...............................P E R I – Bateia
Todo lugar onde o homem se instala, levado por necessidades, é obrigado a fazer algo pela sua sobrevivência, que, aliás, é uma lei natural que atinge todo e qualquer ser vivo. Inspirei-me em um personagem fictício que se assemelhar com qualquer pessoa, é uma coincidência como também o são espaço e tempo vivido por ele neste conto. (Quem sabe, poderiam ser garimpeiros de serra, que tanto víamos na Chapada Diamantina).
Eis que em meado de 1925, um forte jovem de pele curtida pelo sol, sentiu que devia procurar um emprego. Mas que emprego? Ficara órfão aos doze anos e aos vinte e dois, não aprendera outra arte senão revolver pedras e barrancos a procura de diamantes!
No povoado de Caldeirões, vivia o solitário Peri Bateia, assim chamado por carregar o cascalho extraído da corredeira até o local onde seria guardado para lavagem posterior.
Graças a este tipo de serviço, Peri foi desenvolvendo seu forte físico e também as suas habilidades no manejo da bateia ao ralar o cascalho bruto.
Aos dezoito anos Bateia tentou abandonar a vida do garimpo e trabalhar como ajudante no único barracão do povoado que pertencia ao Sr. Severino.
Aos domingos, a pracinha se enchia de meias-praças (garimpeiro fornecido por patrão,) pra no barracão, fazerem suas bocas-de-saco, (provisão de alimentos), que devia passar até o sábado, quando desciam de novo a serra, uns risonhos, outros tristes, mas no fundo ainda persistentes. O sonho do Bambúrrio não lhes saía das cabeças.
Naquele emprego Peri ganhava o seu sustento, contudo o achava um tanto monótono. Estaria Bateia, encaixado num trabalho a altura do seu espírito irrequieto e aventureiro?
Retrocedamos ao menino Peri que chegara a Caldeirões com onze anos e acompanhado de seus pais: Zé Silva e sua companheira, Dona Benta, ambos já acostumados à vida do garimpo. Imbuídos pelo desejo de uma vida melhor, enfrentaram as intempéries da mãe natureza, deslocando-se por estreitos canais, e desafiando as correntezas dos rios. Zé Silva com sua família chegou ao já abarrotado de garimpeiros, povoado de Caldeirões, encravado entre serras ricas em diamantes e carbonatos.
Ao ser informado que Antônio Brejos possuía alguns garimpos, Zé foi à sua residência solicitar um emprego. Aquele homem rude ao lhe contratar, retrucou:
Todo lugar onde o homem se instala, levado por necessidades, é obrigado a fazer algo pela sua sobrevivência, que, aliás, é uma lei natural que atinge todo e qualquer ser vivo. Inspirei-me em um personagem fictício que se assemelhar com qualquer pessoa, é uma coincidência como também o são espaço e tempo vivido por ele neste conto. (Quem sabe, poderiam ser garimpeiros de serra, que tanto víamos na Chapada Diamantina).
Eis que em meado de 1925, um forte jovem de pele curtida pelo sol, sentiu que devia procurar um emprego. Mas que emprego? Ficara órfão aos doze anos e aos vinte e dois, não aprendera outra arte senão revolver pedras e barrancos a procura de diamantes!
No povoado de Caldeirões, vivia o solitário Peri Bateia, assim chamado por carregar o cascalho extraído da corredeira até o local onde seria guardado para lavagem posterior.
Graças a este tipo de serviço, Peri foi desenvolvendo seu forte físico e também as suas habilidades no manejo da bateia ao ralar o cascalho bruto.
Aos dezoito anos Bateia tentou abandonar a vida do garimpo e trabalhar como ajudante no único barracão do povoado que pertencia ao Sr. Severino.
Aos domingos, a pracinha se enchia de meias-praças (garimpeiro fornecido por patrão,) pra no barracão, fazerem suas bocas-de-saco, (provisão de alimentos), que devia passar até o sábado, quando desciam de novo a serra, uns risonhos, outros tristes, mas no fundo ainda persistentes. O sonho do Bambúrrio não lhes saía das cabeças.
Naquele emprego Peri ganhava o seu sustento, contudo o achava um tanto monótono. Estaria Bateia, encaixado num trabalho a altura do seu espírito irrequieto e aventureiro?
