sábado, 21 de agosto de 2010

Oitenta e um Anos - Parabéns, Ivanyce.

.......Querida professora e amiga, Ivanyce Alcântara de Souza.

O tempo é mesmo inexorável... Outro dia comemorávamos em festa de gala os seus bem vividos 80 anos de idade. Decorrido algum tempo, rendemos graças ao bom Deus por novamente tê-la conosco com alegria e paz, em mais um aniversário entre amigos e parentes.

Como seria maravilhoso se outra pessoa que também amei, tanto quanto a você, professora, tivesse conseguido se esquivar ao passamento precoce, pra comigo desejar-lhe, vida longa. Minha Mãe nos incluirá em suas orações, e isso fortalecerá meu vínculo de amizade a você.

No vigor dos seus 81 anos, nota-se como ostentas um corpo que ainda conserva os traços de outrora, e sem dúvida, sua boa aparência é consequência de uma saúde invejável e das suas bem escolhidas, vestes. Inteligente e altiva, você segue firme rumo ao centenário.

Um dia que não o de hoje, mais precisamente no seu aniversário passado, alguém querendo testar minha amizade e o respeito que lhe devoto, me inquiriu: “Muitos políticos e pessoas outras já renderam homenagens à professora Ivanyce; por que você se mantém calado”? Sem me aborrecer, pois estava convicto de que não faria necessariamente de público a minha manifestação aos feitos daquela mulher dinâmica, que a tantos ajudara, retruquei à insinuação nefasta com esse provérbio indiano: “Quando falares cuida para que tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio”. Reporto-me àqueles que não têm o cuidado de esconder suas falácias, mormente quando se tornam imprescindíveis os aplausos dos incautos.

Sem que vissem, à exceção de amigos internautas, rendi à minha professora aniversariante uma homenagem em forma de crônica, com todos os adjetivos que lhe pude direcionar. Hoje, tanto quanto no ano passado, ratifico o meu respeito e amizade a você, que apesar de ter militado na área política, o fez com bastante lisura e dedicação pelo ser humano. Seus projetos foram todos direcionados à melhoria da qualidade de vida de munícipes, seus eleitores ou não.

Seus exemplos como cidadã Lençoense, somados ao que nos ensinastes como verdadeira Mestra fez de mim, e de todos aqueles que te conheceram, eternos admiradores.


....PARABÉNS PELO SEU ANIVERSÁRIO, MESTRA QUERIDA.

Rômulo Bispo dos Anos.
Lençóis – BA, 20 de agosto de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

..........PEQUENO FOX




................L i t t l e - - F o x

Embora temido por exibir afiados e grandes caninos, é de pequeno porte o meu inseparável amigo, Fox. De raça não definida, mas com a insinuante aparência de uma raposa de pelo amarelo fulvo, o cãozinho lembra um chiuaua, o menor cão do mundo.

As Manchetes Internacionais, mormente aquelas voltadas ao cumprimento de leis em defesa dos bichos, me impressionam, em especial, de cães e gatos abandonados. Criadores, mesmo aqueles que amam seus animais, se decorrente de viagens ou por algum motivo de força maior, deixa-os ao relento ou os aprisiona, são interpelados e julgados pela prática de maus tratos contra animais indefesos, e às vezes, condenados.

Muitas ONGs de Proteção a Animais são vistas em nosso país, mas não contam com o apoio logístico necessário para se fazer cumprir suas Leis. Omissas, as autoridades municipais permitem também nas cidades do interior, e a nossa é uma delas, criadouros a céu aberto, de cachorros e gatos adoentados e sempre famintos.

Defensor de bichos de estimação e com várias matérias postadas com esse tema, ainda assim, conclamo a atenção da área de saúde pública para o risco da Leishmaniose, doença não contagiosa, causada por parasitas que se reproduzem dentro das células, fazendo parte do Sistema Imunológico da pessoa infectada. Dentre outros animais, o cachorro pode ser o hospedeiro e um agente proliferador da doença.

