelas, também escondia alguns animais peçonhentos, a exemplo do escorpião e da temida cascavel. Ainda assim, recomendaria esse passeio a turistas idosos e até para adolescentes. A natureza é sábia; quando os limites são respeitados, não há imprevistos.

Raros foram os trechos onde pude pedalar na serra, mas aproveitei os momentos em que caminhava, para filmar e fotografar o relevo, fauna e flora. Aquilo tudo me fascinava.
Subidas, descidas, córregos a atravessar e ainda carregar literalmente minha bike, fazia arder o ácido lácteo nos meus músculos ainda mais rijos, motivando-me a perseverar.

Ouvi do riacho logo abaixo, o som relaxante de suas águas onde meu segundo banho iria tomar. Mas o que era aquilo? As copas das floridas quaresmeiras balançavam sem parar. Pude ver de perto um grupo de saguis que irritados com a minha presença, pulavam emitindo seus gritos de alerta. Percebendo que não corriam riscos, aceitaram e comeram os frutos que lhes ofertei. Pasmem, até banho tomaram bem próximo de mim.

O limo em profusão cobria os seixos, e eu não me arriscava a pedalar, por enquanto. Não demorou e pude ver do alto do morro que acabara de escalar, muito distante, a Lagoa Encantada; frondosas árvores quais guardiãs, faziam dela, um ícone da natureza.
Equidistantes florestas ainda preservadas se assemelhavam a um gigantesco manto verde.
Exausto, sentei-me próximo ao campo de orquídeas e me permiti um merecido descanso.
Pedalando rápido por uma estrada bem larga, adentrei naquele que outrora acolhera algumas famílias tradicionais, hoje, quase desabitado, Povoado do Barro Branco.

Dando asas à imaginação, senti como fora diferente aquela comunidade com escolas, comércio, e pessoas perambulando pelas ruas agora tomadas pelo mato, em abandono. De volta a um passado não tão remoto, pude me ver em um grupo de escoteiros, à frente da Patrulha Leão. O prédio escolar onde acampamos não mais existe, tampouco a lagoa infestada de cobras-verdes que nos servia para o banho e o lazer. Levava a sério o que diziam os mais velhos: “Com cobra não se brinca”. Coitadas, e por isso, matamos quase todas da espécie. A lagoa secou e em lugar das águas e dos animais, apenas um matagal.

Curioso, olhava tudo à minha volta, e percebia que pouca coisa resistira ao tempo; algumas construções, as mais sólidas, ainda assim, pelas largas fissuras das suas paredes saíam galhos de umbaúba, espremendo-se em busca de sol. De repente o rosto de uma jovem assomou furtivo no retângulo de uma carcomida janela, pra me ver passar; Sem dúvida, era o único ciclista visto ali nas últimas semanas, e isso despertara sua atenção.

Absorto, seguia em direção à cidade quando avistei do Cruzeiro das Almas, Lençóis, o centro desse santuário ecológico, a Chapada Diamantina. Sob a cruz discreta que protegia os amantes, ocultando-os com o manto noturno, eu admirava o traçado das ruas convergindo para um ponto comum de fé: A Igreja Matriz - Nossa Senhora do Rosário.

F I M.

Autor – Rômulo Bispo dos Anjos.
Lençóis – BA, 14 de março de 2009.