terça-feira, 26 de janeiro de 2010

..................JOÃO MONTEIRO


............O Amigo da Onça - Seresteiro.

A lua cheia fazia daquela quente noite de verão, um bom motivo para um passeio pelas ruas estreitas e desertas naquela cidadezinha de interior, minha pacata, Lençóis. As pessoas presentes no Cine e Teatro Rex, à “Rua de Isaías”, agora refesteladas nos bancos do jardim, se refrescavam, degustando sucos e sorvetes da pura fruta abundante na região, a mangaba.

Alguns amigos seresteiros, inspirados pelo silêncio que também se fez perceber naquela rua, tiveram a idéia de cantar tentando encantar as mocinhas com suas melodias românticas. O calor retido pelas pedras durante o ensolarado dia teimava em não deixar em paz aquelas pessoas que sonolentas tentavam conciliar o sono reparador. Mas, iniciada a serenata, as janelas aos poucos se abriam e rostos apareciam furtivos entre frestas, na ânsia de melhor ouvir os acordes do violão e a inconfundível voz do seresteiro, “O amigo da Onça”, como carinhosamente sempre foi conhecido.

Nada se ouvia além dos passos e murmúrios daqueles jovens que transmitiam paz, ainda que quebrassem o silêncio da madrugada. Vez por outra, encobertos pelas sombras da noite um se desgarrava do grupo e saía em busca do prazer fácil, e isso não era difícil, mas nem sempre seguro. Por apenas alguns trocados, a noite quente se transformava num verdadeiro inferno. O vestígio de batom vermelho deixado na roupa do visitante, não o incomodava tanto quanto o perfume barato e de forte cheiro, inalado no cubículo da disputada, companheira. Depois, sonolento, dava lugar a outro aventureiro, mais um provável desertor do grupo de seresteiros.

Aturava-se durante a cantoria algumas brincadeiras, desde que não se quebrasse o acordo em jamais perturbar o sono dos nativos e dos escassos turistas, sob pena de exclusão da serenata. Em dado momento, quando se perguntavam quem seria o próximo a exibir-se, sabendo que não seria o escolhido, pois cantara ainda há pouco, o “Amigo da Onça”, jovem travesso e astuto, sai pra executar contra alguém, um ousado plano. Silencioso, qual bicho de hábito noturno escolhe a presa; dessa vez, a casa dos pais de um de seus amigos presente no grupo.

Empurrando a porta viu-se frente a frente com um senhor sentado em um sofá, e em outra cadeira estava sua esposa que lhe fazia companhia naquela noite insone. O que queria nosso Amigo da Onça? Levaria por brincadeira, claro, alguma peça existente na sala, uma jarra talvez, e depois a exibiria frente aos amigos com ares de vitorioso, e diria com certeza: “Nem foi tão difícil, pois nem chave havia na rústica, porta da casa”. Na boca, um riso debochado.

Voltemos, pois, ao instante da invasão ou quase isso, quando o ancião se dirigiu ao intruso, sem demonstrar surpresa, quiçá, um breve susto. “Boa noite, João. Se procuras por meu filho, aquele que gosta de tocar violão, disse-me que estaria com você em uma serenata”. Elevando o tom da voz, ergue-se da poltrona e de chofre, pergunta-lhe: O que você queria, de fato? O Amigo que mais parecia no momento um urso acuado, visivelmente embaraçado, responde sem pensar muito: “Desculpe-me senhor, ele está conosco, sim”. “Por favor, tenho sede, poderia oferecer-me um pouco de água”? Ora, depois de tanto Rum Bacardi, iria ingerir, água?

Nativos ou não, todos entendiam que por sua astúcia, cabia-lhe também ser chamado de “Amigo Raposo”. Entretanto, o codinome “Amigo da Onça” assentava-lhe melhor, posto que quase nunca outras vítimas fossem alvos das suas brincadeiras, às vezes com requinte de perversidade, senão os seus próprios amigos. Imaginem! Ele não possuía inimigos. Ainda bem!

Convicto de que não incorria em riscos, aquele senhor grisalho atendeu prontamente o seu pedido. Uma jarra com bastante água foi trazida e lhe serviram: Um copo, dois copos e não aguentava mais beber tanto líquido, ainda assim, aceitou a contra gosto tomar o último, que deixou escorrer pela barba de escassos fios negros, indo molhar seu abdome, já bem volumoso.

Saiu vomitando e tossindo, reconhecendo-se perdedor. Viu seu plano fracassar diante daquele gentil casal, os pais de Rômulo, um de seus melhores amigos, que além da guitarra, apreciava um afinado violão quando em companhia dos amigos, nas noites de serenatas.

Contrastando com sua impecável aparência de Pai de Santo, pois costumava usar roupa branca e limpa, retornava pra finalizar a seresta, agora todo sujo, mas ainda feliz, o brincalhão, o cara que apesar do seu codinome, gozava da amizade e confiança de toda a população!

.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*.*

Aos meus pais, Izidoro Bispo e Angelina Rosa, (In memórian), aos amigos seresteiros,
João Monteiro dos Santos - o “Amigo da Onça” - Pinguim, Raimundo Barros, Wood Haj, Carlos Otoni, Zé Antônio e Alvinho, (da família Senna) (in memórian).

Lençóis – Bahia, 22 de dezembro de 2007.
Autor – Rômulo B. dos Anjos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário