POSTO FISCAL DE COQUEIROS
Confesso não ser saudosista, entretanto, relato da minha infância fatos adormecidos, o que me parece justo, posto que resgato relevantes trechos com experiências adquiridas, e concomitante, trago à luz da evidência para enriquecer o texto, outros episódios, dos quais apenas me inseri como coadjuvante. Omiti nomes de personalidades por uma questão ética.
Se faz mister frisar pra melhor compreensão, "espaço" e "tempo", os motivadores dessa narrativa! Construído na BR 242, o Posto pertencia desde 1959 a Andaraí para Arrecadação e Fiscalização. Naquela unidade, serviram vários agentes, dentre eles o meu saudoso pai Isidoro, que ao se aposentar contava com mais de quarenta anos de bons serviços prestados.
Como em toda Repartição Pública, funcionários se destacam, mas ali, não era apenas pela excelência no serviço, coisa rara naquele Posto. Usando de ardis, o "Gordo" que perdeu seu prenome pela aparência obesa, praticava atos abomináveis. Certa vez e não foi a única, fez retornar no seu plantão, um motorista e seu caminhão de carga, numa operação padrão, lícita, não fosse pelo abuso de poder. Coagido, o cidadão usou a marcha ré por quase mil metros, e ainda sob a mira do revólver de um presunçoso policial. O "modus operandi" lhe fez confrontar com a Lei do Retorno!
Com atuação semelhante e compleição física idêntica à do primeiro, outro Agente agia de má fé no exercício da função, sem que fosse punido, pois burlava a segurança e era amigo de um Segurança forte, cujo nome rima com Sorte ou com Poste, enfim, com algo de grande Porte! Citações à parte, o guarda corrupto não sabia mesmo ser ético, e surripiava das cargas que apreendia, produtos diversos, e os colocava à venda sem escrúpulos, pasmem, no seu ponto comercial.
Naquela Unidade, presenciei fatos e escutei estórias que envolviam Deus e até o próprio Diabo, mas morria de medo de um reles cemitério abandonado, onde sequer havia quem sepultasse nas covas rasas, os raros defuntos, enterrados pelos infortunados parentes. A cerca, inda que de arame farpado não continha dos cães famintos, os saques nas sepulturas recentes, sacrilégio testemunhado por bougainvilles, e pelas flores brancas de abundantes jasmineiros.
Estrategicamente dispostos naquele trecho da BR 242, "cavaletes" pintados de amarelo e preto, impediam dos carros maiores, sua acessibilidade, mas guardavam entre si, espaço livre para os demais veículos, inexplicavelmente obstado pela urna fúnebre deixada ao relento, e que ocupava literalmente, o vão existente entre os mesmos!
Era meia noite naquela noite sem lua, e portanto, escura, quando o féretro seguido de familiares do morto se aproxima do Posto, e quebra o silêncio da madrugada. Findas as cantigas lamurientas, as lágrimas cessaram e deram lugar às piadas de mau gosto, apesar dos aplausos. Alcoolizados, ainda assim, degustavam as sobras dos Biscoitos Sentinela, regados a generosas doses de pinga, servidas do Bar de Juvenal, e num lampejo de lucidez, se levantam e correm ao encontro da falecida, que inerte e fria, aguardava sobre os cavaletes, chegarem os algozes que a levaria pra o calvário!
Imaginem do vigia o seu semblante, no exato momento que abria os cavaletes para os carros transitarem! Pensava ele:
"Que coisa mais esquisita, meu Deus" - apelou pra a divindade, pois sentia medo, mas quando iluminou o pálido rosto do defunto, sentiu prazer e satisfação; era ela, a sua mui querida sogra! Ignorando as normas, se juntou aos bêbados e pessoalmente, testemunhou o enterro da "Jararaca". Não creio que tenha o Preto, chorado a morte de Inês, a "Branca".
