quarta-feira, 4 de novembro de 2009

>>>>>SÚBITA ENCHENTE







....E N C H E N T E.. Créditos.Rômulo Bispo- 10/09

Saímos muito cedo, não obstante a manhã fria, com uma chuva intermitente. Nossas mochilas com víveres tinham seus volumes aumentados pela abundância das águas que caíam sobre a sinuosa e estreita estrada de pedras, via única de acesso ao Capão.
Do alto da serra, bem abaixo, lembrando-nos uma maquete, víamos as ruas e o casario de Lençóis. Éramos cinco obstinados jovens e tínhamos um ideal comum: tentaríamos fazer por baixo, sob riscos, a perigosa trilha para a Cachoeira Glass, em época chuvosa.
Numa fila indiana, seguíamos arfantes pelo caminho escorregadio, até que fiquei pra trás em função das fortes dores que fui acometido no baixo ventre. O short úmido, qual cilha apertava minha virilha, e uma sensação de estrangulamento intensificava o sofrimento naquela região sabidamente, sensível; Parei! Preocupados, me cercaram de cuidados, mas nada fizeram. Uma massagem, quem sabe, resolveria meu problema. Qual nada! Do rápido diagnóstico feito à distância, vi que continuaria com a minha dor.

Distribuí entre os amigos o que levava na mochila e sentei-me numa poça d’água gelada, convencido de que não mais os acompanharia naquela excursão. Sozinho e imóvel permaneci qual um abnegado Pinguim Imperador, ao cumprir sua tarefa de pai.
Após algum tempo de incubação e notando o inchaço diminuído, gritei a um retardatário que esperasse por mim, pois me sentia melhor e continuaria. De longe ainda podia ouvir do grupo palavras de ânimo e também de zombaria: Acabou o choco? Indagavam bem humorados os meus amigos quando de novo pude alcançá-los.
A chuva deu uma trégua e podíamos quando das paradas pra descanso, observar quão espetacular era a visão daquela área da serra, farta em verde e rica em mananciais; as cascatas despencavam surgidas das fissuras nos altos rochedos e pela junção de muitas delas, víamos alguns córregos serpenteando por entre bromélias e as roxas orquídeas.

Meus pés reclamavam a falta de um tênis adequado àquele tipo de esporte; as bolhas cresciam entre os dedos, e o seu rompimento tornaria insuportável o passeio. Mas, nada disso importava tanto quanto a chance de estarmos reunidos naquele santuário ecológico, e assim, cada um de nós contribuía para o sucesso da expedição. Ficávamos atentos aos relatos de amigos mais experientes, a exemplo de Estevão Horman e Heraldo Barbosa, entusiastas do turismo e da questão sócio-ambiental; aprendi muito com eles e fui um multiplicador das suas idéias. Movidos por objetivo comum, sonhávamos com o reconhecimento da Chapada Diamantina como um pólo turístico, e que Lençóis encantasse não apenas por ser atraente, mas, pela sua história e tradição.

Aquele cenário exuberante nos motivava a andar ainda que curvados pelo cansaço, até porque, a tarde se escondia sob um céu carregado por nuvens negras e ameaçadoras.
Escolhemos o leito quase seco de um conhecido rio não muito distante do nosso destino, A Glass, onde passaríamos a noite; descontraídos e ainda motivados, acampamos sobre a areia e seixos, e dormimos nas rochas enormes, ali abundantes. Raimundo Nonato, armado com facão e uma lanterna, faria a vigília. Depois de muitas estórias, piadas e risos, o sono camarada contagiou a todos, exceto ao vigia do primeiro turno que gritava possesso:

"Acordem! Peguem suas mochilas e saiam todos, porque isso mais parece uma tromba d’água”. Um estrondo ensurdecedor vindo de uma pequena cachoeira logo acima, não deixava dúvidas; era uma súbita enchente que trazia consigo e fazia rolar por sobre as rochas próximas do acampamento, troncos retorcidos e grandes pedras. Dessa vez dissera o que de fato vira o vigia, que antes afirmara ter avistado uma onça pintada. Seria aquela noite, palco de uma grande tragédia? A chuva caía forte e os pingos doíam em nós, como se fossem bolas de gelo.
A escuridão por vezes interrompida pelos raios mostrava um grupo alucinado em busca de seus pertences e de um lugar mais seguro fora do leito do rio enlouquecido. Parecia que não iríamos sobreviver, diante da fúria das águas turbulentas e velozes. Gritos e lamentos eram sufocados pelos trovões, e ainda assim, escutei do americano Estevão com seu parco português, um pedido ao meu corajoso mano, Augusto: “Meu mochilha, salve o meu mochilha”. À força, e arriscando a sua vida, arrebatou-a do rio.
Entre uns e outros relâmpagos vistos nos céus, vislumbramos a margem e buscamos sua segurança. Aquele aguaceiro nos fazia tiritar de frio e medo; em desespero, nos abrigamos em pequenas fendas nas rochas. Apesar do grande susto, estávamos salvos.

O dia surge afinal, e nos mostra um rio caudaloso, trazendo em suas ondas escuras o contraste das brancas espumas, como se de bravo, soubesse, dele termos escapado. Uma escalada íngreme e penosa foi determinante pra que continuássemos com o propósito de chegar até a cachoeira. Arremessamos do pico da serra em direção ao rio, na intenção clara de aliviar de nós, os excessos possíveis: Pratos, mantimentos, como arroz e feijão; sacos de dormir e até cobertores foram tragados pelo faminto, Capivari. Não mais ouvíamos o frenesi de suas tempestuosas águas, portanto, seguimos em paz.

As pedras cobertas de limo sob águas barrentas e rasas; os arbustos com seus galhos amorfos e fortes, qual manto verde, indicavam-nos, o final da trilha. Perplexo, inquiri: Com tanta beleza e fascínio, a ela podemos atribuir, a vida, ou o vil poder da morte?!

Eis que imponente e majestosa surge entre os galhos das árvores, diante de nossos olhos, jorrando de suas entranhas e saindo como se da garganta fosse, uma queda d’água do alto dos seus mais de trezentos metros de altura. Uma belíssima cachoeira! Suas águas descem suaves e bailam ao sabor do vento como tênue véu de noiva, que ao se desfazer em orvalho, retorna ao vértice, e perde-se na imensidão das serranias.

Sob os respingos desse véu de rara beleza e rendidos pela magia, adentramos e fomos batizados nas cristalinas e frias águas da Cachoeira Glass, hoje, Cachoeira da Fumaça.

Fotos ilustrativas - Fotógrafo... Zé Henrique.