segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

-------------A .M A T A N Ç A---

....................O. B O I. D E. C A R E T A .

No pátio do antigo Ginásio Afrânio Peixoto, muitos jovens conversavam e brincavam, outros optavam em degustar o tão saboroso “arroz de leite”, na cantina de Dona Dete.
Os alunos usufruíam seus últimos quinze minutos do recreio, quando ecoa um alerta: “O Boi de Careta já está na Praça das Nagôs”. “Vamos esperá-lo, sobre o muro”.
A briga por um melhor lugar tornava claro o grau da adrenalina já visível em suas veias.

Localizada no início da Rua do Lavrado, fora edificada e ainda funcionava, a Matança. Construção retangular, piso de cimento-queimado e com cobertura de telhas de barro, o galpão sem janelas tinha parte da fachada em madeira vazada, na forma de um leque. Aquela obra rústica destinava-se ao abate dos animais a serem consumidos pelos moradores de Lençóis e povoados vizinhos. O prédio era contíguo a um pequeno córrego, o Lava-Pés, onde víamos suas águas aumentadas por um filete intermitente do sangue que escorria do abatedouro, fazendo tingir de um vermelho-escuro suas margens repletas de lânguidos e ávidos urubus, disputando entre si, pútridos nacos de carne.

Às quartas-feiras pela manhã, e conduzido por perversos vaqueiros, o tropel seguido de cantoria lamuriante, anunciava a presença do Boi Encaretado pelas ruas de Lençóis.
Depois do corre-corre pela Avenida Senhor dos Passos, o estressado animal teria que passar pela estreita ponte, e bufando, ameaçava pular no rio, pela pequena mureta. Contido à força por seus algozes, via suas carnes serem dilaceradas pelo chicote em tiras de couro cru, e retomava sua peregrinação ao calvário, trêmulo e ensanguentado.

Acossado e sem forças, cambaleante descia em frente ao colégio quando a tapa de couro que lhe cobria a visão se desprende, e ele vai de encontro a um grupo de jovens. O animal descarta a provável fuga quando seus joelhos se dobram e ele cai; os olhos em pânico suplicam ajuda, mas fica ali, sob um muro repleto de alunos que sem piedade jogam sobre ele pedras e paus, deixando-o ainda mais furioso. Impotente, deixa-se levar mansamente como se resignado estivesse, mas amargava a tristeza do sacrifício próximo.

Enfim, já no Matadouro e de cabeça baixa, se vê amarrado no mourão e recebe entre os cornos a punhalada certeira que o faz cair novamente; dessa vez não mais se levantará. Suas carnes e músculos não mais tremerão em detrimento da dor ou ódio, todavia, em virtude dos óleos aquecidos e do tempero que o transformará em rica fonte de proteínas. A maneira de matá-lo e de transportá-lo, é diferente, entretanto, continua sendo um martírio.

Tal qual um jogo de morte ou vida, antes de ser abatido ele tentara romper as amarras e correr desesperado buscando se livrar do carrasco e sobreviver; adiar a morte, quem sabe! Impossível lograr êxito, mas haveria de lutar até o fim; como recompensa, sempre a morte!

O Boi, a meu ver, não apenas quebrava algumas portas, mas também a rotina das nossas quartas-feiras. Sua aparição sempre festiva levantava o ânimo dos pacatos lençoenses que amedrontados, corriam pelas ruas, fechavam suas lojas, e se penduravam nas janelas, temendo a ira do assustado animal que denotava às vezes, querer interagir e até brincar.

Não se registra apesar da exposição ao risco, nenhum acidente com gravidade. Alguns joelhos arranhados vistos nos menos corajosos; um ou outro dedão do pé sem a unha, perdida num tropeção, se comparava ao azar do boi, que tentava debalde, burlar a morte.

O suplício dos animais continua, embora sem algazarra, e sem correria pelas ruas e becos. Principalmente, sem a participação do povo e dos estudantes que como coadjuvantes levavam ao ápice da loucura o astro maior, o Boi Valente, das manhãs das quartas-feiras!

O Boi de Careta se foi, é verdade; mas, continuará vivo em nossa lembrança de estudante. Almejo que outros relatos não se percam no tempo, e a exemplo do Boi de Careta, possam ser publicados e conhecidos por outros leitores na nossa culta cidade, Lençóis.
Vamos preservar a nossa história, pois ela está ligada aos nossos bons hábitos e costumes.

Créditos- Rômulo Bispo dos Anjos.
Lençóis – BA, 19.02.2009
Foto ilustrativa retirada da Internet.