Quem ama, cuida! É fácil perceber a diferença entre ter um cão e gostar de um cão. Não insinuo que devam ser banidos das ruas, como animais pestilentos, os nossos cães, mas que sejam remanejados para um canil público, onde deverão receber de veterinários os cuidados médicos, e que alimentados possam ser disponibilizados para uma possível adoção. Esses animais à solta e sempre mendigando um pedaço de pão sob as mesas, e entre as pernas de turistas incomodados, infestam as portas de bares, restaurantes e lanchonetes. Apesar de sua agressividade, esses bichos esquecidos pelos donos, mostram sempre no olhar piedoso, a dor da fome que os consome. Muitos deles passam a noite com míseros nacos de carne, caídos ao acaso de um sandwich, objeto da disputa que premia não o mais faminto, mas, o cão mais astuto.

E por falar em astúcia, volto a escrever sobre as peraltices do meu esguio e feroz, Fox! Por descuido ou mesmo por incompetência, deixamos de ensinar também a ele, que um cão não pode viver sem o convívio de outros bichos da sua espécie. Tarde demais! Com mais de um ano de idade, nos preocupa o dia quando tiver que fazer sua iniciação sexual, sem que primeiro tenha ele, o ímpeto de comer nas preliminares, a orelha da sua amada. Anseio que o instinto prevaleça, surjam os filhotes, e que vivam em união.

Sem que seja preciso chamá-lo com assobio, que, aliás, é um método de interação, um leve silvo emitido com os lábios, é o suficiente para tê-lo bem depressa, junto a mim. Faceiro e subserviente sempre está disposto a corresponder às minhas brincadeiras. Resgatado que foi na distante favela, o pobre cachorro assustado não tem mais fome, nem medo, e se fez um protegido dela, a minha filha, sua dona de fato, mas não de direito. Fui adotado por esse Cão sapeca, que me ensinou o valor da amizade; e se hoje divido o seu afeto, é que mais do que ela tive com sobras, tempo pra lhe dar atenção.

Nas tardes de domingo, sua companhia é indispensável até quando movidos por uma grande paixão, ficamos também os dois refestelados no sofá para assistir e torcer pelo Flamengo, O Campeão. Ao grito de gol, coisa rara desde que nos sagramos vencedores no Carioca 2009, o cãozinho sapeca late, pula e corre pelo piso de madeira, exibindo-se veloz como se entendesse que de fato aquele é o momento pra alegria e empolgação.

Contrastando com essa explosão de satisfação, consigo compreender sua tristeza, e quase sempre se dá quando tenho que me ausentar. É comum nas noites em que estou paramentado e saindo para a minha Loja de Trabalhos Maçônicos, não vê-lo perto de mim; esconde-se sob uma mesa, e do desvão que o protege, fica a me rosnar.

Decorrido algum tempo, cansado chego sonolento, mas o moleque ainda está a me esperar. Faz uma grande festa e com mordidas leves, ele parece querer me castigar. Logo fazemos as pazes e o bichinho esperto pula de alegria, e sem que eu o proíba, sobe nos meus ombros, e como se fosse uma raposa, me enlaça com sua pele macia.

Seja gato ou cão, em verdade, todo animal merece carinho e a nossa afeição. Olhemos um pouco mais para aqueles abandonados e doentes, pois um dia, tenham certeza, foram saudáveis, tiveram uma família, e não precisavam disputar um pedaço de pão.

...........................Fim.
"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede"...Carlos D. de Andrade.

.................Autor – Rômulo Bispo dos Anjos
....................Lençóis – Bahia 01/06/2010

sábado, 22 de maio de 2010

.................G A R I M P O S

...............................P E R IBateia

Todo lugar onde o homem se instala, levado por necessidades, é obrigado a fazer algo pela sua sobrevivência, que, aliás, é uma lei natural que atinge todo e qualquer ser vivo. Inspirei-me em um personagem fictício que se assemelhar com qualquer pessoa, é uma coincidência como também o são espaço e tempo vivido por ele neste conto. (Quem sabe, poderiam ser garimpeiros de serra, que tanto víamos na Chapada Diamantina).

Eis que em meado de 1925, um forte jovem de pele curtida pelo sol, sentiu que devia procurar um emprego. Mas que emprego? Ficara órfão aos doze anos e aos vinte e dois, não aprendera outra arte senão revolver pedras e barrancos a procura de diamantes!
No povoado de Caldeirões, vivia o solitário Peri Bateia, assim chamado por carregar o cascalho extraído da corredeira até o local onde seria guardado para lavagem posterior.
Graças a este tipo de serviço, Peri foi desenvolvendo seu forte físico e também as suas habilidades no manejo da bateia ao ralar o cascalho bruto.

