

....E N C H E N T E.. Créditos.Rômulo Bispo- 10/09
Saímos muito cedo, não obstante a manhã fria, com uma chuva intermitente. Nossas mochilas com víveres tinham seus volumes aumentados pela abundância das águas que caíam sobre a sinuosa e estreita estrada de pedras, via única de acesso ao Capão.
Do alto da serra, bem abaixo, lembrando-nos uma maquete, víamos as ruas e o casario de Lençóis. Éramos cinco obstinados jovens e tínhamos um ideal comum: tentaríamos fazer por baixo, sob riscos, a perigosa trilha para a Cachoeira Glass, em época chuvosa.
Saímos muito cedo, não obstante a manhã fria, com uma chuva intermitente. Nossas mochilas com víveres tinham seus volumes aumentados pela abundância das águas que caíam sobre a sinuosa e estreita estrada de pedras, via única de acesso ao Capão.
Do alto da serra, bem abaixo, lembrando-nos uma maquete, víamos as ruas e o casario de Lençóis. Éramos cinco obstinados jovens e tínhamos um ideal comum: tentaríamos fazer por baixo, sob riscos, a perigosa trilha para a Cachoeira Glass, em época chuvosa.
Numa fila indiana, seguíamos arfantes pelo caminho escorregadio, até que fiquei pra trás em função das fortes dores que fui acometido no baixo ventre. O short úmido, qual cilha apertava minha virilha, e uma sensação de estrangulamento intensificava o sofrimento naquela região sabidamente, sensível; Parei! Preocupados, me cercaram de cuidados, mas nada fizeram. Uma massagem, quem sabe, resolveria meu problema. Qual nada! Do rápido diagnóstico feito à distância, vi que continuaria com a minha dor.
Distribuí entre os amigos o que levava na mochila e sentei-me numa poça d’água gelada, convencido de que não mais os acompanharia naquela excursão. Sozinho e imóvel permaneci qual um abnegado Pinguim Imperador, ao cumprir sua tarefa de pai.
Após algum tempo de incubação e notando o inchaço diminuído, gritei a um retardatário que esperasse por mim, pois me sentia melhor e continuaria. De longe ainda podia ouvir do grupo palavras de ânimo e também de zombaria: Acabou o choco? Indagavam bem humorados os meus amigos quando de novo pude alcançá-los.
Após algum tempo de incubação e notando o inchaço diminuído, gritei a um retardatário que esperasse por mim, pois me sentia melhor e continuaria. De longe ainda podia ouvir do grupo palavras de ânimo e também de zombaria: Acabou o choco? Indagavam bem humorados os meus amigos quando de novo pude alcançá-los.
A chuva deu uma trégua e podíamos quando das paradas pra descanso, observar quão espetacular era a visão daquela área da serra, farta em verde e rica em mananciais; as cascatas despencavam surgidas das fissuras nos altos rochedos e pela junção de muitas delas, víamos alguns córregos serpenteando por entre bromélias e as roxas orquídeas.
Meus pés reclamavam a falta de um tênis adequado àquele tipo de esporte; as bolhas cresciam entre os dedos, e o seu rompimento tornaria insuportável o passeio. Mas, nada disso importava tanto quanto a chance de estarmos reunidos naquele santuário ecológico, e assim, cada um de nós contribuía para o sucesso da expedição. Ficávamos atentos aos relatos de amigos mais experientes, a exemplo de Estevão Horman e Heraldo Barbosa, entusiastas do turismo e da questão sócio-ambiental; aprendi muito com eles e fui um multiplicador das suas idéias. Movidos por objetivo comum, sonhávamos com o reconhecimento da Chapada Diamantina como um pólo turístico, e que Lençóis encantasse não apenas por ser atraente, mas, pela sua história e tradição.
Aquele cenário exuberante nos motivava a andar ainda que curvados pelo cansaço, até porque, a tarde se escondia sob um céu carregado por nuvens negras e ameaçadoras.
Escolhemos o leito quase seco de um conhecido rio não muito distante do nosso destino, A Glass, onde passaríamos a noite; descontraídos e ainda motivados, acampamos sobre a areia e seixos, e dormimos nas rochas enormes, ali abundantes. Raimundo Nonato, armado com facão e uma lanterna, faria a vigília. Depois de muitas estórias, piadas e risos, o sono camarada contagiou a todos, exceto ao vigia do primeiro turno que gritava possesso:
Escolhemos o leito quase seco de um conhecido rio não muito distante do nosso destino, A Glass, onde passaríamos a noite; descontraídos e ainda motivados, acampamos sobre a areia e seixos, e dormimos nas rochas enormes, ali abundantes. Raimundo Nonato, armado com facão e uma lanterna, faria a vigília. Depois de muitas estórias, piadas e risos, o sono camarada contagiou a todos, exceto ao vigia do primeiro turno que gritava possesso:
"Acordem! Peguem suas mochilas e saiam todos, porque isso mais parece uma tromba d’água”. Um estrondo ensurdecedor vindo de uma pequena cachoeira logo acima, não deixava dúvidas; era uma súbita enchente que trazia consigo e fazia rolar por sobre as rochas próximas do acampamento, troncos retorcidos e grandes pedras. Dessa vez dissera o que de fato vira o vigia, que antes afirmara ter avistado uma onça pintada. Seria aquela noite, palco de uma grande tragédia? A chuva caía forte e os pingos doíam em nós, como se fossem bolas de gelo.