A iluminação emanava de um velho lampião Petromax que requeria do operador, certa habilidade ao ajustar a camisinha de aparência frágil. Quando incandescente, clareava toda sala e uma mesa onde se podia ver por detrás dela, sentado a trabalhar, um dos mais queridos e respeitados agentes do Posto de Coqueiros, meu velho Pai. Na verdade, "Velho" é um reforço de expressão, gentil de minha parte, pois era jovem e bem humorado, razão pela qual sempre "aprontava".
Divergindo das movimentadas estradas atuais, no trecho da rodovia onde instalaram o Posto Fiscal, o trânsito não era intenso, e foi daí que pra quebrar a monotonia, o guarda Izidoro articula pra apavorar o vigia, coitado, sempre ele, um plano assustador... Atada a um longo barbante, uma lata vazia foi colocada na parte mais alta da ladeira, de onde descia em intervalos previamente calculados, pelo asfalto, puxada pelas mãos de um guarda astuto e irreverente!
Deslizando pelo asfalto, a lata emitia um som metálico consequência do atrito, e que era potencializado pelo silêncio da noite, quebrado pelo canto nada mavioso de uma coruja. Não obstante o medo, cabia-lhe desvendar o mistério, e cauto, ao reiniciar o irritante barulho, ele "cai de pau" na lata que machucada, se cala. Preto, o vigia "moreno" que eu cria ser "muito esperto" se fazia de "bobo", mas por conveniência! Saindo da penumbra, exibe das mãos trêmulas, o seu troféu!
De volta às tarefas do cotidiano, o eficiente funcionário já em seu arriscado posto de serviço, atende a uma ocorrência, e por instante se vê diante de um contumaz, sonegador de impostos. Tolerante, age com sensatez, mas pede que seja regularizada a pendência documental, e o libera. Motivado por um salário bem merecido seguia firme no dia a dia de trabalho, onde pra seu aconchego tinha ao lado, parte de sua família, filhos e netos, e ainda sua inseparável esposa!
Criativo, captava das chuvas e armazenava em "manilhas" a água necessária ao consumo, e colhia de hortaliça própria, os legumes e verduras. Experiente lavrador, plantava em benefício da unidade, árvores frutíferas e em pequena escala, até os saborosos abacaxis. Costumava quando da escassez das chuvas, por empréstimo, valer-se do vizinho Jacobina, vulgo, "Mão de Onça" para o suprimento extra de água potável. A "Lagoa" equidistante, só aos animais, saciava a sede!
De leite e queijos nos abasteciam respectivamente, Dão e Cornélio, mas pra comprá-los requeria de nós, andar a pé!
Ah, esporadicamente era poupado! Meu pai com seu filho predileto, o João que me tirou o posto de caçula, com a sua Vespa Veslan executava a tarefa. Amedrontado, pois chovia a cântaros, o irmãozinho tremia de frio, e sentia medo que mergulhassem ambos, piloto e co-piloto nas águas fétidas dos poços, já contaminados por bactérias! Sim, chovia muito!
Das freadas bruscas, rastros de pneus eram percebidos à distância, caracterizando a imperícia do condutor, nosso pai. Sutil, o ardiloso pirralho que de bobo nada tinha, planeja e salta da moto; por precaução, opta por continuar a pé, e de longe pode ouvir bem clara, a ordem: "desça e abra a porteira, menino". Qual não foi a surpresa dele ao ver que estava sem o ajudante! "abra logo isso, e suba rápido, seu moleque", bufava o destemido piloto que quase usou de "força" física pra convencer o irritadiço aspirante a motoqueiro, e companheiro de aventura!
Intimidado, não ousou recusar dele o novo convite, e ambos saíram de moto pra comprar da filha do Mestre Dão algumas galinhas Caipira. De fato, nem tempo houve pra lavar a Vespa, e os pneus de novo mergulharam nas poluídas poças de lama, que acolhiam centenas de borboletas amarelas e verdes, atraídas pelo salitre. Despreocupados e à sombra do Ipê, o "Véi Zidoro" e Anorina "conversavam" amigavelmente! E as galinhas?! Corriam pelo terreiro, driblando o esperto João, mas ele sabia, é evidente, que empoleiradas já estavam as aves que de fato, seriam comercializadas!
