sábado, 6 de março de 2010

..L E A N D R O .B I S P O .L I M A

.................C A M P E Ã O N a t o

Era meio dia em ponto, e o sol no zênite, reinava absoluto naquela triste manhã fatídica.
A sombra dos parapeitos que não eram abundantes na estreita Rua da Boa Vista, foi disputada por dezenas de pessoas que se espremiam em busca de um lugar menos quente. Com ansiedade, esperavam pela chegada dos amigos de outras cidades, que confirmaram presença para juntos levarem ao Campo Santo, o corpo do saudoso atleta.
Os vizinhos, amigos e parentes, cansados e sonolentos pela mal dormida noite quando em desespero aguardaram pelo carro fúnebre, revezavam-se na vigília, prestando ali mesmo nas calçadas, ou debruçando-se nos peitoris das janelas, suas homenagens derradeiras ao corpo sem vida daquele jovem rapaz. Ali era, pois, a casa dos enlutados pais e irmãos, que não obstante as dores da separação buscavam o consolo nas orações.

Voltemos, portanto a outra noite, àquela que antecedeu a saída de um grupo de atletas, reunidos em festa, pois disputariam em uma cidade vizinha, jogos em modalidades várias, tendo como objetivo maior, a vitória do excelente time de basket.
Reunidos em uma movimentada cantina na Praça das Nagôs, muito a vontade, contavam causos e piadas entre um ou outro sanduíche acompanhado de suco, mesmo porque cervejas não tomariam pra que em boa forma física, pudessem viajar na manhã seguinte. Liderados por um técnico, professor de educação física e apaixonado pelo esporte de quadras, obedecendo às suas recomendações, foram todos dormir mais cedo.

O dia amanhece e os atletas de primeira viagem, ajudados por familiares, arrumavam as mochilas com roupas e tênis novos, que exibiriam logo mais em defesa dos seus times. Os veteranos já acostumados com intercâmbio esportivo sorriam tentando minimizar as tensões também notadas no semblante das garotas do conhecido time de handebol.
Enfim, bem humorados e determinados, partiram buscando conquistar medalhas e troféus, e curtiriam ainda um final de semana diferente em convívio esportivo. Participar desses jogos de confraternização também servia para a descoberta de talentos.
A animação daqueles jovens era como sempre, contagiante. Cantavam sambas de roda e todo repertório conhecido, tentando encurtar a distância e assim chegar logo naquela cidade também pequena, onde certamente todos seriam bem recebidos.
Faixas de boas vindas eram vistas penduradas entre postes de iluminação, demonstrando inconteste a força de coesão que há no esporte. Enfim, chegando ao alojamento foram recepcionados pelas pessoas que se dispuseram a acomodá-los junto aos seus familiares.

Recuperados do cansaço da viagem, e acompanhados do incansável treinador foram se organizando pra desfilarem até o local onde disputariam efetivamente, o torneio. Naquele instante a egrégora é fortalecida, pois é o momento em que os atletas de todas as cidades têm pra interagirem, desejando boa sorte para suas respectivas equipes.
Nem tudo necessariamente ocorre conforme o planejado. A disciplina, o bom senso e a humildade são fatores importantes na vida de um atleta. Naquela expedição, sem que pudesse ser evitado pelo professor e líder, fatos ocorreram, como por exemplo: ausência inexplicável de jogador importante no desfile; outros que pela inobservância das normas, excederam no uso de bebidas e tabaco, expondo não só o resultado das partidas, bem como a saúde do próprio jogador. Aqueles que assim procederam foram severamente repreendidos pelo técnico e logo depois reintegrados ao grupo.
O ginásio todo iluminado e repleto de torcedores, irradiava alegria. Feito o sorteio, vimos iniciado o primeiro dos jogos daquela noite esportiva.
O time de basket de Lençóis me faz lembrar a vitoriosa seleção do passado, da qual fiz parte, e atuando bem, brilhou em Bonito – BA. Aliás, não poderia ser diferente, pois tinha em quadra, Leandro, um jogador conhecido no meio, como Negão, “O Papa Medalhas”.

A manifestação daquela torcida organizada fazia chegar aos nossos atletas, incentivos pra que continuassem aguerridos e buscando sempre a vitória, por um placar esmagador.
A supremacia na equipe tornava óbvio o desfecho para aquela partida de basket.
Já se ouvia os aplausos vindos da torcida contrária, vez que nossos atletas faziam da quadra, uma similar pista de dança. Sem dificuldades, envolviam os oponentes com jogadas ensaiadas à exaustão, forçando-os a dançarem, literalmente, quase sem pegar na bola. Amadores, por certo, mas dentre eles havia um menino prodígio, que era campeão.
Naquela quadra, um jogador fazia a diferença. Era um negro alto e forte, jovem, mas já com histórico de ter vencido pela FTC, em um disputado torneio baiano de basketball.

