terça-feira, 16 de março de 2010

......................O .C A S A R Ã O








........O .C A S A R Ã O .D O S .A L C Â N T A R A

No início da Rua dos Negros e desafiando o tempo, podemos ver ainda o casarão com muitas portas e janelas, que em um museu deveriam tê-lo transformado; sem dúvida, cabia-lhe o dos Coronéis. Também como escola, diplomou o primeiro grupo de professores e ostentava o nome “Ginásio Afrânio Peixoto” como homenagem ao imortal escritor, médico e romancista.

Tive a oportunidade de estar bem próximo ao respeitado escritor e político, Manoel Alcântara de Carvalho, quando em convivência com seus netos, meus amigos de infância. Sempre juntos, ao término das aulas, as brincadeiras quase sempre ocorriam fora do Casarão. Entretanto, algumas delas pra desgosto daquele velhinho de terno e com óculos de aros redondos, aconteciam dentro de casa e sem fronteiras. Ao perseguir um inimigo oculto, e isso fazia parte da nossa imaginação, valia de tudo. Sequer poupávamos o escritório do poeta, onde sabíamos conter o acervo com as Peças Literárias e demais documentos da História Política de Lençóis.

Nasceu Manoel Alcântara em 19 de abril de 1886, na sua amada cidade serrana, Lençóis – BA. Veio a falecer também em sua cidade natal em 26 de agosto de 1968, com 82 anos de idade.

Naquela casa também moravam o Senhor Pimentel e sua esposa, Dona Beatriz A. Meireles, Dona Senhorinha e algumas de suas sobrinhas, moças queridas por todos da família Alcântara. As festas constantes, muitas delas em razão de aniversários dos filhos, levavam alegria e animação àquele lar. Até baile dançante havia nessas ocasiões, sempre no grande salão que ficava próximo à varanda, onde por suas janelas a brisa atenuava o calor dos pares a dançar.

Cercado por vasta área com fruteiras diversificadas, o casarão enorme aos meus olhos de criança, hoje não me parece tão grandioso quanto antes, mesmo assim, ainda me impressiona. Duas escadas davam acesso ao primeiro pomar, onde se destacavam o Pé de Abacate com seus frutos de tamanho avantajado, as mangas Margarida e os suculentos e fartos Sapotis. Quando atravessávamos pela garagem que servia também como galinheiro, víamos muitos Pés de Cajá, e o chão sob os mesmos sempre salpicado de frutos fulvos, de inconfundível aroma e sabor. Soberanos e imponentes, resistindo bravos ao tempo, já àquela época nos fartavam igualmente, o Tamarindeiro e a Jaqueira com suas deliciosas “Jacas do Pastão”.

O esguio João, dos filhos o primogênito e conhecido como “Cachambinha” o intelectual, demonstrava pendores precoces pela literatura. Manoel o Soneca, nem tanto, contudo fazia jus em ter o prenome do avô. Francisco, dotado de inteligência acima da média, tinha pouca tolerância às brincadeiras, mormente as de mau gosto, e quando irritado fazia-se notar pelo rubro repentino visível em ambas as faces. Paulo, bem como José Henrique e Antônio Cezar, completavam o clã Alcântara de Meireles. Desses últimos surgiria um business man e excelente gourmet (Paulinho), o sociólogo e literato (Zeinho), e o jornalista e publicitário, (Toinho). Aquele sexteto conhecido por Irmãos Meireles era formado pelos netos de Senhorinha e Manoel Alcântara, e filhos do casal Meireles. A Mãe, uma Mestra carismática, destacou-se também na difícil missão do ensino da Língua Portuguesa; o Pai, dedicado funcionário dos Correios e Telégrafos, um homem culto e de ilibada conduta na comunidade.