Retrocedamos ao menino Peri que chegara a Caldeirões com onze anos e acompanhado de seus pais: Zé Silva e sua companheira, Dona Benta, ambos já acostumados à vida do garimpo. Imbuídos pelo desejo de uma vida melhor, enfrentaram as intempéries da mãe natureza, deslocando-se por estreitos canais, e desafiando as correntezas dos rios. Zé Silva com sua família chegou ao já abarrotado de garimpeiros, povoado de Caldeirões, encravado entre serras ricas em diamantes e carbonatos.
Ao ser informado que Antônio Brejos possuía alguns garimpos, Zé foi à sua residência solicitar um emprego. Aquele homem rude ao lhe contratar, retrucou:
“Se num tróxer quarquer coisa, mermo um xibiu, não ti furneço mais, home. Escói bem o lugar pru que diamante, num farta, Zé.”
Logo que acertou o trabalho, ele foi para a serra. No garimpo, Dona Benta, Zé Silva e o filho Peri, derrubavam pedras, descobriam o cascalho, passavam-no pelo processo de lavagem e sempre no sábado apuravam alguns bons diamantes. Também no sábado a família descia para o povoado, muito alegre. Peri badocava passarinhos, cantava, e às vezes adiantava-se no caminho e escondido entre as moitas, assustava aos pais.
Depois de quase um ano de garimpagem, a situação financeira da família melhorou substancialmente. Zé adquiriu uma casinha no povoado onde passava a festa de São Sebastião, que era o padroeiro local. Tudo parecia correr bem com a feliz família Silva.
Era uma manhã de sol quente quando Peri saiu em perseguição a uma "rolinha" que se escondia nas folhagens, frustrando o esperto caçador. Distraído, distanciou-se bastante.
Enquanto isso Dona Benta cozinhava o feijão para o almoço e lavava suas roupas em um regato perto do garimpo onde já se encontrava Zé Silva a trabalhar.
Acidentalmente, escapou das mãos dela um pedaço de sabão. Então ela se pôs a correr seguindo o mesmo curso do regato pra recuperá-lo. Pega aqui, ali, acolá, acabou desaparecendo sabão e regato sob uma rocha inclinada. Zé Silva foi ver o que acontecia. De repente, disse pra ela: ”Minha Véia, isso é uma gruna. Rumbora percurá uma entrada.” Ao que D. Benta acrescentou: “Pois sim, Véi”. “Vai ver que tem muito diamante nesse cascai virge”.
Enfim, Peri consegue abater o passarinho, mas seria difícil encontrá-lo, pois caíra num mato fechado. O garoto fica aborrecido porque o petisco estava a lhe escapar das mãos.
Enfim, Peri consegue abater o passarinho, mas seria difícil encontrá-lo, pois caíra num mato fechado. O garoto fica aborrecido porque o petisco estava a lhe escapar das mãos.
Lá no garimpo, iam os dois rodeando a rocha até que encontraram um orifício de onde saíam horripilantes morcegos pretos. Zé falou: “Vamu entrá minha Véia”. Mas, onde supunham ser o acesso ao interior da gruta, havia um amontoado de pedras sobrepostas umas às outras, impedindo a entrada. Assim que o casal conseguiu adentrar, Zé pisou numa pedra saliente que milagrosamente mantinha o equilíbrio sobre todas as outras. Isso fez com que desencadeasse uma avalanche e ela vedou a passagem de tal maneira que jamais conseguiriam sair com vida, a não ser que fossem as pedras tiradas pelo lado de fora e sem muita demora, pra que ambos não corressem risco de morte.
“E Peri, ondé qui tá? Gritou D. Benta. “Tá lá fora Véia” “Pelo meno nosso fio tá sarvo”.
Contrastando com aquela cena terrível, estava Peri já a caminho do rancho, depois de ter encontrado a pomba rolinha. O rancho estava vazio e o garimpo também. Onde estão os meus pais? Pensava o menino que sentado em um banco que servia de guarda-comida, ficou a refletir. Abandonando sua caça, deixou a imaginação tomar conta de sua mente.
Dentro da gruna o ar a cada minuto ficava mais raro. A escuridão aumentava o pavor que já se apoderava do casal vitimado pelo destino cruel. Alguns morcegos pequenos que voavam há pouco, agora esvoaçavam frenéticos soltando guinchos e parecendo a enormes vampiros. A vida parecia ter parado dentro da gruna e a luz deu lugar às trevas.