Aos dezoito anos Bateia tentou abandonar a vida do garimpo e trabalhar como ajudante no único barracão do povoado que pertencia ao Sr. Severino.
Aos domingos, a pracinha se enchia de meias-praças (garimpeiro fornecido por patrão,) pra no barracão, fazerem suas bocas-de-saco, (provisão de alimentos), que devia passar até o sábado, quando desciam de novo a serra, uns risonhos, outros tristes, mas no fundo ainda persistentes. O sonho do Bambúrrio não lhes saía das cabeças.
Naquele emprego Peri ganhava o seu sustento, contudo o achava um tanto monótono. Estaria Bateia, encaixado num trabalho a altura do seu espírito irrequieto e aventureiro?

Retrocedamos ao menino Peri que chegara a Caldeirões com onze anos e acompanhado de seus pais: Zé Silva e sua companheira, Dona Benta, ambos já acostumados à vida do garimpo. Imbuídos pelo desejo de uma vida melhor, enfrentaram as intempéries da mãe natureza, deslocando-se por estreitos canais, e desafiando as correntezas dos rios. Zé Silva com sua família chegou ao já abarrotado de garimpeiros, povoado de Caldeirões, encravado entre serras ricas em diamantes e carbonatos.
Ao ser informado que Antônio Brejos possuía alguns garimpos, Zé foi à sua residência solicitar um emprego. Aquele homem rude ao lhe contratar, retrucou:

“Se num tróxer quarquer coisa, mermo um xibiu, não ti furneço mais, home. Escói bem o lugar pru que diamante, num farta, Zé.”

Logo que acertou o trabalho, ele foi para a serra. No garimpo, Dona Benta, Zé Silva e o filho Peri, derrubavam pedras, descobriam o cascalho, passavam-no pelo processo de lavagem e sempre no sábado apuravam alguns bons diamantes. Também no sábado a família descia para o povoado, muito alegre. Peri badocava passarinhos, cantava, e às vezes adiantava-se no caminho e escondido entre as moitas, assustava aos pais.

Depois de quase um ano de garimpagem, a situação financeira da família melhorou substancialmente. Zé adquiriu uma casinha no povoado onde passava a festa de São Sebastião, que era o padroeiro local. Tudo parecia correr bem com a feliz família Silva.

Era uma manhã de sol quente quando Peri saiu em perseguição a uma "rolinha" que se escondia nas folhagens, frustrando o esperto caçador. Distraído, distanciou-se bastante.
Enquanto isso Dona Benta cozinhava o feijão para o almoço e lavava suas roupas em um regato perto do garimpo onde já se encontrava Zé Silva a trabalhar.

Acidentalmente, escapou das mãos dela um pedaço de sabão. Então ela se pôs a correr seguindo o mesmo curso do regato pra recuperá-lo. Pega aqui, ali, acolá, acabou desaparecendo sabão e regato sob uma rocha inclinada. Zé Silva foi ver o que acontecia. De repente, disse pra ela: ”Minha Véia, isso é uma gruna. Rumbora percurá uma entrada.” Ao que D. Benta acrescentou: “Pois sim, Véi”. “Vai ver que tem muito diamante nesse cascai virge”.

Enfim, Peri consegue abater o passarinho, mas seria difícil encontrá-lo, pois caíra num mato fechado. O garoto fica aborrecido porque o petisco estava a lhe escapar das mãos.

Lá no garimpo, iam os dois rodeando a rocha até que encontraram um orifício de onde saíam horripilantes morcegos pretos. Zé falou: “Vamu entrá minha Véia”. Mas, onde supunham ser o acesso ao interior da gruta, havia um amontoado de pedras sobrepostas umas às outras, impedindo a entrada. Assim que o casal conseguiu adentrar, Zé pisou numa pedra saliente que milagrosamente mantinha o equilíbrio sobre todas as outras. Isso fez com que desencadeasse uma avalanche e ela vedou a passagem de tal maneira que jamais conseguiriam sair com vida, a não ser que fossem as pedras tiradas pelo lado de fora e sem muita demora, pra que ambos não corressem risco de morte.

“E Peri, ondé qui tá? Gritou D. Benta. “Tá lá fora Véia” “Pelo meno nosso fio tá sarvo”.
Contrastando com aquela cena terrível, estava Peri já a caminho do rancho, depois de ter encontrado a pomba rolinha. O rancho estava vazio e o garimpo também. Onde estão os meus pais? Pensava o menino que sentado em um banco que servia de guarda-comida, ficou a refletir. Abandonando sua caça, deixou a imaginação tomar conta de sua mente.

