sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

..................SENHOR DOS PASSOS











................O GUIA DOS NOSSOS PASSOS

Concluí que a festa de Senhor dos Passos, em número e grandeza religiosa, só perde para a de Bom Jesus da lapa. Lençóis se destaca também ao se tornar centro de visitação ao culto religioso. Devido às reformas na Avenida e também na Igreja, os festejos foram transferidos para a matriz do Rosário, que acomodou muito mais gente e ficou mais confortável para a comunidade católica.

Dois de fevereiro chove! Isso é tão certo quanto à serpente que levantará voo, se em procissão, Senhor dos Passos não cruzar a ponte. Seria só uma lenda urbana? Acreditem! Choveu de novo.

Os instantes que antecederam a saída do cortejo foram de ansiedade, pois a chuva que ameaçava logo se precipitou muito forte. O vento e a água que despenteavam os fios sintéticos nas perucas das imagens à porta da Igreja, também incomodavam as madames em trajes suntuosos e calçados de saltos altos. Outro problema visível, era o temor das jovens que bem vestidas, tinham os cabelos previamente alisados e não poderiam sair porque a chuva forte teimava em não parar.

Enquanto isso, postada sobre os doloridos ombros dos homens e mulheres, via as imagens de Mãe e Filho, já molhadas, sem a certeza de que poderiam ser levadas em procissão. Os sinos que anunciaram pouco antes o começo do cortejo se calaram para que o sacerdote em dúvidas decidisse sobre o início da caminhada. O andor de Nossa Senhora das Dores que estava no adro, foi recuado e a Santa viu que mesmo com a torrencial chuva, o Senhor dos Passos começava a ser levado pelo povo. "Voltem e esperem um pouco mais”, dizia o padre aos fiéis! Mas aqueles homens, católicos fervorosos, ansiavam pra quitarem suas promessas. “Queremos carregar o Santo, de qualquer jeito, até mesmo na lama”, diziam inconformados. Sem ser ouvido, o Padre celebrante também junto ao povo, acompanhou em passos rápidos, agora também com a imagem da Santa, a procissão que de fato se iniciara.

Naquele instante, tive a certeza da fé daquele povo, e que Senhor dos Passos não era apenas uma imagem grande, não! Também era considerado o símbolo maior do surgimento da nossa cidade!

As graças alcançadas, fizeram desse povo, fiéis escudeiros dos nossos costumes e crenças. Mesmo voltando-se contra o pároco, desrespeito não houve, pois já acostumados, carregaram em anos anteriores sob aguaceiro também, a tão valorosa imagem do Santo, co-padroeiro da nossa cidade.

Já sem a chuva, rezavam e cantavam espremendo-se pelas estreitas ruas da cidade, acompanhados também pela conceituada Filarmônica, Lyra Popular de Lençóis e Cítara, centenas de pessoas unidas pela fé e pelo pouco espaço que dispunham pra caminhar.

A marcha dos fiéis foi de rua em rua, atravessando praças apinhadas de turistas que respeitosamente levantavam-se pra tirar fotos e filmar aquele show de fé que nos remete à música de Gilberto Gil, no trecho que diz: "Olhe lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão".

Suada e ainda molhada, foi se aproximando do final, toda aquela gente que de alma e corpos lavados, cantavam com o mesmo entusiasmo, o tão conhecido quanto o Hino do Senhor do Bonfim, o poderoso Hino do nosso querido Senhor Bom Jesus dos Passos.

A saudade aperta-nos o peito pela ausência dos amigos e dos conhecidos que passaram para o oriente eterno. Crescemos vendo-os participando dos festejos, e com alguns, tivemos o prazer de dividir espaço e caminhar com eles pelas ruas lado a lado. Cometerei injustiça em não me lembrar do nome de muitos deles, entretanto, permito-me citar: Cícero Preto, Seu Maninho, Frederico, Natalino, Dona Santinha, Toninha, e meus queridos pais e mentores, Angelina e Isidoro Bispo dos Anjos. É bem provável que se recordem de tantos outros não citados por mim, mas que abrilhantaram com suas presenças ao longo de muitas décadas, o nosso dois de fevereiro.

A cidade hoje é composta de vários segmentos religiosos, entretanto, o convívio harmonioso entre eles é uma realidade. Não creio na possibilidade de um mesmo relacionamento da comunidade católica conservadora e também de moradores junto a uma minoria de empresários da área de turismo, posto que, insatisfeitos, disseram-me alguns nativos, não pouparam criticas a alguns de nossos costumes, como por exemplo: Fogos de artifício nas alvoradas e também nas missas diurnas e noturnas; Show com banda musical mesmo ao término das noites do novenário.

Deixaram transparecer a intenção futura da quebra desse traço cultural. Justificavam que essas atividades incomodariam e quebrariam a paz que tanto buscavam os turistas. Ao que parece, teríamos que abrir mão de parte de nossa cultura religiosa, para que a cidade fosse vista tão somente pelo aspecto natureza e turismo. Frustradas tais intenções, o certo é que haja o bom senso e, natureza, tradição, filhos da terra e empreendedores outros, convivam em harmonia.

Voltemos ao final da nossa festa religiosa, aonde pouco vimos daqueles que só acreditam no fortalecimento de suas contas bancárias. Daqueles que se preocupam mesmo é com a defesa dos seus bens patrimoniais, acobertados por um pseudo amor pela nossa terra.

A Igreja Matriz ficou lotada com o retorno das imagens e pelas pessoas que não esbanjavam senão, o poder da religiosidade.

É isso que faz a diferença. Lençóis não pode viver sem o turismo, é verdade. Também é verdade que pela força da tradição, dos costumes e dos traços religiosos, é que o turismo se fez uma realidade para todos os segmentos da nossa comunidade.

A noite chegou e vimos iniciada a missa final. Com a mesma disposição do dia, os romeiros vindo de outras praças, ainda faziam suas últimas preces, onde se ouvia claramente pedidos de que pudessem retornar no ano seguinte com a mesma saúde e fé, redobradas.

A bênção final foi dada ao som do Hino dos Garimpeiros e em seguida o toque inconfundível da Lyra, com o Hino ao Senhor Bom Jesus dos Passos, fechava com louvores, nossa grandiosa festa.

Zelar pela tradição e pelos nossos direitos vai ser sempre nosso ideal. Tudo que vier em fortalecimento dessas causas terá importância, pois fortalecerá nossas origens e nos identificará como um povo. A identidade de um povo é sem dúvida, seus costumes e a sua tradição.

Créditos- Rômulo Bispo.
Lençóis - Ba, 02 de fevereiro de 2008.