Vestido Branco
O ano letivo findava, e mais uma vez estava convicto da minha aprovação também naquele último semestre. No boletim de notas, lia-se em destaque o termo "distinção", como de costume, e até por isso planejaria com antecedência as férias, mais uma que marcaria a minha adolescência. Chegara o dia, enfim!
A noite que antecedia a viagem, em especial, aquela, parecia mesmo não ter fim. O Fusca azul que ainda exalava cheirinho de carro novo, fora arrumado de véspera, e parecia incomodado não apenas pela excessiva bagagem, todavia, pelo orvalho frio e abundante em seu teto, a escorrer como lágrimas, até o chão! Da fresta, também via o dia amanhecer, e com ele, a certeza que partiríamos para Redenção.
Meu pai, um homem de prendas mil, no ofício de motorista deixava a desejar; mas era determinado. Seguíamos no Fusquinha sem sustos e sem paradas, exceto quando acometidos da ânsia de vômitos. No interior do carro, além do calor sufocante, tínhamos que inalar como se fumantes fôssemos, a maldita fumaça daquele cigarro Continental sem filtro. Meu "velho", o meu herói, não percebia até por conta da dependência ao fumo, que nos expunha a graves doenças respiratórias. A viagem transcorreu dentro do esperado, e na manhã de um sábado, dia da feira, adentramos no povoado, o berço do meu nascimento.
A rua que dividia ao meio todo o povoado, lembrava sem exageros, uma gigantesca colmeia. Em lugar das abelhas, feirantes em frenesi e aos berros, tentavam vender os seus produtos. Respeitadas as proporções, o barulho na extensa via pública, guardava em decibéis, similaridade com o característico som da torcida do Flamengo em festa, no Maracanã. A feira ao ar livre, essencialmente um lugar para negócios, cedia espaço também para encontros e acordos amorosos; e quase sempre terminavam em casamento!
O seu final acontecia à tarde, quando das praças e adjacências, recolhiam amorfas, dezenas de barracas.
Rostos conhecidos desfilavam diante do embaçado vidro, em profusão, mas nenhum deles me interessava. Mãos acenavam à nossa passagem, como se desses gestos simples quisessem nos desejar, boas-vindas; aquilo, enchia de orgulho o meu ego, entretanto, sofria por não ver entre tantos outros, o seu rosto lindo, minha querida "Taynara". Dessa vez seria diferente! Iria procurá-la, nem que fosse à porta de sua Igreja. Essa adolescente com traços da raça indígena, me encantava não apenas pela candura e ingenuidade, sobretudo, pelo desafio da conquista, já que professava diferente de mim, segmento religioso não católico!
Colégio, matérias e professores, coisas do tipo, ainda que importantes preferia nem lembrar; a propósito. Queria como sempre, e isso ocorria em todo verão, andar a cavalo na fazenda do saudoso tio Octávio; pescar piabas e tomar banho de "cuia" no tanque de tia Branca, a convite do primo Nondas; jogar uma "pelada" em dia chuvoso e lavar o meu corpo suado nas frias águas das "bicas", de cueca, e nu, às vezes!
Guiado por amigos de infância, não resistia à tentação do banho nas barrentas águas do Tanque da Nação. Aconteceu, e logo comigo... Depois do nado que em nada parecia com o sincronizado, de volta pra casa, até pelo capim em viço que feria nossos rostos, velozes, corríamos em fila indiana. Desatento, me embaracei num fio de arame farpado, reminiscência do que fora antes uma cerca. Fiquei suspenso, qual manta de carne em açougue, e do meu tórax escorria em abundância um líquido quente e viscoso...sangue! A cicatriz não mais existe no meu peito, embora tenha perdurado em definitivo, a dantesca cena de horror.
Redenção, de tantas vitórias, e muitas delas com participação efetiva de seus fundadores, Izidoro e Angelina, jamais será por nós, seus filhos, esquecida. Mesmo à distância, ainda assim, torço pra que outros filhos seus, administradores políticos te coloquem em destaque, mormente diante de suas coirmãs, cidades históricas da Chapada Diamantina. Sua ascensão ao patamar de cidade nos fez sentir, deveras, honrados.
E o menino que em férias, aprontava todas?! O que mais fizera, ele? Continuemos a falar de suas estórias... Acolhido por todos os parentes, hospedava-se sempre com as irmãs, Jandira e Valda! Já ouviram o adágio, "galo onde canta, janta"? Pois é, caro leitor, o garoto moreno, de olhos graúdos e cabelos fartos, Rominho, carinhosamente chamado, se sentia em casa. Simpático e "metido" a galanteador, às vezes se dava, bem.