Estava próximo o final da primeira etapa, quando o gigante negro bem servido que fora, sai da zona de defesa e parte com passos largos com a intenção de marcar mais alguns pontos. Se esquivando com habilidade, dispara em definitivo pra finalizar o seu intento.
Foi como se estivesse em jogo oficial e não em uma simples partida amistosa. Elevando-se o mais que pode e com os olhos fixos na tabela que se aproximava do seu rosto, num lance rápido e digno de aplausos, fez a tão conhecida, “enterrada”. Precisa e veloz como uma flecha a bola passou pelo aro e deixou no ar o inconfundível chiado ao atritar os ressecados cordões do cesto. A espetacular jogada fora completada.
Bela cesta, meu garoto”. Ao grito do torcedor anônimo, a galera se levanta e aplaude.

O apito do mesário se fez ouvir e um tempo técnico foi solicitado pelo time adversário.
Sem sinais de cansaço, os jogadores bem humorados seguiram o técnico e se juntaram aos reservas. Assimiladas todas as estratégias, o time se dirige à quadra pra etapa final.
O Negão se aproximou, sentou-se junto a um companheiro e sem qualquer evidência de dor ou lamento, declinou-se lentamente ficando de costas no frio piso de cimento. Foi cercado rapidamente de amigos que perplexos nada entendiam, mas, previam algo pior.
E o pior parecia mesmo que aconteceria. Olhos fechados, lábios lívidos, não sorriam mais. O que estaria acontecendo? O garoto forte, agora sem forças, jazia inerte no chão.
Inconsciente, foi socorrido pelo irmão e por dirigentes do evento que o levaram ao hospital. A noite iluminada e alegre, enfim mostrava-lhes sua face escura e melancólica.

A angústia se fazia notar nos semblantes, a tensão deixava todos em pânico, e o boletim médico era a única esperança pra ver restabelecida, a tranquilidade perdida.
Abraçados, rezavam pela recuperação do enfermo, mas a demora no repasse das informações irritou o técnico auxiliar, que num gesto impulsivo entrou na sala de emergência fazendo-se passar por tio do paciente. O médico, incisivo, deu-lhe a notícia que mais temia. “Fiz o que pude, mas o quadro clínico dele era irreversível.”

ELE NÃO RESISTIU E MORREU. Nada mais posso fazer, senão orar por esse jovem".
Foi derrotado em quadra por um mal súbito, o Negão querido, que fez sua “passagem” praticando seu esporte favorito, cercado de torcedores que sabiam ser ele um vencedor.
A notícia foi repassada ao outro técnico da delegação, que sem esconder as lágrimas, cedeu seu ombro amigo aos jogadores e jogadoras que sofriam com a triste realidade.
Sempre otimistas, planejavam a volta pra casa como vitoriosos, e sequer imaginavam fosse um deles colhido por aquela inaceitável e cruel fatalidade. Ímpio e nefasto destino.
Cabisbaixos, sem troféus nem medalhas, traziam no peito cada um deles uma flor branca imaginária, na volta aos seus lares. Os familiares acordados e tensos aguardavam os filhos derrotados pela dor da perda, inda que consagrados campeões daquele torneio.
Lençóis lamenta a notícia do triste episódio, e está certa de que a noite anterior fora terrível para o esporte e desportistas filhos seus. É lamentável a perda desse filho querido, orgulho sem dúvida para tantos amigos, de volta também à casa paterna, todavia, envolto em misterioso e trágico fim.

Como era previsível, uma multidão seguiu para a casa do falecido atleta, que há poucas horas brilhara em quadra ao fazer feliz até adversários pelas jogadas sempre precisas.
O repicar incessante dos velhos sinos anunciava o momento do enterro, enquanto o lar dos sofridos pais mais parecia um vespeiro silencioso, embora vez por outra visse rompido o silêncio pelo abafado choro de parentes e companheiros desportistas.
Religiosos se aproximavam para a bênção derradeira, onde o padre paroquiano e freiras, inclusive sua própria irmã, rezariam à missa de corpo presente.
O padre conseguiu com sua retórica convincente, passar a todos, sensação de paz e resignação, ao afirmar que a morte apesar de traumática, é um chamamento de Cristo. Que Deus tudo sabe, portanto tudo decide. Eis que foi feita sua vontade levando para si, aquele que há menos de vinte e três anos fizera nascer, para alegria de toda a família.