Embora não tenha sido convidado pra o passeio de moto, me senti útil, pois me permitiram buscar o leite fresco numa fazenda próxima, a Santa Helena, propriedade que pertencia a Carlito Medrado, grande amigo e colega de Seo Izidoro!
Montado em um animal marrento, em sua garupa, e não na da Vespa como teria preferido, segui insatisfeito pela trilha que me levaria ao curral construído com Ipê Roxo, madeira largamente explorada e em extinção já àquela época.
No dorso do jumento chucro e sentada no meio de uma "cangalha" estava ela, uma afro-descendente, amiga da família, negra jovem e de boa aparência, que despertava nos homens, o inevitável desejo de possuí-la já à primeira vista.
Com o sorriso a exibir dentes muito alvos, beija o peão amado que se despede com um olhar maroto; era o mesmo que nos serviu cambrexo (leite com farinha e açúcar) direto do peito da vaca! Iniciamos a volta pra casa, mas de repente...
Com a malícia que lhe permitia a tenra idade, cantava para mim, quando fomos surpreendidos por Betinho, um maníaco sexual que sob protestos da menina ainda virgem, a sequestra, e consuma o vil estupro! Nada pude fazer, e fui embora!
Filho de Chico, um velho que virou manchete pelas doze mulheres que dizia possuir, o depravado Betinho, compadre do meu Pai, gostava mesmo das brigas, e sempre se metia em confusão. Sujeito destemido, que a exemplo de Julião, não temia inimigos, mas, uma miragem amedrontava o valentão. Era mofino, e se apavorou quando em visita à nossa chácara, viu algo esquisito com aparência de um negro, cão! É bem provável ter visto ele, a imagem do próprio Satanás!
De crente, virou católico, e logo veio o desencanto. Morreu ateu, mas a sua mortalha era de um autêntico, Pai de Santo!
Dispondo de um vigia e dois seguranças, seria tranquilo o atendimento da noite, cria o guarda Izidoro não fosse um fato isolado, ou melhor, um terrível incidente que iria quebrar do plantão, a rotina, e roubaria dele, o sono e a sua paz.
Com ações ponderadas e firmes, mas divergentes daquelas protagonizadas por Pamponé, outro motorista cometeu um semelhante erro, e teve melhor sorte, apesar de desrespeitar o aviso de "Parada Obrigatória". Perseguido, foi conduzido de volta ao Posto, onde prestaria explicações necessárias, contudo não o obrigaram a dirigir de ré, o pesado caminhão.
Debruçado num surrado cofre que sabíamos conter dinheiro de arrecadações, o caminhoneiro negociava com o Agente, a provável liberação da "carga" apreendida, quando seu corpo é agitada por fortes convulsões, e ele cai sobre a mesa, onde estarrecido, meu pai viu o rosto dele se chocar contra o chão. Embora abertos, seus olhos não tinham mais vida.
Um enfarto fulminante causou a sua morte, e por pouco, muito pouco, também deixava de pulsar no peito, o coração de um homem justo, que pautado na verdade nada podia temer, entretanto, chorava pela "passagem" precoce do cidadão!
Me senti na obrigação de homenagear esse homem sério, esse "guarda" que trabalhou incansável por mais de quarenta anos em um local quase deserto, onde sua segurança basicamente advinha do respeito para com os caminhoneiros e seus patrões. A relação de fraternidade demonstrada ao meu pai pelos seus superiores, e colegas, me motivou a seguir o seu exemplo, e ao me aposentar, vi a história se repetir, e como ele, fui homenageado por ser um homem honrado!
Fim > por Rômulo - 01/01/2012