Arquejantes, os dois gemiam, choravam e lastimavam da má sorte. Movida pela fé que sempre tivera D. Benta ajoelhou-se e sem que soubesse, bem sobre pedras pontiagudas que lhe tiraram muito sangue. Como se isso não tivesse a mínima importância, ergueu seus olhos para aquele escuro teto da gruna, onde incrivelmente estes o atravessaram, fazendo-a ver o lindo céu daquela manhã, e com fé, pediu a São Sebastião: “Meu santo protetor, faiz cum qui meu fio escuta meus grito”.
Como era sábado e ignorava a existência de tal gruna, Peri achou que seus pais tivessem descido a serra rumo ao povoado. Pra lá foi ele cantando e assobiando, e vez por outra chamava: PAI, MÃE, espereu! Passaram-se duas longas horas para que ele chegasse ao povoado de Caldeirões, onde tinham a casinha. Os velhos lá não estavam, e nem na casa de Antônio Brejos, o patrão de seu pai.
Preocupado, o senhor Antônio comandou um grupo de garimpeiros que juntos com o menino, voltaram ao garimpo, munidos com candeias, pois a noite já havia caído. Sim, era noite.
Apercebido que algo de ruim acontecera a seus pais, chorava agora o alegre e irrequieto Peri, pelo caminho que tanto percorrera com aquele casal pobre, mas tão feliz. Era uma noite sem lua, iluminada apenas pelas tochas vermelhas das candeias. Dentro da gruna, o verdadeiro pânico, a verdadeira cena tétrica já se consumara.
A escuridão e o oxigênio já bem escasso; o ruído das asas dos morcegos e a ânsia de se enxergar uma luz; enfim, desejosos em ver aquele monte de pedras desobstruindo a única saída, fez antecipar sem dúvida, o fim do casal Silva.
Ao perceber o caldeirão virado dentro do regato, Peri seguiu os grãos de arroz e feijão que a correnteza puxava como se sua mãe tivesse deixado aquela pista, pra que depois ele a encontrasse. Mais adiante, e enganchado numa ponta de graveto estava o pedaço de sabão envolto em espumas brancas que reluziam sob as tochas dos garimpeiros. Aqui ocorreu um grave acidente, dizia um deles; e é provável que não haja sobreviventes.
Encontraram sem muita dificuldade o monte de pedras, e elas pareciam ter caído há pouco.
Pedra por pedra, uma, duas, três, todas elas foram retiradas deixando assim desimpedida, a porta da gruna. Peri que se mantivera afastado orando a São Sebastião lançou-se em direção à porta depois de arrebatar uma candeia de um garimpeiro. A cena que se lhe estampou foi por demais, estarrecedora.
Os corpos ensanguentados, cabeças deixando a mostra grandes sulcos, mãos feridas, joelhos desfigurados. Sim, seus pais haviam chegado à loucura, todavia, antes, no ápice da morte, um olhar conformado, um olhar de resignação. A candeia caíra das mãos do menino, apagando-se em seguida. Por instantes voltou a reinar a escuridão que havia pouco antes.
Os homens se aproximando, viram o bastante pra entender que o menino que se chamaria Peri Bateia, ficara órfão. E de que maneira brutal!
Os mais velhos tentavam minimizar a dor que o consumia, com palavras confortantes: “Chora qui é bão meu fio. É as coisas ruim qui acuntece cum o homi do garimpo. Teu pai num foi o premeiro, tumbém infelirmente num será o úrtimo.” Dizia outro: “Donde ele tá ele ti ajuda, vai vê”.
Mas, como estava o menino? Chorando, triste? Qual nada! Quando tomou conhecimento do que acontecera ali, não apenas deixou que se escorregasse a candeia, como deu aquela gargalhada que fez gelar e arrepiar os cabelos dos braços dos homens que o seguiam de perto. O susto fora grande o suficiente pra fazê-lo perder a noção das coisas que o cercava.
Sem que ele percebesse os homens enterraram os corpos mutilados dentro da mesma gruna, em uma vala existente na rocha que servia de abrigo para cobras e morcegos.
O comportamento do garoto contrastava à idéia de violência. Perambulava pelas ruas de Caldeirões sempre cantando, assobiando e sem se saber por que, se escondia numa esquina e pregava aquele susto em quem por ali passasse. O seu inconsciente guardara essa travessura que fazia com seus pais, ao descerem da serra onde a família trabalhava o garimpo.
Três anos se passaram e ao que se sabe nada de ruim aconteceu ao menino pobre, que sem o amparo dos falecidos pais, sobrevivia ainda pela benevolência do povo de Caldeirões.