De minha preferência, a Praça do Mercado, bem iluminada, não diferia das demais, exceto por um motivo - residia em uma daquelas casas, uma adolescente morena, muito especial, pra mim. Com uma plástica singular, Taynara a filha de um comerciante local, me fascinava. Garota tímida, de formação religiosa rígida, estava tão perto de mim, mas um abismo nos separava - ela, era evangélica, e eu, um iniciado católico!
Os dias, quais ponteiros de relógio Suíço, não paravam nunca, e a segunda semana das férias, findava. Precisava encontrar rapidamente, um jeito de transpor aquele incômodo, obstáculo. Minhas bucólicas manhãs eram todas preenchidas com atividades lúdicas, razão pela qual detinha corpo e mente, sã.
À noite, refém do desejo da aproximação, vagava de um lado ao outro do jardim, na expectativa de ficarmos juntos. Isso só ocorria ao término das obrigações religiosas, e sempre na companhia dos fiéis escudeiros.
A quarta semana havia chegado, e algo parecia nos dizer quão próximos estávamos da separação. Todos os amigos, apiedados, tentavam nos animar, em vão. Angustiado, tinha muita pressa, por isso ansiava que findasse o dia e surgisse a noite, mesmo sem o luar, quando poderia ver e quem sabe, até acariciar a face daquela menina de jeito dengoso, e com sorte, até poderia beijá-la; ah, quem dera, fosse factível...
Cruel destino! Ingrato destino...roubastes de mim, sem piedade, um amor adolescente que imaginava não ser correspondido. Restou-me saber, ainda bem, ter ele sobrevivido todo esse tempo, embora adormecido!
Naquela noite, ao final de mais um culto de oração, me dirigi à pracinha e notei você, mais linda ainda pelo contraste do seu "Vestido Branco", que envolvia como se fora um manto, o seu juvenil corpo, bronzeado. Me veio à lembrança a visão do seu ombro desnudo, e dele pendia sem malícia, uma parte de suas vestes; era uma manga desgarrada displicentemente, como se a propósito, para delírio meu, seu eterno admirador.
As férias, antes tão esperadas, não tinham mais de mim, o mesmo interesse e razão. A cidade perdeu toda a graça, se é que a graça dela partia, o que duvido, pois quem de fato dava vida e graça a tudo, era você! Você se foi, Taynara, de maneira sutil e definitiva. Jamais ousei criticar a escolha que fizestes, e que tantos bons frutos desse relacionamento, colhestes. São dádivas divinas os teus filhos, criados na Paz do Senhor!
O jovem entusiasta, que vivia a cantar, não mais cantou, principalmente naquela praça onde tudo começou. Como bem dissestes, "de caju em caju" eram assim as minhas visitas, e isso implicou na sua tomada de decisão. Ratifico isenção de culpa, até pela hipótese da não reciprocidade afetiva, que parecia verdadeira.
Do meu casamento, qual o seu, Taynara, também vi nascerem filhos maravilhosos, e até netos. Creio, portanto, que temos algo a mais em comum: Amor irrestrito pela família que constituímos. Deus há de preservar nosso vínculo de amizade, à semelhança do que fez no passado, com nossos estimados, Pais.
O tempo passou, é evidente, e a menina ingênua e meiga, que por timidez até "chorava às escondidas" se fez excelente Mãe de Família. Que apesar da precoce perda de um ente querido, não se deixou abater, e buscou na fé, a continuidade de um importante Projeto de Vida; criar e educar os seus filhos com dignidade.
Querida Taynara - externo incondicional admiração por você, nessas três fases de sua vida: infância, como amigos; na adolescência, até mesmo pelo envolvimento todo especial que tivemos; e, já como adulta, pela serenidade ao administrar sozinha, sua família, e ainda preservar princípios fundamentais, como: honestidade e fidelidade, dentre outros! Me obrigo a apontar o fator determinante pra muitas das decisões equivocadas...o seu inquebrantável "Princípio Religioso", que como dogma, era fundamental. E as regras? Regras são regras, e podiam ser ignoradas.
Como teria sido diferente o desfecho, se as tivéssemos violado!
Fim
Por Rômulo Bispo Em 15/11/11