Dentro da gruna o ar a cada minuto ficava mais raro. A escuridão aumentava o pavor que já se apoderava do casal vitimado pelo destino cruel. Alguns morcegos pequenos que voavam há pouco, agora esvoaçavam frenéticos soltando guinchos e parecendo a enormes vampiros. A vida parecia ter parado dentro da gruna e a luz deu lugar às trevas.

Arquejantes, os dois gemiam, choravam e lastimavam da má sorte. Movida pela fé que sempre tivera D. Benta ajoelhou-se e sem que soubesse, bem sobre pedras pontiagudas que lhe tiraram muito sangue. Como se isso não tivesse a mínima importância, ergueu seus olhos para aquele escuro teto da gruna, onde incrivelmente estes o atravessaram, fazendo-a ver o lindo céu daquela manhã, e com fé, pediu a São Sebastião: “Meu santo protetor, faiz cum qui meu fio escuta meus grito”.

Como era sábado e ignorava a existência de tal gruna, Peri achou que seus pais tivessem descido a serra rumo ao povoado. Pra lá foi ele cantando e assobiando, e vez por outra chamava: PAI, MÃE, espereu! Passaram-se duas longas horas para que ele chegasse ao povoado de Caldeirões, onde tinham a casinha. Os velhos lá não estavam, e nem na casa de Antônio Brejos, o patrão de seu pai.
Preocupado, o senhor Antônio comandou um grupo de garimpeiros que juntos com o menino, voltaram ao garimpo, munidos com candeias, pois a noite já havia caído. Sim, era noite.
Apercebido que algo de ruim acontecera a seus pais, chorava agora o alegre e irrequieto Peri, pelo caminho que tanto percorrera com aquele casal pobre, mas tão feliz. Era uma noite sem lua, iluminada apenas pelas tochas vermelhas das candeias. Dentro da gruna, o verdadeiro pânico, a verdadeira cena tétrica já se consumara.

A escuridão e o oxigênio já bem escasso; o ruído das asas dos morcegos e a ânsia de se enxergar uma luz; enfim, desejosos em ver aquele monte de pedras desobstruindo a única saída, fez antecipar sem dúvida, o fim do casal Silva.

Ao perceber o caldeirão virado dentro do regato, Peri seguiu os grãos de arroz e feijão que a correnteza puxava como se sua mãe tivesse deixado aquela pista, pra que depois ele a encontrasse. Mais adiante, e enganchado numa ponta de graveto estava o pedaço de sabão envolto em espumas brancas que reluziam sob as tochas dos garimpeiros. Aqui ocorreu um grave acidente, dizia um deles; e é provável que não haja sobreviventes.

Encontraram sem muita dificuldade o monte de pedras, e elas pareciam ter caído há pouco.
Pedra por pedra, uma, duas, três, todas elas foram retiradas deixando assim desimpedida, a porta da gruna. Peri que se mantivera afastado orando a São Sebastião lançou-se em direção à porta depois de arrebatar uma candeia de um garimpeiro. A cena que se lhe estampou foi por demais, estarrecedora.

Os corpos ensanguentados, cabeças deixando a mostra grandes sulcos, mãos feridas, joelhos desfigurados. Sim, seus pais haviam chegado à loucura, todavia, antes, no ápice da morte, um olhar conformado, um olhar de resignação. A candeia caíra das mãos do menino, apagando-se em seguida. Por instantes voltou a reinar a escuridão que havia pouco antes.
Os homens se aproximando, viram o bastante pra entender que o menino que se chamaria Peri Bateia, ficara órfão. E de que maneira brutal!

Os mais velhos tentavam minimizar a dor que o consumia, com palavras confortantes: “Chora qui é bão meu fio. É as coisas ruim qui acuntece cum o homi do garimpo. Teu pai num foi o premeiro, tumbém infelirmente num será o úrtimo.” Dizia outro: “Donde ele tá ele ti ajuda, vai vê”.
Mas, como estava o menino? Chorando, triste? Qual nada! Quando tomou conhecimento do que acontecera ali, não apenas deixou que se escorregasse a candeia, como deu aquela gargalhada que fez gelar e arrepiar os cabelos dos braços dos homens que o seguiam de perto. O susto fora grande o suficiente pra fazê-lo perder a noção das coisas que o cercava.
Sem que ele percebesse os homens enterraram os corpos mutilados dentro da mesma gruna, em uma vala existente na rocha que servia de abrigo para cobras e morcegos.