A praça principal ficou pequena quando por ela vi passar o cortejo fúnebre, levando com honras de campeão que fora, sobre um carro de bombeiros, o menino forte que de sorte não precisou pra mostrar que era predestinado a ser estrela, mas a morte o levou. Afirmar que aquele enterro em curso estava muito bonito, não era nenhum exagero. O fato é que as pessoas irmanadas seguiam umas às outras, em demonstração clara de solidariedade para com a família enlutada. Homens, mulheres e até crianças caminharam em absoluto pesar até o pequeno cemitério. Não muito conformados, muitos deles deixaram que rolassem as quentes e fartas lágrimas, antes contidas.

O momento final se deu sob um sol abrasador e inclemente, onde discursos de amigos e parentes pediam a Deus na sua infinita bondade, conforto espiritual para todos. Convictos na fé sabiam que o saudoso Leandro Bispo, pertencia desde a noite do dia anterior, ao seleto time dos “escolhidos,” cumprindo ordens do técnico maior, o todo poderoso, Nosso Senhor Jesus Cristo.

A multidão ainda presente, percebendo que chegara o instante da separação definitiva, ao ver que a urna funerária está sendo conduzida à sepultura, decide e faz como última despedida, calorosa salva de palmas que se fez durar por alguns minutos, em honra ao atleta Leandro Bispo, CAMPEÃO BAIANO DE BASKETBALL.


Essa é uma história real, baseada em fatos verídicos ocorridos durante intercâmbio esportivo, em Bonito, com a participação especial de atletas da cidade de Lençóis - BA.

Autor – Rômulo Bispo dos Anjos – ex-jogador de basket, em homenagem a Leandro. (31.05.08)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

HOMENAGEM A OSVALDO S. PEREIRA

................. Desaparece um Ícone em Lençóis


.......................Osvaldo - "O .Mestre


O Editorial do Informa Lençóis desse mês vem prestar homenagem ao querido Osvaldo Senna Pereira, o nosso “Mestre”.

Culto, entusiasta e destemido em suas colocações, deixou além de saudades, um legado incomensurável em preceitos morais.

Um homem de fala mansa, simpático e muito sábio. Seu jeito simples, sua índole acolhedora, a tantos ajudou sem em troca pedir nada. Contentava-se em receber sorrisos como pagamento por serviços, que na maioria das vezes, só ele conseguia executar.

Destacou-se como fiel depositário das ricas histórias da cidade. Soube como poucos, conservar em acervo próprio, documentos, fotos e objetos que tão bem ilustram o fausto, o crescimento e o declínio rápido de uma era farta em diamantes e carbonatos.

Conhecido como garimpeiro de histórias fez família e se mostrou um grande pai, que se orgulhava sempre em dizer que seu bem maior, seu patrimônio em vida, era a certeza de ter uma esposa maravilhosa, filhos e netos seguidores de seus ensinamentos.

O turismo em Lençóis, hoje uma realidade, teve a participação de “Mestre” desde o início. Às vezes em grupo, como o M C C, (Movimento de Criatividade Comunitária) outras, sozinho, pelas ruas, informando sempre preciso, com passos ligeiros, e seguidos por turistas que atentos, absorviam seus fiéis relatos históricos.

Sua perda seria irreparável, caso se perdesse no tempo suas estórias, seus causos, sua luta por uma cidade agora preservada. Porém, seu legado será eternizado e a sua contribuição ficará na memória de todos aqueles que sempre o viram e o admiraram como um defensor da tão querida e amada Lençóis.

Autor do texto – Rômulo Bispo dos Anjos
Setembro/2007
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.............MESTRE OSVALDO
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...............................UM SÁBIO

Cheio de vida e de repente a morte,
Resta a saudade que nos atormenta.
Sentimo-nos sem rumo, sem norte,
Eis que a palavra do Mestre nos acalenta.

Nada é eterno! Quiséramos fosse diferente,
Dizia-me o sábio Osvaldo, referindo-se a morte.
Ainda que o destino ou o acaso se faça presente,
Lembre-se que a vida continua, busque ser forte.

Reunidos estamos, admiradores, esposa e filhos,
A homenagear-te com solene missa, querido irmão.
O seu sermão, conselhos, a tantos fez retornar aos trilhos,
Fazendo-os ver a luz, levando-os ao caminho da retidão.

Quantos anos se passaram e você não saiu da nossa memória.
Nossa cidade agradecida, seu nome guardará para sempre,
Pois dela fizestes parte como guardião dos causos e de sua história!
Um Mestre não morre! Ainda que despojado da matéria, seu espírito estará presente.


Fraternal abraço.’.
Rômulo Bispo dos Anjos
Lençóis – BA 21.02.10