sábado, 16 de janeiro de 2010

..........POSSE e APOSENTADORIA

....B A N C O d o B R A S I L

Depois de uma longa espera, em meados de fevereiro de mil novecentos e setenta e sete, acompanhado dos meus pais, fui tomar posse no tão sonhado e cobiçado emprego no Banco do Brasil, agência de Irecê - BA. Tudo era novidade! Uma cidade grande que conseguiu na agricultura ser destaque no cenário baiano tinha como principal produto o feijão, entre outros que produzia com financiamentos do Banco.
Fiquei instalado numa república com quase vinte colegas, e como verdadeiros irmãos, dividíamos sonhos e angústias na esperança da realização de nobres ideais.

Tomei posse e fui indicado para a Carteira Rural, onde tomaria propostas pra aquisição de pequenos tratores agrícolas. Logo fui dominando o serviço, mas a saudade da minha terra, Lençóis, onde deixara minha família e meus sonhos, fez com que antecipasse minha transferência, e em junho do mesmo ano, iniciei de fato minha carreira nessa nova agência. Os anos foram passando, e com eles vi parte daquilo que idealizara sendo cumprido conforme tinha planejado. Sim, havia projetado meu futuro dentro e fora da empresa para as próximas três décadas.

Casei-me no ano seguinte e logo surgiu a minha primeira filha, Milena. A seguir, nasceu o segundo filho, Ricardo e finalmente a minha caçula, Michelle. Tudo isso me fez ter a certeza que seria mais feliz ainda, e que minha vida se tornaria bem mais motivada no banco, e foi o que aconteceu no decorrer da primeira década.

Foram anos felizes em que em meio a algumas turbulências causadas pela economia do país, tivemos problemas, mas já sabíamos que pela garra do corpo funcional da época, venceríamos todas as dificuldades. As mudanças tecnológicas reduziram em curto prazo um grande número de funcionários e vimos agências serem sucateadas em troca de lucro imediato, seguido de imperiosas metas quase sempre inatingíveis. Vieram os PDVs e muita pressão, e isso fez com que alguns colegas, trabalhando no limite, fossem pegos pelo stress e até pela depressão e em alguns casos, levados a óbito.

O Banco voltava enfim ao seu devido lugar como fomentador do desenvolvimento em todo o Brasil. Fortalecido financeiramente pelo governo, precisava se manter de pé ante a concorrência dos bancos particulares, que a qualquer momento poderiam desbancar sua soberania, tornando-o menos estável e não mais a tão confiável Instituição Financeira do nosso país.

Surgia o inevitável e desnecessário enxugamento onde muitos sofreram com transferências, perdas de comissões e de direitos adquiridos ao longo de tantos anos de dedicação. A segunda década findava e iniciava a terceira, portanto.

Aos funcionários que permaneceram em suas agências de origem, restou a certeza de conviverem com o medo e a insegurança, em função do despreparo de alguns Gestores que sem escrúpulos, usavam de estratégias nada éticas para que vissem cumpridos seus acordos de trabalho; o ambiente interno era quase sempre, tenso.

Acontecia de tudo, até mesmo o assédio moral que fragilizava e destruía a nossa auto-estima. Descontentes, muitos se rebelavam sem grande sucesso. Outros, porém, a exemplo de alguns artrópodes, como os caranguejos que desprendendo as patas praticavam a autotomia, também nós, para escaparmos da perseguição iminente, abandonávamos nossos direitos em troca de tranquilidade e segurança.

Como Caixa Executivo, desempenhei minha função e também outras tantas, inclusive a de Gerente Geral substituto, com muita dedicação; fui útil aos objetivos da agência ao levar à clientela, a certeza de que nosso banco seria sempre o melhor dentre os demais, empenho pouco visto em alguns Gestores mercenários, que ambicionaram um posto maior, mas sem o comprometimento com a Empresa.

Funcionário dedicado e já com mais de trinta anos de serviços prestados, surge mais um incentivo à aposentadoria antecipada, o PAA, e vencido pelos argumentos cautelosos da administração local, fiz minha adesão. A seguir, um breve relato no qual demonstro não ter sido oportuna, porém necessária, a minha atitude diante das circunstâncias em que nos encontrávamos. Permanecer seria muito temeroso.

Aderir ao ardiloso plano foi a única saída, vez que discriminava o funcionário com mais de 50 anos de idade, inda que exemplar. Já notava esvair os bens maiores que temos em vida, onde posso afirmar: a saúde e a paz interior, quase perdidas com os perversos PDVs que a todos atormentava e nos fazia chorar às escondidas.

Percebo que obtive alguns ganhos, e que acertadamente desviei-me daqueles que a muitos entusiasmava ao conseguir, os notadamente de valor material. Desbastar a “Pedra Bruta” aproximou-me da essência espiritual e me fez ainda mais tolerante.

Ao usar a humildade sem subserviência, ao ser simples sem ser fútil e em ver a verdade dos bons exemplos sobreporem às retóricas vãs, tornei-me um vencedor. O meu prêmio maior foi a certeza de que não fazia popularidade para com meus amigos e clientes ao dar-lhes o melhor de mim, prestando-lhes um serviço de qualidade. A prova inconteste foi o respeito e a confiança dessa parceria que ultrapassava as fronteiras do guichê de caixa e do meu ambiente funcional.

Da agência, sempre estarei a lembrar dos zeladores, dos vigilantes, dos colegas e de todos que contribuíram para que nossa Dependência permanecesse viável e continuasse seu papel de agente de desenvolvimento na cidade e em toda a região.

Meus agradecimentos a Deus, aos meus pais, ao Banco do Brasil que me proporcionou ter uma família maravilhosa e uma profissão invejável desde que pautada sempre na verdade, honestidade e respeito ao próximo.

Sou grato também aos clientes, colegas professores, aos irmãos maçons, e para com a Igreja Católica que homenageou a mim e a minha família, ratificando que ao me aposentar, recebia de Deus as bênçãos nessa nova etapa de minha vida.

Àqueles que nos substituirão na Agência Lençóis, uma mensagem: As dificuldades existirão sempre, quer no âmbito funcional, quer na vida extra-banco, portanto, façam delas, motivos pra que o sucesso na empresa, ou não, se dê sempre à custa de seus próprios méritos e que o caminho escolhido, seja sempre o da retidão.

Estou convicto de que apenas com atitude e perseverança não atinjamos a tão almejada perfeição, mas estaremos bem próximos da excelência naquilo que propusermos executar. Para muitos colegas, não é ou não será tão difícil alcançar esse objetivo, já que foi, ou ainda está funcionário da maior Instituição Financeira do país, também conhecida por formar cidadãos, o respeitado, Banco do Brasil.

Lençóis - BA 02 de junho de 2007

Escrito por – Rômulo Bispo dos Anjos
Funcionário aposentado na agência 0251-8 Lençóis – BA.
Matrícula – 8 748 940 6