quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ACESSIBILIDADE À CIDADANIA

...........INFÂNCIA SADIA, FORMA O CIDADÃO

Cantigas de roda, casamento oculto, vagão, vira-cartas, gudes, enfim, muitos desses jogos e brincadeiras compunham o lado lúdico da nossa bem vivida infância naquela cidade serrana, dos Lençóis. As cantigas de roda, composições e melodias simples, divertiam e faziam aflorar dons, muitos deles, recônditos; já o casamento oculto nada tinha a esconder senão com quem nos casaríamos, ainda que de mentirinha. Por vezes sonhávamos fosse verdadeiro, quando o acaso nos unia às pessoas de quem gostávamos, e que nos fazia sentir acelerar o coração. Não raro, burlávamos a ação do tirano destino, ao aproximarmos de alguém que nos interessava.

As ruas com calçamentos em pedras irregulares escondiam por meses a fio, um traçado ímpar que remetia ao formato de uma teia de aranha, e que pela rebeldia das gramas em viço, era sufocado e perdia seu esplendor. Ao aproximar o instante da festa maior, Senhor dos Passos, juntava-me a outros garotos, e com lâminas em forma de “V”, bem amoladas, ficávamos a carpir o caminho por onde certamente em breve passaria a procissão de “02 de fevereiro”.


Era comum e nos permitiam nossos pais, a troco de experiência e às vezes com remuneração simbólica, prestarmos pequenos serviços na comunidade. Hoje, corrompida por um sistema assistencialista, nossa sociedade afirma sem um embasamento técnico-educacional que: “crianças devem permanecer em tempo integral dentro das escolas”. Quem de nós em sã consciência gostaria de vê-las fora delas, e por vezes vítimas de abusos e sendo exploradas? Entretanto, se inseridas também em projetos comunitários, por certo não comprometeria o aprendizado; em verdade muitas ali estão e são forçadas a permanecerem, para justificar benefícios sociais a exemplo do Bolsa família e outros, oferecidos pelo governo. Diante das carências do ensino fundamental público, embora protegidas da exploração do trabalho infantil, sem o experimento de uma ocupação honesta, em oficinas por certo, deixam-se adotar e seguem um caminho quase sempre sem volta, junto aos seus padrastos, os traficantes. A criança que participa de tarefa extracurricular, ainda que por emulação seja remunerada, tende a interagir com outros grupos, como cidadã, verá com mais clareza seus direitos e deveres, e se bem motivada terá uma participação mais efetiva dentro da sua escola.

De volta ao presente sinto que roubaram das muitas crianças que vi nascer, sua infância e uma adolescência que poderia ser produtiva se contempladas por uma política séria e voltada para a geração de empregos. Descrentes e inconformados com as vãs promessas eleitoreiras, muitos deles não aspiram sequer, sonhar. Oriundas de uma casta menos favorecida, poucos tiveram chance de um crescimento sadio, pois nem todos puderam participar de associações como o Grão de Luz e Griô ou mesmo o Avante Lençóis, ONG’S com credibilidade e bons serviços sociais prestados no município. Esses jovens desmotivados ante a pouca perspectiva de inserção no mercado de trabalho, têm no turismo a oportunidade de evitar a exclusão, prestando serviços em agências, ou mesmo na ACVL, Associação de Condutores de visitantes de Lençóis. Alguns são qualificados com os cursos do SEBRAE, em convênio com órgãos municipais, mas não conseguem emprego. Outros adolescentes, vítimas dessa conjuntura e já dependentes, muitos se entregam aos vícios, com ênfase às drogas. Mesmo sendo a minoria, chegam alguns deles à prática de pequenos furtos, assaltos e com registro de um assassinato.


É incontável o número de garotas, meninas ainda, que se engravidam precocemente, contribuindo para uma explosão demográfica indesejada, onde a miséria e o sofrimento desses filhos e mães são aumentados quando do atendimento junto aos órgãos de saúde, já sufocados pela crise presente em nosso município. A educação sexual parece de fato inexistir.


Faz-se necessário inquirimos a nós mesmos: Julgamos ser suficiente o que fazemos para o desenvolvimento de nossa comunidade, ou vamos nos acomodar e tudo que lhe falte seja resolvido no âmbito do governo municipal? Espero que o cooperativismo desperte em cada um a vontade de contribuir mais, e que haja de fato um comprometimento dos segmentos vários, pra uma ação conjunta com o objetivo de trabalharmos o hoje, e que nos orgulhemos como cidadãos do que fizermos, ao focar o que queremos para o nosso amanhã.

Créditos – Rômulo Bispo.
Lençóis – 30.09.2009


Foto - Ilustrativa (Internet)