Meus Irmãos: F O X e W I L L Y
Um dia cheguei de mansinho, apenas como uma visita, e me vi nos braços daquelas pessoas alegres, que me acariciando não disfarçavam seus encantos por mim. Sabia não ser um cão especial, pois não tinha pedigree, aliás, nem disso eu entendia, mas ainda recordava da frase dita sem cerimônias: “Cão que se preza tem que ter pedigree”, dizia uma vizinha a um canto. De pelos marrons e curtos, olhos negros e muito vivos, eu havia nascido ali mesmo, na Rua Vai-Quem-Quer. Minha saudosa mãe Chiquinha, uma cadela gorda e de pequeno porte, foi por muito tempo a dona do pedaço e encantava todos os cães da redondeza. A propósito, meu falecido Pai, apelidado de Governo, cedeu aos encantos dela e a fez sua nova companheira; os outros cães tiveram que admirá-la somente à distância, pois o meu Velho era muito valente. Não fui enviado de volta ao meu antigo lar; não por enquanto. Meu futuro patrão ainda ressabiado pela perda do seu último cãozinho, até então não me conhecia, e nem eu a ele.
Por uma longa semana fiquei no quartinho dos fundos, e não me faltava nada. Água fresca, comidinha caseira, e até um ventilador colocaram lá pra atenuar o calor daquela estação. De tão pequenino nem sabia latir ainda, mas, por vezes emitia grunhidos; isso não ia dar certo! Retrocedamos à história de Pluto, o pequinês que chegou e ficou por longos catorze anos junto aos seus donos e que fez sua passagem de maneira natural, embora sentida por todos. Cheio de mágoas, meu futuro dono achou por bem e assim decidiu: Não teremos mais um cão em nossa casa, até porque a saudade é muito grande quando eles se vão, e nos deixam tristes.
Era uma sexta-feira, fim de semana chegando, e de repente a porta se abre e entra um senhor simpático, e no seu rosto o cansaço de uma semana de muito trabalho, pedia por descanso. Fui retirado às pressas e de novo lá estava, no meu cantinho, quieto como se adivinhasse o que de fato estava acontecendo. Aquele leite fresquinho ainda quase todo na mamadeira foi retirado de mim, e só me restava protestar. Como dizem os humanos: “Quem não chora não mama”, fiz um estardalhaço. Notando algo estranho, aquele cara sem camisa e desconfiado, passou pelos fundos da casa e deu o flagrante. “Eu estava prevendo isso; de quem é o Cão”? Como se entendesse, calei-me e esperei o pior. Sem estar irado, acariciou-me e me aceitou!
Não por falta de conhecimento da língua inglesa, mas batizaram-me como White em detrimento de Brown, como de fato é minha pelagem, de um marrom escuro e muito brilhante. Por quase seis anos me vi sozinho naquele casarão, e toda atenção voltada pra mim. Gozava de muita saúde, mas nunca me deixaram arranjar uma namorada. Tive muitos sonhos desfeitos, pensava eu encabulado, até que um cachorrinho branco e peludo veio me visitar. Era Willy, que entrara por entre as grades do jardim e ganhou a amizade de todos; mas eu o via com reservas. Será que viera pra ficar? Não deu outra, pessoal! Tornamo-nos amigos, mas ainda não realizara meu propósito. Ah! Seria tão bom ter uma cadelinha, meus filhos, e pudéssemos juntos, envelhecer!
Sinto faltar-me as forças, e não mais desejo o que pra muitos cães era tão normal; havia nascido pra ser criado, mas não como um cão qualquer. Se vivo estivesse, Governo, meu pai, por certo haveria de dar uma mãozinha. Sim, metido em cachorrada, logo saberia fazer-me um iniciado.
Sinto faltar-me as forças, e não mais desejo o que pra muitos cães era tão normal; havia nascido pra ser criado, mas não como um cão qualquer. Se vivo estivesse, Governo, meu pai, por certo haveria de dar uma mãozinha. Sim, metido em cachorrada, logo saberia fazer-me um iniciado.