Alimentava-se de esmolas que pedia às portas daqueles que dele tinham compaixão. Herdou dos pais a casa da periferia do povoado, e sempre sozinho, dormia.
Os homens se aproximando, viram o bastante pra entender que o menino que se chamaria Peri Bateia, ficara órfão. E de que maneira brutal!
Os mais velhos tentavam minimizar a dor que o consumia, com palavras confortantes: “Chora qui é bão meu fio. É as coisas ruim qui acuntece cum o homi do garimpo. Teu pai num foi o premeiro, tumbém infelirmente num será o úrtimo.” Dizia outro: “Donde ele tá ele ti ajuda, vai vê”.
Mas, como estava o menino? Chorando, triste? Qual nada! Quando tomou conhecimento do que acontecera ali, não apenas deixou que se escorregasse a candeia, como deu aquela gargalhada que fez gelar e arrepiar os cabelos dos braços dos homens que o seguiam de perto. O susto fora grande o suficiente pra fazê-lo perder a noção das coisas que o cercava.
Sem que ele percebesse os homens enterraram os corpos mutilados dentro da mesma gruna, em uma vala existente na rocha que servia de abrigo para cobras e morcegos.
O comportamento do garoto contrastava à idéia de violência. Perambulava pelas ruas de Caldeirões sempre cantando, assobiando e sem se saber por que, se escondia numa esquina e pregava aquele susto em quem por ali passasse. O seu inconsciente guardara essa travessura que fazia com seus pais, ao descerem da serra onde a família trabalhava o garimpo.
Três anos se passaram e ao que se sabe nada de ruim aconteceu ao menino pobre, que sem o amparo dos falecidos pais, sobrevivia ainda pela benevolência do povo de Caldeirões.
Alimentava-se de esmolas que pedia às portas daqueles que dele tinham compaixão. Herdou dos pais a casa da periferia do povoado, e sempre sozinho, dormia.
Em uma calçada, certa vez estava o Louquinho brincando com alguns meninos, quando um deles disse-lhe: Você mora só, não é mesmo? Quem lhe serve à mesa? E nas noites de inverno, quem lhe faz retornar ao corpo a coberta caída à noite? Cabisbaixo e com ar muito sério, lhe respondeu: “Num tenho quem me serve na mesa, mas de noite, uma muié carinhosa, branca como a neve, me imbrúia quando tô disimbruiado.” Aquele gesto era de sua mãe, apesar de falecida.
Diante do seu bom comportamento, Antônio Brejos achou por bem mandá-lo para um garimpo onde ele iria servir como aprendiz. O trabalho pouco necessitava de inteligência, apenas um pouco de força física, pois ele seria “carregador de bateia”.
Diante do seu bom comportamento, Antônio Brejos achou por bem mandá-lo para um garimpo onde ele iria servir como aprendiz. O trabalho pouco necessitava de inteligência, apenas um pouco de força física, pois ele seria “carregador de bateia”.
O Louquinho não tinha plena consciência, mas já estava naquele serviço braçal há dois anos e meio. Fazia-se notar como um belo exemplar do sexo forte, pois adquirira força e robustez.
Recordações povoavam sua mente? Dos pais, não demonstrava a mais vaga das lembranças.
São Sebastião quando pode, atende ao pobre faiscador e o transforma em um rico garimpeiro.
Numa tarde, a equipe do garimpo “Ferrugem” da qual fazia parte o menino Peri, inicia as escavações muito próximas ao regato responsável direto das mortes dos seus pais. Pouco ou quase nada lembrou. Munidos de ferramentas e muita fé, os homens ocupam o tosco rancho.
Ao cair da tarde se reúnem no velho rancho, junto a uma enorme fogueira onde fariam a última refeição daquele árduo dia de trabalho. Assim que terminaram, o tal Curió, alisando com mãos sujas de comida sua pança muito cheia, disse: “Peri Bateia, vá lavá os prato sujo qui tá no regato.” Bateia atende prontamente ao pedido, em verdade uma imposição, sem demonstrar insatisfação. Estancou como se puxado por uma mão invisível e esbugalhando os olhos, abriu tanto quanto pode a boca como que para sorver por ela, o ar do mundo todo.
Que teria visto Peri? Virado dentro do regato estava um amassado caldeirão, e de dentro dele saíam algumas folhas de capim e pequenos frutos, puxados pela força da água.
