sábado, 21 de novembro de 2009

...................O VOO DO SABIÁ



.........A...... V I D A...... P O R...... U M...... F I O

Caía a tarde, e o sol agonizante no crepúsculo, indicava o fim de mais um dia sob um calor infernal. Como paisagista que me fiz, refestelado nas grades do meu jardim, contemplava aquelas estrelas recortadas na grama verde, minha criação mais recente em alusão ao Natal.

Meu vizinho molhava suas plantas, que sedentas, clamavam por aquele banho refrescante. Findo o trabalho e com minhas ferramentas já recolhidas, como ele, aspergi água em minhas rosas quase todas elas murchas, pela ação do indescritível e muito quente, sol de primavera.

Falávamos sobre as chuvas que teimavam em não cair; sobre animais de estimação, com ênfase aos gatos e cães criados pelo amigo em sua casa, e a harmonia reinante entre eles. Sorria ao lembrar do meu cãozinho Fox e sua aversão não só aos gatos, mas também ao vizinho, amigo paciente, que acostumado às suas ameaças, preferia tê-lo sim, a uma boa e segura distância.

Um pequeno filhote de sabiá, em voo errante, chega e pousa em frente ao portão. Seu canto era mais um lamento, que saído do seu bico ainda tenro e circundado de amarelo, mostrava que prematuramente tentara ganhar a liberdade. Agachado e trêmulo fica entre as pedras, seus olhos graúdos, aumentados que estavam pelo medo, buscavam, quem sabe, um socorro.

O que fazia tão próximo ao cantante sabiá, aquele também barulhento, Anum-Branco? Parecia querer protegê-lo, ou talvez, devorá-lo. Com seu andar desengonçado e a crista eriçada, dava voltas ao seu redor e parecia não temer minha aproximação. Cauteloso, fotografei a avezinha que logo estava confortavelmente na segurança das minhas mãos.

E agora? O que faria para devolvê-la aos seus alucinados pais que cantavam sem parar, exibindo-se com voos rasantes, ameaçando tomá-la de mim, com suas garras e afiados bicos! O meu amigo que também assistia ao concerto agora formado por várias espécies de pássaros permitiu-me adentrar no seu pomar, e assim tentaria devolver ao ninho, o pássaro desgarrado.

Apenas com uma das mãos, tirava fotos das aves, a exemplo dos pardais, dos rouxinóis ou sofrês, e percebi que de volta e ameaçadores, chegaram novamente desafiando-me, os anuns-brancos. Os sabiás não percebiam e nem os outros pássaros que também eu queria ajudar, apenas isso. De galho em galho, se revezavam na vigília, curiosos e muito mais barulhentos do que antes.

Percebi que a cantoria nada maviosa tinha outro sentido e me pus em alerta. Vi ao meu redor, sob as ramas das fruteiras abundantes daquele bem cuidado quintal, os cães e vários gatos. Em minha mão, angustiado pra retornar ao aconchego dos aflitos pais, se esgoelava o filhote. Nos galhos mais baixos, ao invés do ninho que tanto procurava só as aves em desespero tentando avisar-me do risco iminente que os traiçoeiros gatos traziam à segurança de todos.

Que devo fazer, já que seus animais, à exceção dos cães, estão ávidos para degustarem o passarinho? “Coloque-o sobre o telhado da garagem, que é o local mais seguro e apropriado”. Ficamos ali embaixo das mangueiras, e eu em particular estava ansioso pra ver o reencontro. Determinado, subi os degraus que me levariam até a garagem, e escolhi onde deixaria a ave.

Os transeuntes, pasmos, se deliciam com o costumeiro chilrear dos Pássaros-Pretos ao se aninharem nas copas das Mangueiras. Entretanto, algo diferente estava acontecendo no quintal. Afugentadas, as aves naquela tarde se refugiariam bem longe daquele local, onde aos bandos, e ao final de cada dia, todas convergem e até os morcegos ali se instalam aos montes.

Seguido de perto pelas aves, podia sentir o ar sendo deslocado próximo à minha cabeça, pelo frenesi de suas asas. Esticando o mais que pude o braço sobre o telhado cheio de folhas secas, deixei escorregar mansamente a ave indefesa que pelo visto, de mim, já se afeiçoara. Naquele instante, senti-me aliviado e com a sensação do dever cumprido ao vê-la novamente, livre.

De novo pude ouvir o cantar alegre dos sabiás, os pais que nem chegaram a pousar no telhado, pois seu imprudente filhote em mais um voo cego, desafia a sorte, e a morte; pousa no chão. Tão rápido quanto um raio, sai das folhagens aquele gato negro de olhos verdes, e salta com precisão sobre o infeliz. Ouve-se o grito do seu dono, meu amigo, que tanto quanto eu estava perplexo, a ordenar: “Solta, solta”. O instinto do felino prevaleceu, pois sem mostrar piedade, o devorou.

Atônitos, ficamos os dois sem ter o que falar, e aproveitamos para ouvir do quintal, o silêncio que se fez por longos minutos, até que apercebidos do fato, os sabiás, voltaram a cantar. Um canto de chamamento se repetia, e o voo era mais calmo, todavia, horas depois, incansáveis os pais buscavam ainda por aquele filhotinho que por meses criaram, e que não mais iria voltar.

Créditos – Rômulo Bispo dos Anjos.
Lençóis – BA, 15 de novembro de 2009.