O comportamento do garoto contrastava à idéia de violência. Perambulava pelas ruas de Caldeirões sempre cantando, assobiando e sem se saber por que, se escondia numa esquina e pregava aquele susto em quem por ali passasse. O seu inconsciente guardara essa travessura que fazia com seus pais, ao descerem da serra onde a família trabalhava o garimpo.

Três anos se passaram e ao que se sabe nada de ruim aconteceu ao menino pobre, que sem o amparo dos falecidos pais, sobrevivia ainda pela benevolência do povo de Caldeirões.
Alimentava-se de esmolas que pedia às portas daqueles que dele tinham compaixão. Herdou dos pais a casa da periferia do povoado, e sempre sozinho, dormia.

Em uma calçada, certa vez estava o Louquinho brincando com alguns meninos, quando um deles disse-lhe: Você mora só, não é mesmo? Quem lhe serve à mesa? E nas noites de inverno, quem lhe faz retornar ao corpo a coberta caída à noite? Cabisbaixo e com ar muito sério, lhe respondeu: “Num tenho quem me serve na mesa, mas de noite, uma muié carinhosa, branca como a neve, me imbrúia quando tô disimbruiado.” Aquele gesto era de sua mãe, apesar de falecida.
Diante do seu bom comportamento, Antônio Brejos achou por bem mandá-lo para um garimpo onde ele iria servir como aprendiz. O trabalho pouco necessitava de inteligência, apenas um pouco de força física, pois ele seria “carregador de bateia”.

O Louquinho não tinha plena consciência, mas já estava naquele serviço braçal há dois anos e meio. Fazia-se notar como um belo exemplar do sexo forte, pois adquirira força e robustez.
Recordações povoavam sua mente? Dos pais, não demonstrava a mais vaga das lembranças.
São Sebastião quando pode, atende ao pobre faiscador e o transforma em um rico garimpeiro.
Numa tarde, a equipe do garimpo “Ferrugem” da qual fazia parte o menino Peri, inicia as escavações muito próximas ao regato responsável direto das mortes dos seus pais. Pouco ou quase nada lembrou. Munidos de ferramentas e muita fé, os homens ocupam o tosco rancho.

Ao cair da tarde se reúnem no velho rancho, junto a uma enorme fogueira onde fariam a última refeição daquele árduo dia de trabalho. Assim que terminaram, o tal Curió, alisando com mãos sujas de comida sua pança muito cheia, disse: “Peri Bateia, vá lavá os prato sujo qui tá no regato.” Bateia atende prontamente ao pedido, em verdade uma imposição, sem demonstrar insatisfação. Estancou como se puxado por uma mão invisível e esbugalhando os olhos, abriu tanto quanto pode a boca como que para sorver por ela, o ar do mundo todo.

Que teria visto Peri? Virado dentro do regato estava um amassado caldeirão, e de dentro dele saíam algumas folhas de capim e pequenos frutos, puxados pela força da água.
Sim, parecia que o incidente fizera aflorar algo que se calara no seu subconsciente. Sem conter sua ira, saiu gritando e caindo pelo caminho estreito que levava ao distante, povoado.
Ainda não recuperara de todo a memória, porém, o bastante pra não voltar jamais ao garimpo.

Engajou-se como ajudante no barracão do Severino, como já foi dito, e dali tirava seu sustento, mas não achava o serviço condizente à sua personalidade serrana. Havia nascido Peri Bateia pra ser garimpeiro e não pra carregar pacotes em uma mercearia de um povoado qualquer.
Um mistério, entretanto, persistia em sua vida. Por que correra apavorado quando vira aquele regato? E por que temera o velho e encardido caldeirão ali abandonado?

Como todo garimpeiro e algumas pessoas que nascem em terras diamantíferas, tinha também Peri o micróbio utópico em suas veias. Queria ser rico, cheio de jóias e possuir uma bela casa com jardim e pomar. Em suma, queria encontrar-se através das jornadas infrutíferas ou não, empreendidas sob o sol causticante ou mesmo nas noites quentes e insones sob a luz do luar.