À exceção dos mais jovens, os desafios entre nós parecia mesmo querer apontar um líder para o grupo. Entrar sozinho naquele úmido e escuro socavão, e ainda achar algo, cápsulas não deflagradas de balas de fuzil na maioria das vezes, denotava muita coragem e um grande feito; as corridas como velocistas, empreendidas sempre em pastos repletos de esquivos animais; batalhas na chácara velha, onde os caroços das mangas e das jacas eram por nós utilizados como munição; vencer também, não apenas por ser o mais rápido a subir nas árvores, mas, por conseguir alcançar e colher os frutos naqueles altos e frágeis Sapotizeiros. Nessa aventura vencia o mais arrojado e nem sempre o mais cauto. Jânio Azevedo, serelepe amigo, habilidoso qual um símio exibia-se com destreza como se um desses animais fosse, e quase sempre se sagrava vencedor. Não duvide caro leitor, o menino afoito gostava mesmo era de cair ao chão.

Lúdicos e saudáveis foram os momentos vividos por nós no casarão, uma vez que assimilamos dos obstáculos enfrentados, sua essência, e vencidos e vencedores se irmanaram sem que houvesse no grupo, a necessidade de um líder. Aprendíamos, por tanto, lições de cidadania.

Não posso omitir fatos inexplicáveis e desnecessários, como a derrubada inconsequente das belas cornijas que tão bem ornavam o Portão Principal da chácara, por um dos nossos amigos. Também surripiavam como se de fato fossem troféus, potes com caldas do vivaz Tamarindeiro, que a Matriarca Senhorinha produzia e pensava tê-los fora do alcance dos “Pestinhas” que tanto amava. Nosso território também incluía incursões pelos salões e quartos, nem sempre permitidas pelo anfitrião maior, Manoel Alcântara de Carvalho. A algazarra que fazíamos naquela manhã por certo irritou o ilustre poeta, que sem fazer alarde, sutil, entreabre uma porta e em tom imperativo, inquire: “Quem ousa perturbar o meu sono”. Ficamos agachados por entre os móveis enquanto seu neto João, com ares de pilhéria, me acusa: “Foi Rômulo Anjos, Vovô”. “Quem é Pomboângelos”? Uma pequena mão branca como se de luvas estivesse calçada se faz notar no vão da porta, e de novo fui denunciado: Foi Rominho, Vovô. “Quem é esse Pombinho”? Com a autonomia que lhe era peculiar, viu sem delongas acatadas suas ordens e o silêncio foi rompido quando dispersos corríamos para um novo campo de batalhas.

Persiste ao tempo como marco maior de uma época, imponente e histórico, o Casarão que o empresário e empreendedor, Paulo Alcântara de Meireles, se preocupou tanto em preservar.

Com a determinação e a fibra do falecido avô, transforma a propriedade em um requintado ponto comercial, o Lumiar Camping, onde no lugar do luxo, vê-se o bom gosto, estilo, e além de ser aprazível se destaca pela inigualável gastronomia francesa, onde o sabor da boa comida se mistura com a rica história do lugar. À frente desse sucesso, o mérito do Chef, Paulinho.

O Velho Casarão é um ícone dos Alcântara, e guarda no silêncio dos seus aposentos, histórias de uma família onde o fausto não se escondia, e nem a generosidade do culto e rico Patriarca. O ilustre filho de Lençóis foi amigo de Afrânio Peixoto, Ruy Barbosa, Horácio Mattos, dentre tantos outros notáveis que como ele, Manoel Alcântara de Carvalho, tanto lutaram pela Paz.

Dedico essa crônica aos Irmãos Meireles e em extensão à família Alcântara, homenageando seus antepassados que tanto fizeram por essa cidade, Lençóis, onde prevalecia o rigor da violência, e eles, com coragem e determinação, escreveram mais uma página de sua história.

Créditos- Rômulo Bispo (rbanjos@hotmail.com) * Lençóis – BA. 30/08/2009

domingo, 14 de março de 2010

.................Art - Paint Brush







...............CRIAÇÃO E ARTE NA PONTA DO MOUSE

A arte visual é um amplo canal de expressão e abrange formas e cores bem diversas.
Nessa edição apresento mostras, imaginárias, às vezes, mas incluo alguns casarios antigos.
Os desenhos, de minha autoria, compõem acervo inédito a partir do limitado Paint Brush.
Com o tempo a meu dispor, desafiei-me a criá-los, tendo como recurso apenas o mouse.

.........Autor - Rômulo Bispo.

P.s. (Desenhos com direitos autorais).