quinta-feira, 25 de março de 2010

..............P R I M A V E R A







..........P A R A L E L O

Sentado num banco de um jardim onde podia admirar o luar, fui acariciado por uma garota que me acompanhava naquela noite especial; era Joana, a minha namorada. Recostada em meu peito e pensativa, buscava nos meus braços a segurança que lhe faltava. Senti que algo a incomodava e busquei explicações no passado. Revivi por instante um episódio triste, mas que contribuiu pra que ficássemos juntos ainda mais, quando não nos permitiram da Festa das Orquídeas, participar.

Setembro chega de novo e trás a Primavera, estação de realce pela beleza que se pode ver em cada galho florido, com tons do esbranquiçado das Margaridas, ao roxo das Quaresmeiras. Persistentes lembranças de uma remota Noite Primaveril ameaçavam em não nos deixar em paz.

Lençóis à época se exibia ao povo, pois naquele dia festivo os pórticos foram adornados com arcos de jasmins, acácias e orquídeas. Recordo-me ainda das moças e rapazes, filhos legítimos de uma casta privilegiada, adentrando com seus trajes típicos, no seletivo Centro de Ação Social.

Desci a praça, alegre também, todavia com uma roupa velha, limpa, mas muito amarrotada. Lembro-me bem: calças de mescla azul marinho, camisa de pano de saco e sandálias de couro cru, calçavam meus calejados pés. Nada poderia tirar minha vontade em ver tudo aquilo de perto.
Uma famosa banda de jazz chegou de Salvador e iria tocar na festa que antecedia à ágape, para deleite de uma elite composta por donos de serras e famílias ilustres de Coronéis da Chapada.

Sob um rústico poste de madeira e sem exibir convites, sapos se fartavam das mariposas que desgarradas do frenesi em volta da tênue luz, debalde, se esquivavam das famintas e pegajosas, línguas. Curioso, vi entrar pela única porta do sobrado, com acesso pelo beco, aquela gente radiante e perfumada pelas flores trazidas nos cabelos, ou em orla de ricos vestidos, e nas lapelas dos ternos de linho puro, muitos deles importados de Paris.

Sem que me obstassem e nem poderiam, do alto de um muro na praça central, constatei que o baile havia começado. Via também o vaivém dos garçons servindo aos casais que preferiam de suas mesas ouvirem a orquestra, degustando de fabricação caseira, o saboroso licor de jenipapo.

Nas esquinas, excluídos da Festa das Orquídeas, volviam olhares tristes para o casarão em festa.
Chato, penoso, sei lá como posso adjetivar ao que senti; tripas roncavam vazias, e no meu bolso, apenas trocados. Vontade e necessidade de me integrar àquele povo, pois eu era gente, humano!
Por que não podia ver de perto tudo aquilo e também saciar um pouco a fome que me castigava?

O lampião iluminava o apertado beco que dava acesso ao velho prédio, onde ao fundo, percebi alguns garotos carregando cadeiras e mesas que serviriam aos convidados que se atrasaram. Difícil seria como entrar ali sem que me pusessem pra fora, pensava, contorcendo as mãos, muito ansioso. Nem tão bem trajados, os meninos passaram na portaria, e foi aí que tive uma boa idéia.

O último deles, um moleque de aproximadamente catorze anos, levava sobre a cabeça uma mesa e na mão esquerda um antigo jarro de porcelana envolto junto às flores em uma rica toalha em bordados. Com maior interesse em me ajudar, fui e ofereci meus préstimos. Antes que me impedissem, subi os degraus desgastados pelo tempo com os olhos muito abertos, pois queria aproveitar todo meu tempo escasso. Quando me livrei do peso da mesa, senti um cheiro gostoso subindo até o meu nariz, revirando sem piedade e fazendo roncar o meu estômago, ainda vazio.

De repente percebi que era orgulhoso o bastante para não pedir coisa alguma ali, muito menos ser negado em um pedaço de pão. Certamente que não, e desceria agora mais tranquilo, pois vira de perto aquele espetáculo esnobe em baile dançante. Numa última olhada, senti como seria maravilhoso convidar uma daquelas mocinhas pra dançar. Se minhas pernas não o fariam, deixei que meus olhos dançassem no ritmo daquela canção que aqueles dois jovens sem modéstia, estavam com passos seguros a executar.

Quando satisfeito pisei o lance primeiro de degrau, notei que haviam deixado sobre o mesmo uma recheada carteira na cor rosa, que poderia pertencer a alguma abastada e rica senhora. Sem perder tempo subi em busca de quem a perdera, e em troca ficaria mais um pouco naquele ambiente que fui rejeitado, e onde o fausto sem se esconder era sempre notado.
A gentil dama gratificou-me em dinheiro que me assegurava alguns dias de barriga cheia. Sem que lhes pedisse, encheram-me as mãos com doces, bolos e salgados. Era tudo que eu queria.
Com o estômago sem reclamar a dor da fome, e vendo satisfeitos os meus propósitos, devagar e pensativo, caminhava rumo ao meu tosco barraco que com papelão e madeira, improvisara.

Que era aquilo? Parei encabulado. Soluçando e tiritando de frio, reconheci a silhueta de uma menina pobre, também excluída que nem eu, sentada numa calçada escura e sob uma neblina fina que começara a cair, deixando o local úmido e assustador.

Que tem você, Joana? Sei que estás com fome. Mas que outra coisa ti aflige? Ela ergueu a cabeça deixando que caíssem sobre seu rosto bonito os cabelos castanhos, onde entre os mesmos eu percebia que seus olhos não escondiam de mim, sua grande decepção.

Joana, a minha namorada, ao ver preterido seu intento de participar da grande festa, adoecera.

“NADA MAIS ME ATORMENTA, MÁRIO. VOCÊ ESTÁ COMIGO”

Sua voz parecia trêmula, mas havia firmeza no que expressara. - Trouxe pra você esses doces e tenho uma economia que nos proverá por algum tempo. - Estamos juntos novamente, Joana.

Uma delicada mão pousou sobre as minhas fazendo-lhes pressão. Cingi sua cintura com um abraço e coloquei em seus carnudos lábios vermelhos pelo frio, um beijo demorado e sincero. O seu corpo tremia de emoção, e entre soluços, confirmou que sempre fora meu, o seu coração.

“Sobre a Festa da Primavera, que tens a dizer, Mário? Que de todas as jovens ricas, vistas ainda há pouco no baile, nenhuma delas se igualava a você, Joana. Você é pura. Você é felicidade.

Com a cumplicidade do jardim colhi uma viçosa flor amarela, e depositei em seus cabelos desfeitos pela rebeldia de um enciumado, vento. - “OBRIGADA, MÁRIO,” disse-me Joana, deveras comovida.

Fitando seu rosto lindo, esculpido por hábeis mãos divinas, vi as lágrimas caindo fartas daqueles olhos que me fitavam com paixão, e gritei-lhe num longo sussurro:

......VOCÊ É A PRIMAVERA, MINHA QUERIDA JOANA.


Lençóis - Ba, 15 de abril de 1975.
Créditos- Rômulo Bispo dos Anjos.