Sim, parecia que o incidente fizera aflorar algo que se calara no seu subconsciente. Sem conter sua ira, saiu gritando e caindo pelo caminho estreito que levava ao distante, povoado.
Ainda não recuperara de todo a memória, porém, o bastante pra não voltar jamais ao garimpo.
Engajou-se como ajudante no barracão do Severino, como já foi dito, e dali tirava seu sustento, mas não achava o serviço condizente à sua personalidade serrana. Havia nascido Peri Bateia pra ser garimpeiro e não pra carregar pacotes em uma mercearia de um povoado qualquer.
Um mistério, entretanto, persistia em sua vida. Por que correra apavorado quando vira aquele regato? E por que temera o velho e encardido caldeirão ali abandonado?
Como todo garimpeiro e algumas pessoas que nascem em terras diamantíferas, tinha também Peri o micróbio utópico em suas veias. Queria ser rico, cheio de jóias e possuir uma bela casa com jardim e pomar. Em suma, queria encontrar-se através das jornadas infrutíferas ou não, empreendidas sob o sol causticante ou mesmo nas noites quentes e insones sob a luz do luar.
Insatisfeito com aquela monotonia, agora com vinte e dois anos, abandonou o emprego. Peri Bateia, com mantimentos e instrumentos necessários, foi para uma temporada na serra.
Levara cinco galinhas, um galo e uma cabra parida que lhe daria todo dia o precioso leite.
Garimpou em vários lugares, mas sem resultado nenhum. Resolveu, pois, subir o rio e se instalar perto do “Regato do Mistério”, assim como ele o batizara.
Aquela cata já havia sido trabalhada, mas ele conseguiu bamburrar, e fixou-se por ali mesmo. Em uma noite bem escura, acorda sobressaltado com os berros da cabra à porta do seu rancho.
Vestido com seu peculiar roupão branco feito de saco de açúcar foi Peri certificar-se do que estava acontecendo. “Qui é qui tu tem cabra, oxém, dexeu drumi sinhora.” Mas ao alisá-la, notou que o sangue que brotava de um pequeno ferimento escorria quente ainda pelo pescoço.
“Foro os miserávis dos mucêgos, né? Vou percurá ondé qui dormi os marvados qui ti chupou”. “Passa bicho”- Disse Bateia inclinando-se quando vários deles voavam por sobre sua cabeça. Foi no rancho, apanhou uma pequena vassoura de ramos retorcidos, a candeia e saiu a persegui-los. Notou que os mesmos sumiram sob galhos e ramos floridos que desciam acompanhando o mesmo sentido inclinado da rocha. Era, pois, a boca da gruna.
Com muita sutileza, afastou-as um pouco e exclamou a todo pulmão:
“MEU PAI... MINHA MÃE! Agora sim, lembro-me de tudo.”
Recordações povoavam sua mente? Dos pais, não demonstrava a mais vaga das lembranças.
São Sebastião quando pode, atende ao pobre faiscador e o transforma em um rico garimpeiro.
Numa tarde, a equipe do garimpo “Ferrugem” da qual fazia parte o menino Peri, inicia as escavações muito próximas ao regato responsável direto das mortes dos seus pais. Pouco ou quase nada lembrou. Munidos de ferramentas e muita fé, os homens ocupam o tosco rancho.
Ao cair da tarde se reúnem no velho rancho, junto a uma enorme fogueira onde fariam a última refeição daquele árduo dia de trabalho. Assim que terminaram, o tal Curió, alisando com mãos sujas de comida sua pança muito cheia, disse: “Peri Bateia, vá lavá os prato sujo qui tá no regato.” Bateia atende prontamente ao pedido, em verdade uma imposição, sem demonstrar insatisfação. Estancou como se puxado por uma mão invisível e esbugalhando os olhos, abriu tanto quanto pode a boca como que para sorver por ela, o ar do mundo todo.
Que teria visto Peri? Virado dentro do regato estava um amassado caldeirão, e de dentro dele saíam algumas folhas de capim e pequenos frutos, puxados pela força da água.
Sim, parecia que o incidente fizera aflorar algo que se calara no seu subconsciente. Sem conter sua ira, saiu gritando e caindo pelo caminho estreito que levava ao distante, povoado.
Ainda não recuperara de todo a memória, porém, o bastante pra não voltar jamais ao garimpo.