Não! Aquilo não era verdade. Vindo da Capital da Bahia, Spock, aquele yorkshire micro foi bem recepcionado e se fez mais um entre nós. Elegante, de pelos compridos e fulvos, causava inveja.
Por quase um ano se fez querido também pelas pessoas, e de sua esperteza foi crucificado. Rápido e veloz, sempre se adiantava e com ares de campeão, nos deixava angustiados. Foi vítima de sua peraltice quando em uma noite, no jardim, comeu algo com veneno e morreu. Minha vidinha de primogênito ainda alvo de atenção, de novo sofre uma recaída quando surge na família um vira-lata, Fox, cãozinho mestiço, de visível semelhança com uma pequena raposa.
Por quase um ano se fez querido também pelas pessoas, e de sua esperteza foi crucificado. Rápido e veloz, sempre se adiantava e com ares de campeão, nos deixava angustiados. Foi vítima de sua peraltice quando em uma noite, no jardim, comeu algo com veneno e morreu. Minha vidinha de primogênito ainda alvo de atenção, de novo sofre uma recaída quando surge na família um vira-lata, Fox, cãozinho mestiço, de visível semelhança com uma pequena raposa.
Quase cego, ouvindo muito pouco e com passos inseguros, estou sempre perseguido pelos dois, Willy e Fox como se soubessem restar-me pouco tempo de vida; já não ando com elegância e minha cabeça pende sobre minhas patas trôpegas; há muito não brincamos juntos. A certeza de não tê-los mais como os meus filhos, já que não pude ter em verdade os meus, foi muito triste e dolorida. Por vezes sou atacado por ambos, e socorrido pelas pessoas, resta-me lamber as feridas que mal posso enxergar. Com dezoito anos de idade, recordista em longevidade canina, perdoo meus amiguinhos; por certo hão de envelhecer e mesmo que não mais exista, sei que farão felizes todos que se doaram tanto por nós três, sem distinção. Quantas vezes, também à noite, corríamos a perseguir gatos famintos no nosso escuro quintal, cheio de obstáculos. Hoje necessito da guia e sou conduzido pelas mãos cuidadosas de todos, quando das minhas idas pra fazer minhas necessidades, decorrente de minha pouca saúde.
Às vezes fico na área da nossa casa, fixo o olhar embaçado nas luzes brilhantes da cidade, agora opacas, e penso: Ainda sou muito feliz por estar vivo. Meu coração já não bate tão forte, meus pulmões não me deixam respirar como antes, mas quero continuar a viver. Nas noites insones quando sufocado fico a tossir, não demora e a ajuda chega dos meus fiéis escudeiros. Minha vidinha começa a esvair e isso faz doer o coração daqueles que tentam aliviar a minha tormenta, em vão. Se pudesse diria num latido bem alto, se me fosse possível reencarnar um dia, inda que pra viver por pouco tempo: “Conceda-me a bênção de voltar, mas se for para a mesma família”.
Faço ver aos amigos, Willy, Fox e até Spock que chegou e se foi qual um “cometa”, que apesar dos entreveros, deles não guardo mágoas, pois fomos bons irmãos. Ainda que me fosse concedido falar não diria nomes, até porque, de mim, eram todos donos! O instinto me diz estar próximo o momento da grande despedida. Rogarei por uma graça, talvez a última, antes que os meus olhos se fechem num sono calmo e profundo:
"Que meu suspiro derradeiro seja junto daqueles que amo, e as mãos que tanto me acariciavam, se unam e orem por mim”.
“Sinto-me adormecer, mas ainda consigo vê-los. Adeus, meus queridos e fiéis companheiros”.
.............................W H I T E ............
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Créditos – Rômulo Bispo
Lençóis – 08.10.2009
Lençóis – 08.10.2009