O sol no zênite, exibindo luz e muito calor, parecia mesmo despedir-se do longo verão.
O outono logo chegaria, mas o último sábado daquela quente estação indicava que o astro continuaria sendo o melhor guia pelas conhecidas trilhas da Chapada Diamantina.
A bike que tão pouco fora utilizada no trecho de pedras, agora se fazia útil, e veloz me conduzia por uma estrada de barro e em declive. A descida rápida se tornava perigosa, exigindo de mim, ciclista veterano, habilidades adquiridas e que provavelmente me livrariam de um tombo certo sobre aquele cascalho de pedras soltas.
O cansaço na trilha é recompensado pela visão privilegiada que se tem ao chegar ao ponto conhecido como Cruzeiro das Almas. Dali se vê todo o emaranhado de ruas e becos que se iniciam na antiga Praça do Comércio, hoje conhecida por Horácio Mattos.
Saindo da cidade nas primeiras horas da manhã, pedalei forte por uma subida de mais ou menos cinco quilômetros até o platô conhecido por Cascalheira. Chegar à Subestação da Coelba não foi difícil e logo estava na pista oficial. O sol inclemente não demorou e surgindo brilhante, parecia querer fazer-me desistir do meu intento. O calor era intenso.
Já havia passado pelo Rio Mucugezinho e estava próximo ao Pai Inácio, onde sairia do asfalto e iniciaria finalmente, o meu planejado passeio por aquele vale maravilhoso.
A quietude do cerrado rompia-se pelo cantar dos pássaros-pretos, e dos barulhentos periquitos. Os gafanhotos em pânico fugiam lépidos voando sobre minha cabeça, e dispersavam-se na vegetação espinhosa que arranhava e feria os meus braços e pernas.
O primeiro banho foi em um rio de pouca água, mas muito refrescante. Ao atravessar a tosca e mal conservada ponte de tábuas, ainda nesse mesmo rio, resolvi descansar em uma chácara, onde os frutos fartos cobriam com abundância, o chão sob as jaqueiras e mangueiras. A simpática e feliz proprietária há muito falecera, e não mais me receberia.
Parei sem hesitar, pois já conhecia aquele local. Sem cerimônias, comi alguns frutos e reservei outros pra degustar depois, em um riacho de águas escuras e ferruginosas.
A trilha sinuosa onde se podia tocar e sentir o perfume das orquídeas, roxas e amarelas, também escondia alguns animais peçonhentos, a exemplo do escorpião e da temida cascavel. Ainda assim, recomendaria esse passeio a turistas idosos e até para adolescentes. A natureza é sábia; quando os limites são respeitados, não há imprevistos.
Subidas, descidas, córregos a atravessar e ainda carregar literalmente minha bike, fazia arder o ácido lácteo nos meus músculos ainda mais rijos, motivando-me a perseverar.
O limo em profusão cobria os seixos, e eu não me arriscava a pedalar, por enquanto. Não demorou e pude ver do alto do morro que acabara de escalar, muito distante, a Lagoa Encantada; frondosas árvores quais guardiãs, faziam dela, um ícone da natureza.
Equidistantes florestas ainda preservadas se assemelhavam a um gigantesco manto verde.
Exausto, sentei-me próximo ao campo de orquídeas e me permiti um merecido descanso.
Pedalando rápido por uma estrada bem larga, adentrei naquele que outrora acolhera algumas famílias tradicionais, hoje, quase desabitado, Povoado do Barro Branco.
Dando asas à imaginação, senti como fora diferente aquela comunidade com escolas, comércio, e pessoas perambulando pelas ruas agora tomadas pelo mato, em abandono. De volta a um passado não tão remoto, pude me ver em um grupo de escoteiros, à frente da Patrulha Leão. O prédio escolar onde acampamos não mais existe, tampouco a lagoa infestada de cobras-verdes que nos servia para o banho e o lazer. Levava a sério o que diziam os mais velhos: “Com cobra não se brinca”. Coitadas, e por isso, matamos quase todas da espécie. A lagoa secou e em lugar das águas e dos animais, apenas um matagal.
Curioso, olhava tudo à minha volta, e percebia que pouca coisa resistira ao tempo; algumas construções, as mais sólidas, ainda assim, pelas largas fissuras das suas paredes saíam galhos de umbaúba, espremendo-se em busca de sol. De repente o rosto de uma jovem assomou furtivo no retângulo de uma carcomida janela, pra me ver passar; Sem dúvida, era o único ciclista visto ali nas últimas semanas, e isso despertara sua atenção.
Absorto, seguia em direção à cidade quando avistei do Cruzeiro das Almas, Lençóis, o centro desse santuário ecológico, a Chapada Diamantina. Sob a cruz discreta que protegia os amantes, ocultando-os com o manto noturno, eu admirava o traçado das ruas convergindo para um ponto comum de fé: A Igreja Matriz - Nossa Senhora do Rosário.
F I M.
Autor – Rômulo Bispo dos Anjos.
Lençóis – BA, 14 de março de 2009.