Engajou-se como ajudante no barracão do Severino, como já foi dito, e dali tirava seu sustento, mas não achava o serviço condizente à sua personalidade serrana. Havia nascido Peri Bateia pra ser garimpeiro e não pra carregar pacotes em uma mercearia de um povoado qualquer.
Um mistério, entretanto, persistia em sua vida. Por que correra apavorado quando vira aquele regato? E por que temera o velho e encardido caldeirão ali abandonado?
Como todo garimpeiro e algumas pessoas que nascem em terras diamantíferas, tinha também Peri o micróbio utópico em suas veias. Queria ser rico, cheio de jóias e possuir uma bela casa com jardim e pomar. Em suma, queria encontrar-se através das jornadas infrutíferas ou não, empreendidas sob o sol causticante ou mesmo nas noites quentes e insones sob a luz do luar.
Insatisfeito com aquela monotonia, agora com vinte e dois anos, abandonou o emprego. Peri Bateia, com mantimentos e instrumentos necessários, foi para uma temporada na serra.
Levara cinco galinhas, um galo e uma cabra parida que lhe daria todo dia o precioso leite.
Garimpou em vários lugares, mas sem resultado nenhum. Resolveu, pois, subir o rio e se instalar perto do “Regato do Mistério”, assim como ele o batizara.
Aquela cata já havia sido trabalhada, mas ele conseguiu bamburrar, e fixou-se por ali mesmo. Em uma noite bem escura, acorda sobressaltado com os berros da cabra à porta do seu rancho.
Vestido com seu peculiar roupão branco feito de saco de açúcar foi Peri certificar-se do que estava acontecendo. “Qui é qui tu tem cabra, oxém, dexeu drumi sinhora.” Mas ao alisá-la, notou que o sangue que brotava de um pequeno ferimento escorria quente ainda pelo pescoço.
“Foro os miserávis dos mucêgos, né? Vou percurá ondé qui dormi os marvados qui ti chupou”. “Passa bicho”- Disse Bateia inclinando-se quando vários deles voavam por sobre sua cabeça. Foi no rancho, apanhou uma pequena vassoura de ramos retorcidos, a candeia e saiu a persegui-los. Notou que os mesmos sumiram sob galhos e ramos floridos que desciam acompanhando o mesmo sentido inclinado da rocha. Era, pois, a boca da gruna.
Com muita sutileza, afastou-as um pouco e exclamou a todo pulmão:
“MEU PAI... MINHA MÃE! Agora sim, lembro-me de tudo.”
Seu peito musculoso ondulava ante os fortes soluços que dele brotava. Começou a procurá-los como se o tempo não tivesse passado. Como se ele tivesse vindo agora do mato, ali bem perto, quando abatera a rolinha e ouvisse os gritos de socorro que ele não havia percebido, daquela querida e inesquecível mãezinha. Na sua agitação caíra várias vezes. Sentia o sangue correr em seu rosto, entrando em sua boca, mas nada o incomodava. Queria encontrar seus pais, ou pelo menos, o que deles restara. Foi essa obsessão que o atormentou e o fez sofrer em toda sua vida.
A candeia resvalou entre as rochas pontiagudas e estava sem azeite, pois este derramara e descia escorrendo por sobre o lajedo, assemelhando-se a uma gigantesca lágrima negra iluminada por uma réstia de luz.
A erosão pôs à mostra os ossos de um pequeno pé; tão logo o vira, lançou-se a escavar com as mãos, vendo-as tingir de um líquido quente e pegajoso. SANGUE! Nada o interrompia na sua marcha alucinada. Nem mesmo a picada de uma temida CASCAVEL que antes ele empurrara de sobre a cova o fez parar. Ignorou o perigo de que estava acometido. Pôs a descoberto um esqueleto que estava em uma vala na rocha, e quase não teve forças pra retirar o outro.
Abraçou-se num choro calmo e resignado, àqueles dois esqueletos desengonçados. Não percebeu que jamais os soltaria, pois estavam findando seus últimos segundos de vida.
Aconchegando-se mais ainda, exclamou alegremente. Incrível, Alegremente:
“COMO É BOM PODERMOS FICAR SEMPRE JUNTOS, MEU QUERIDO PAI, e MINHA SANTA MÃEZINHA”.
Com um gemido rouco declinou-se lentamente sobre seus dois entes mais queridos, naquele triste povoado de Caldeirões.
.................................F I M
Autor do conto – Rômulo Bispo dos Anjos.
..........................12.02.1975
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Autor do conto – Rômulo Bispo dos Anjos.
..........................12.02.1975
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