A escuridão por vezes interrompida pelos raios mostrava um grupo alucinado em busca de seus pertences e de um lugar mais seguro fora do leito do rio enlouquecido. Parecia que não iríamos sobreviver, diante da fúria das águas turbulentas e velozes. Gritos e lamentos eram sufocados pelos trovões, e ainda assim, escutei do americano Estevão com seu parco português, um pedido ao meu corajoso mano, Augusto: “Meu mochilha, salve o meu mochilha”. À força, e arriscando a sua vida, arrebatou-a do rio.
A escuridão por vezes interrompida pelos raios mostrava um grupo alucinado em busca de seus pertences e de um lugar mais seguro fora do leito do rio enlouquecido. Parecia que não iríamos sobreviver, diante da fúria das águas turbulentas e velozes. Gritos e lamentos eram sufocados pelos trovões, e ainda assim, escutei do americano Estevão com seu parco português, um pedido ao meu corajoso mano, Augusto: “Meu mochilha, salve o meu mochilha”. À força, e arriscando a sua vida, arrebatou-a do rio.
Entre uns e outros relâmpagos vistos nos céus, vislumbramos a margem e buscamos sua segurança. Aquele aguaceiro nos fazia tiritar de frio e medo; em desespero, nos abrigamos em pequenas fendas nas rochas. Apesar do grande susto, estávamos salvos.
O dia surge afinal, e nos mostra um rio caudaloso, trazendo em suas ondas escuras o contraste das brancas espumas, como se de bravo, soubesse, dele termos escapado. Uma escalada íngreme e penosa foi determinante pra que continuássemos com o propósito de chegar até a cachoeira. Arremessamos do pico da serra em direção ao rio, na intenção clara de aliviar de nós, os excessos possíveis: Pratos, mantimentos, como arroz e feijão; sacos de dormir e até cobertores foram tragados pelo faminto, Capivari. Não mais ouvíamos o frenesi de suas tempestuosas águas, portanto, seguimos em paz.
As pedras cobertas de limo sob águas barrentas e rasas; os arbustos com seus galhos amorfos e fortes, qual manto verde, indicavam-nos, o final da trilha. Perplexo, inquiri: Com tanta beleza e fascínio, a ela podemos atribuir, a vida, ou o vil poder da morte?!
Eis que imponente e majestosa surge entre os galhos das árvores, diante de nossos olhos, jorrando de suas entranhas e saindo como se da garganta fosse, uma queda d’água do alto dos seus mais de trezentos metros de altura. Uma belíssima cachoeira! Suas águas descem suaves e bailam ao sabor do vento como tênue véu de noiva, que ao se desfazer em orvalho, retorna ao vértice, e perde-se na imensidão das serranias.
Sob os respingos desse véu de rara beleza e rendidos pela magia, adentramos e fomos batizados nas cristalinas e frias águas da Cachoeira Glass, hoje, Cachoeira da Fumaça.
Fotos ilustrativas - Fotógrafo... Zé Henrique.
Pai, esse texto retrata de forma forte e emocionante a surpresa e o encantamento dos primeiros grupos que estiveram na Cachoeira da Fumaça, hoje, um dos atrativos mais importantes e visitados na Chapada Diamantina. Vocês fizeram a diferença e colocaram seus nomes na história de sucesso não só da nossa linda Lençóis, mas de toda a região. Parabéns a esse grupo de aventureiros e heróis... Essa trilha está imortalizada!!!
ResponderExcluirQue maravilha de relato, mano... Me lembro perfeitamente dessa excursão e da inveja que fiquei por não ter participado... risos.
ResponderExcluirMeu amigo que aventura sei que isso tem uns 30 anos, pois Heraldo sempre falou dessa aventura de vcs, fico feliz por vcs simples aventureis da epoca fazer parte da divulgação de uma das mais belas cachoeira do mundo e dessa forma mostra as algumas maravilhas da nossa Chapada.
ResponderExcluirabraços
kikiu