Em um dia oito, diferente do oito de hoje, mas, igual a tantos oito de dezembro, me permito lembrar - cercado por crianças, ávidas pra degustar de sua esposa Angelina, as iguarias do almoço anual, meu Pai Izidoro cumpria mais uma vez sua promessa feita à Imaculada Conceição, pelas graças alcançadas.
Consagrado, esse dia enaltece e representa a família, célula máter da identidade de seus membros: pai, mãe e filhos, estilo que assegurava ensinamentos necessários à formação de probos cidadãos. Se manteve desde o Brasil Colonial, mas registra-se alterações significativas no Conceito de Família ao longo do tempo.
Autodidata, ele ministrava aulas como se fosse um mestre, e conseguia apesar das limitações, transformar o ambiente em que vivia. Transferia com simplicidade seus conhecimentos, legado exclusivo de poucos, em benefício dos conterrâneos, os moradores "Das Matas" que em breve seria Povoado, e a seguir, Redenção.
Afeito ao exercício da agricultura familiar, dormia cedo e acordava mais cedo ainda, tentando fugir do calor do sol de verão, e seguia determinado a cuidar do seu plantio de subsistência: mandioca, milho e feijão.
Na terra prometida, havia poucos moradores, e todos eram agricultores. À noite, cansados de tanto carpir se agrupavam os amigos num barracão, onde definiam ações para o dia seguinte. Depois de muita prosa e discussão, ébrios, erguem um brinde, o último, e retornam pra casa cambaleantes, imersos na escuridão.
Paciente, mas com a energia peculiar da mulher cabocla, minha mãe acolhe o marido, embriagado, alimenta-o e o induz ao sono reparador. No dia seguinte, à semelhança do ocorrido na noite anterior, a cena se repete, e o homem trabalhador, envergonhado tenta se explicar, em vão, pois nem podia se expressar.
Sem ser brotada da minha fértil imaginação, por ouvi dizer, relato e me desculpo se maculo a sua imagem, Pai querido, um fato que culminou na sua abstinência etílica, irreversível. Aquele que te obrigou a refletir... Passava da meia noite, e levavas do Barracão às costas, provisões para a semana. Qual marujo em terra firme, seu andar nem tão firme denunciava a embriaguez, e sob chuva forte, parou à beira do Rio Parauaçu.
Seu olhar vago, deixava crer que desmaiaria, mas resistiu o quanto pode, e mesmo alcoolizado achou a trilha de pedras submersas, que o levaria em segurança para o outro lado do rio. Parecia ouvir da esposa, ou da filha adolescente, gritos angustiados pedindo que voltasse, mas ele teria que continuar, e pôs o saco com os víveres sobre a cabeça, e caminhou sobre as pedras, confiante. Lograria êxito, o seu intento?
Não muito distante dali, na tosca casa de taipa, ansiavam, mãe e filha. Devotas fervorosas da Santa do dia, oravam por um retorno com saúde do companheiro amado, vítima da bebida; um alcoólatra em potencial... Seguia na trilha, cauteloso, mas não chegaria à outra margem, pois o tronco trazido pela correnteza, atinge em cheio suas pernas, e faz dele, um náufrago. À mercê das ondas, vê com pesar o saco com as compras, afundar, e num lampejo de lucidez, pede clemência. Em instantes, passa em sua mente o filme da sua vida! Imaginando-se diante da Santa de sua devoção, suplica: Imaculada Senhora da Conceição! Rogo-te seja a mim permitido a abstinência do álcool, e me livre de outros vícios, que coloque a minha e a vida dos meus familiares em risco. Que me seja concedida essa graça, oh, Mãe piedosa, e em troca prometo alimentar sete crianças pobres, e seus acompanhantes, a cada dia oito de dezembro, enquanto vida eu tiver!
Hoje, 08 de Dezembro de 2011, sem promessas e sem as típicas comidas caseira, nada comemoramos em família, senão o momento religioso, e de fé. Das iguarias à base de milho, quase nada se vê, nem mesmo a galinha caipira e o macarrão, dupla que marcava presença no variado cardápio dos banquetes!
Aceitos, também no povoado distante, terra que escolheram pra empreender, os meus pais fizeram por merecer de seus habitantes, sem exceção, o gozo do respeito e da admiração, plena! Homenageado, teve o nome Izidoro Bispo, emprestado para uma Escola, e também pra uma Via Pública no centro da cidade. Construiu a sua e tantas outras casas ali, a primeira, inclusive, num claro sinal que antevia a transformação daquelas terras boas, "As Matas", numa próspera e acolhedora cidade - a Nova Redenção.
Desejoso de conhecer outras paragens, fez algumas alternâncias de residência: em Ubiraitá, ainda no mesmo município, também construiu uma excelente casa, e ali passou uma boa parte de sua vida.
Na premissa de que os filhos, já em bom número, precisavam de boas escolas, ele parte, e dessa vez escolhe Lençóis, na Chapada Diamantina. Com características próprias, essa cidade oferecia além dos estudos, uma fonte inesgotável de lazer. Cercada por serras e com água em abundância, agradou a todos.
Mas...e o almoço do dia 08 de dezembro, sofreu perda de continuidade, ou não foi mais citado, a propósito? Sim, até pra não faltar com a verdade, posto que em citações anteriores, o fiz pelo bom uso do "ouvi dizer". Como poderia não mencionar de importância igual, a participação voluntária das mulheres da família, que davam graça e descontração ao evento, já em Lençóis, e por muito mais tempo, em Parnaíba.
Por quantas vezes tiveram elas, as crianças, de também nas esteiras se acomodarem, em virtude da escassez de cadeiras e mesas, já repletas de adolescentes, pais e convidados. Uma poltrona, entretanto, tinha lugar reservado...sentado, tinha seu prato à mão, e sorria feliz, o meu querido pai, o eterno, anfitrião!
Ainda que falte na mesa, alimentos como os do seu tradicional almoço de 08 de Dezembro, me sacio dos exemplos de fé, qual inquebrantável promessa sua, feita à Imaculada e piedosa, N. Senhora da conceição.
Homenagem (in memorian) aos meus pais, Izidoro e Angelina. (08/12/2011) Fim > por Rômulo
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