...............A Casinha do Alto da Estrela
Os móveis chegaram e foram testados, à exceção do fogão, pois nele não tinha o que cozinhar. Como a geladeira estava em boa situação, deixei-a funcionando no "mínimo", e o "mínimo" que poderia acontecer seria a sua morte, e por inanição! Apesar de nova e vistosa, seu bojo vazio lembrava o abdome de um infeliz haitiano, sobrevivente da pós-tragédia. Mas que comparação!
Os colchões! Esses eu vi na madrugada e pelo jeito estavam mesmo com muito frio. Pudera! Prometeram-lhes umas "caminhas decentes", mas não enviaram nem uma "mísera esteira". Consternado tive que separá-los, pois o outro "quarto", o segundo e o último que havia na casinha, chateado pela companhia apenas das aranhas, ameaçou organizar uma rebelião de insetos.
De plástico reciclado também a mesa foi comprada, mas sua cor branca estava mais prá pálida. Por descuido lhe puseram de pernas pra cima no carro, e eram visíveis os muitos arranhões em todo o seu tampo. Imaginem! Um simples papelão daria proteção para ela e aos seus quatro filhotinhos, aliás, para seus banquinhos, que apesar de assustados, quase não se machucaram. Amarrada com cordas pouco ou nada podia fazer, e suplicante, ansiava pelo fim da viagem.
Suas cicatrizes ainda recentes por certo seriam disfarçadas sob providencial toalha de Came, e com sorte poderiam ganhar cobertura de tecido "fino" ou quem sabe, até mesmo de "fuxicos". Vejam bem: pediram-me, e eu me prestei a olhar se tudo havia chegado conforme foi pedido. Pra mim, "fuxico" é apenas um artesanato, e o resto fica por conta da imaginação de cada um.
A sala! Essa daí mereceu minha atenção. Cauto, evitei a poça d’água, pois temia o escorregão; ledo engano. Eram lágrimas abundantes, e aquilo me cortou o coração. Chorava de inveja e eu lhe dei razão. Sentia-se nua, pois ali não havia um reles rádio, quanto mais, uma televisão. Ao adentrar na cozinha, sem dúvida, a prima rica, cantei pra amenizar sua ira, um samba do irreverente, Jorge Aragão. Deixa-te disso, amiga. “A inveja é um dos sete piores pecados”. (Disse-lhe a arrogante geladeira, que de tão "pura” lembrava a imaculada, Senhora Conceição.
Dessa vez abusei da sintaxe e sem poder evitar, usei as sílabas tônicas pra chamar a atenção. Mais ao fundo, ou melhor, precisamente nos fundos do imóvel, o barulho de uma "descarga solitária" fazia-me ver que mais alguém não estava satisfeito, por ali; o velho sanitário fora enganado impiedosamente. Disseram-lhe que seria um dos mais bonitos cômodos do tal "novo prédio”, e ele, satisfeito, acreditou!
A pia, deixando à mostra algumas rachaduras, quase não podia olhar-se naquele que fora um dia, um orgulhoso espelho. Pendurado numa parede sem prumo e pintada com sobras de tinta branca, debalde, insistia em se exibir para mim, naquela parede úmida com resquícios do antigo verde. Restara-lhe apenas uma metade, pois a outra...
Terminada a visita, teria que me retirar, mas como tive dificuldade para abrir a porta, pensei: Hum...Não querem que eu me vá. (Me reporto aos pequeninos cômodos da casinha humilde, que acabara de reformar). Passei vexame e decepção ao constatar o quanto me enganara.
A porta resistiu em abrir e a explicação tava na cara, ou melhor, na fechadura: ENFERRUJARA!
A porta resistiu em abrir e a explicação tava na cara, ou melhor, na fechadura: ENFERRUJARA!
......................Fim!
................................Autor – Rômulo.
.........Aos amigos, JoãoBa e sua esposa, Amazília/01/2010