FOBIAS PRECOCES - por Rômulo
Maria Luísa, essa menina serena e meiga, aos seis meses de idade se vê diante de um desafio, o primeiro, quiçá, derradeiro; colocada diante de um sapo, não o teme, e surpreendentemente o acaricia. Parecia entender que o animal ao alcance de sua mão não a incomodaria, até porque era um artefato moldado em barro cozido, apesar de sugerir em incautos curiosos, do próprio bicho, similaridade de imagem.
Decorrido algum tempo, agora com quinze meses de vida, ela não mais se aproxima do amigo com outra intenção, senão a de machucá-lo. Com o olhar fixo, dedo em riste e a sobrancelha em arco, aproxima-se cautelosa e chuta o bicho. Aquela reação sinalizava, a meu ver, o início precoce da primeira fobia. A melhor defesa é sempre o ataque.
O espaço de sua preferência, nosso jardim florido, conserva nas gramíneas, os desenhos e esculturas que também encantam o sapo, agora preterido. Cata-ventos coloridos, pinheiros com enfeites e luzes do Natal, tão belos, e nem assim fica sozinha, ali, a menina que agora teme as aranhas, e as baratas. Detesta as moscas, fustiga e pisoteia certeira, os insetos, com ênfase aos peçonhentos.
Do escuro ela não foge, e se esgueira entre os móveis sem contudo reclamar de suposto, apagão. Mas tem horror em ficar só, e logo escuto seu insistente clamor: "vovô" - "vovô". De braços erguidos e com o sorriso de volta aos lábios, se deixa erguer faceira, buscando em mim, aconchego e proteção.
Quando se iniciam e findam as fobias? Não se sabe ao certo, entretanto, nas crianças ocorre muito cedo, e salvo algumas exceções, perduram por toda a infância. Há casos, e não são raros, de adultos e até mesmo idosos que não conseguiram debelar o mal, e em decorrência disso, graves acidentes são registrados e até com óbito.
Vejamos, pois, um relato de um desses fatos, onde um veterano e habilidoso motorista sem conter o medo de baratas, deixa à deriva o automóvel que sai desgovernado da rodovia, caindo de uma altura considerável, matando-o de imediato. Outro episódio de veracidade incontestável, ocorreu com um colega do Banco do Brasil, que mesmo estando no seu posto de atendimento e com um cliente à sua frente, abandona-o, e corre alucinado, escada abaixo. A camisa rasgada por ele deixava ver seu tronco nu, e dos trapos caídos ao chão, um gafanhoto que sem nada entender, fora esmagado.
Sutil e gradativamente devemos orientar a criança portadora de fobias, a confrontar-se com a realidade. A fuga nesses casos só tende a agravar o mal. Com Maria Luísa, minha neta, tenho obtido resultados positivos, e é fato, aproximando-a das situações supostamente, de risco. Certa noite, escrevia distraído, e só percebi o terceiro dos seus chamados; levantei-me e fui ao seu encontro. Encostada na parede tinha ela nas mãos suadas, creio que em decorrência da aflição, uma pequena lagartixa, já morta.
Seus olhos não demonstravam sinal de júbilo, mas de dor e compaixão. Isso eu pude observar no semblante daquela menina peralta, que sem temor, exibia aquele animalzinho sem vida. Inclinando lateralmente a cabeça, abre os braços, e exclama a todo pulmão: Ooooohhhhhh - Ainda que expletivo, caro leitor, jamais traduziria com as frases, outro sentimento para aquela exclamação, senão o de tristeza e piedade.
Via da regra, os adultos inscientes são responsáveis por parte das fobias, irreversíveis às vezes, adquiridas pelas nossas crianças. Autores consagrados, os pais e a própria mídia, insistem na mediocridade do repasse oral das lendas urbanas e de músicas voltadas ao público infantil, com indução clara ao medo e ao terror.
Cito por exemplo - Mula sem Cabeça; Saci Pererê e outras tantas focadas no sobrenatural mundo das trevas, como: Drácula e Lobisomem. (essas, para crianças maiores), como se tamanho fosse posto! As músicas que persistem ao tempo, remetem à lembrança do mal imediato: Atirei o Pau no Gato; Cai-Cai Balão; Pai Francisco (foi pra prisão), obras que despertam nelas - ódio, vingança e frustração.
Fim - 11/11/11
Crônica dedicada às crianças, especialmente pra Maria Luísa que reacendeu em mim, seu vovô predileto, o hábito saudável da leitura e da escrita.
Minha amizade por você é tão forte quanto o aço, e tão resistente quanto o mais puro dos diamantes. JAMAIS se DESGASTARÁ com o tempo, e é inversamente proporcional às suas fobias que apenas permanecerão vivas, em suas lembranças.
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