O pequeno "Fox"
Uma família completa é aquela que além de seus membros, possua uma mascote em casa, um cão, talvez, observadas suas peculiaridades como tamanho e raça. De cunho pessoal, meu ponto de vista pode ir de encontro a quem prefira não ter nenhum desses bichos em suas moradas, o que é uma pena!!!
Acostumado em ter animais no convívio doméstico em minha família tronco, não me recusei em criar um pequinês, mesmo porque recém casado, nem filhos tinha ainda. Dócil, ele me entretinha com suas peraltices, quando eu retornava depois de um árduo dia de trabalho. "Pluto" era seu nome, e ficou conosco por longos doze anos, quando faleceu já bem velho e de morte natural.
Sentindo ainda sua perda, não imaginei que pudesse de novo criar outro animal de estimação. Contudo, trouxemos de uma viagem de férias um casal de Hamsters dourados, os quais enamorados, logo nos surpreenderam com uma grande ninhada. Foram catorze os filhotes, mas em verdade só alguns deles sobreviveriam, pois a mãe, incomodada que fora ao parir, veio a praticar o canibalismo. Por puro instinto, come seus filhos, preservando-os dos intrusos.
Fui chamado às pressas, e por sorte o Banco em que eu trabalhava ficava próximo da minha casa. Minha esposa sem saber o que fazer, chorava ao contar os sobreviventes, agora não mais que seis. Envolta por um pano escuro, a gaiola escondida que foi dos curiosos, fez voltar a segurança necessária àquela mãe irada que em detrimento do canibalismo, sabíamos estar em paz, novamente.
Muitos anos decorridos desde que nos deixara o saudoso Pluto, descobri depois de uma semana, cuidado às escondidas em um quarto de fundos, um cãozinho de olhos bem vivos, que apesar de ter pelos marrons, atendia por White, nos braços de minha esposa que o escondera de mim. Sem pedigree, esse cachorro esperto, misto de vira lata com perdigueiro, nos faz companhia e é querido também pela vizinhança, de onde sabíamos ali ter nascido. Acometido de surdez e cegueira parcial, tem de nós os cuidados, mas é o xodó de Michelle, a caçula que tem por ele, verdadeira paixão.
Costumo dizer em tom de pilhéria, que alguns cães só não aprendem a falar, pra não dar recados. É o caso de Willy, um Poodle branco que mais lembrava um carneiro, o qual fugindo de seus donos, Bágio e Nonó, se espremia e não via na grade, um obstáculo pra nos visitar. -Não quero mais esse cachorro aqui, dizia eu em tom severo pra minhas filhas, já animadas com a possibilidade de se criar mais um cão. Numa dessas vindas e idas, acabou ficando também conosco, e isso muito nos alegrou. Agora com mais de treze anos, e sem a aptidão de um mensageiro, claro, não se arrepende de não falar!
Os bichos, em especial os cães domésticos, quando bem tratados sabem retribuir com fidelidade, os nossos carinhos. Chegando da capital todo garboso, o filhote "Spock" exibia além do pedigree, uma vistosa pelagem na cor vermelho mel, própria do cruzamento do Bichon Frise com Yorkshire. Esse também não seria criado por mim, mas por uma de minhas filhas que veterinária poderia ser, face seu amor incondicional aos animais. Diferente dos outros dois, talvez por ser pequeno, me apeguei a ele e o fiz sem querer, minha mascote. Também me recebia ao chegar em casa e aguardava impaciente pra brincar com minhas meias nem sempre cheirosas, e com elas nos dentes, ficava a correr pela casa. Peculiar à sua raça, era sagaz, veloz, e sempre se adiantava aos outros. Ao chegar primeiro no jardim, à noite, com ares de vencedor, eis que come um petisco envenenado que o faz passar muito mal. Atendido de prontidão não resiste e morre em meus braços, pra desespero de todos, nosso Spock. Quase dois anos depois, ainda revoltados por aquele que sempre chamamos de "o crime bárbaro", nada sabemos sobre quem nos tirou sem piedade, o nosso inesquecível cãozinho, "Popó".
Basta, Milena! Dizia-lhe ao celular, tentando dissuadí-la em receber de presente, aquele cão magricela que ela tão bem descrevera. Convencida por seu sogro, aceitou e trouxe de uma favela da periferia de Camaçari, aquele que se chamaria "Fox" e que fora comprado por míseros trinta reais, ele e seu irmão, Bingo. A história se repetia. Pelo nome que lhe deram, fazia-se parecer com uma raposa também pelo seu jeito de ser. Desconfiado, orelhas em riste, dava dó vê-lo tão submisso. Bem tratado, ele ganha segurança e se torna encantador. Garanto-lhes que esse cãozinho não é mesmo meu. Não posso garantir-lhes, entretanto, o que ele pensa de mim. Desconfio que ache que sou dele o irmão de quem foi separado e que hoje já não existe mais. Tenho certeza que somos sim, sua família. Dividido entre sua dona e eu, esse amigo inseparável deu-me muito mais do que a sua companhia. Fez-me crer que a amizade existe de fato entre os homens, embora as verdadeiras, provêm de um cão. Fico a refletir: Obrigado, "Fox", por você também existir em nossas vidas. Tanto quanto os outros também criados por nós, voce está a nos marcar, pela sua fidelidade e companheirismo.
Assim como os seres humanos, também os animais não são eternos. Suas lembranças sim, essas não precisam morrer, mormente nas memórias daqueles que por eles se doam com tanto amor.
Texto dedicado aos nossos cães, amigos da família. - Fox, Spock, Willy, White e Pluto. Também aos pequeninos e brincalhões, Hamsters dourados.
Rômulo Bispo dos Anjos - 21.05.2009 - E-mail...rbanjos@hotmail.com
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