Insatisfeito com aquela monotonia, agora com vinte e dois anos, abandonou o emprego. Peri Bateia, com mantimentos e instrumentos necessários, foi para uma temporada na serra.
Levara cinco galinhas, um galo e uma cabra parida que lhe daria todo dia o precioso leite.
Garimpou em vários lugares, mas sem resultado nenhum. Resolveu, pois, subir o rio e se instalar perto do “Regato do Mistério”, assim como ele o batizara.

Aquela cata já havia sido trabalhada, mas ele conseguiu bamburrar, e fixou-se por ali mesmo. Em uma noite bem escura, acorda sobressaltado com os berros da cabra à porta do seu rancho.
Vestido com seu peculiar roupão branco feito de saco de açúcar foi Peri certificar-se do que estava acontecendo. “Qui é qui tu tem cabra, oxém, dexeu drumi sinhora.” Mas ao alisá-la, notou que o sangue que brotava de um pequeno ferimento escorria quente ainda pelo pescoço.

Foro os miserávis dos mucêgos, né? Vou percurá ondé qui dormi os marvados qui ti chupou”. “Passa bicho”- Disse Bateia inclinando-se quando vários deles voavam por sobre sua cabeça. Foi no rancho, apanhou uma pequena vassoura de ramos retorcidos, a candeia e saiu a persegui-los. Notou que os mesmos sumiram sob galhos e ramos floridos que desciam acompanhando o mesmo sentido inclinado da rocha. Era, pois, a boca da gruna.
Com muita sutileza, afastou-as um pouco e exclamou a todo pulmão:

MEU PAI... MINHA MÃE! Agora sim, lembro-me de tudo.”

Seu peito musculoso ondulava ante os fortes soluços que dele brotava. Começou a procurá-los como se o tempo não tivesse passado. Como se ele tivesse vindo agora do mato, ali bem perto, quando abatera a rolinha e ouvisse os gritos de socorro que ele não havia percebido, daquela querida e inesquecível mãezinha. Na sua agitação caíra várias vezes. Sentia o sangue correr em seu rosto, entrando em sua boca, mas nada o incomodava. Queria encontrar seus pais, ou pelo menos, o que deles restara. Foi essa obsessão que o atormentou e o fez sofrer em toda sua vida.

A candeia resvalou entre as rochas pontiagudas e estava sem azeite, pois este derramara e descia escorrendo por sobre o lajedo, assemelhando-se a uma gigantesca lágrima negra iluminada por uma réstia de luz.

A erosão pôs à mostra os ossos de um pequeno pé; tão logo o vira, lançou-se a escavar com as mãos, vendo-as tingir de um líquido quente e pegajoso. SANGUE! Nada o interrompia na sua marcha alucinada. Nem mesmo a picada de uma temida CASCAVEL que antes ele empurrara de sobre a cova o fez parar. Ignorou o perigo de que estava acometido. Pôs a descoberto um esqueleto que estava em uma vala na rocha, e quase não teve forças pra retirar o outro.

Abraçou-se num choro calmo e resignado, àqueles dois esqueletos desengonçados. Não percebeu que jamais os soltaria, pois estavam findando seus últimos segundos de vida.

Aconchegando-se mais ainda, exclamou alegremente. Incrível, Alegremente:

“COMO É BOM PODERMOS FICAR SEMPRE JUNTOS, MEU QUERIDO PAI, e MINHA SANTA MÃEZINHA”.

Com um gemido rouco declinou-se lentamente sobre seus dois entes mais queridos, naquele triste povoado de Caldeirões.

.................................F I M

Autor do conto – Rômulo Bispo dos Anjos.
..........................12.02.1975

terça-feira, 11 de maio de 2010

......LUIZ OLIVEIRA









...............UM MENINO VIRTUOSO. ..........(T a t u)

De índole humilde, aquele menino irrequieto desde muito pequeno demonstrava um quociente de inteligência bem mais elevado do que o dos seus outros irmãos, também dotados de muita inteligência. Era filho de um garimpeiro e excelente lapidário, Sr. Almir Andrade, vulgo, Tonico. Muito observador já que pouco falava, foi aprendendo com seu pai, no dia-a-dia, a arte de comercializar as pedras preciosas, como diamantes brutos, brilhantes e até os carbonatos.

Luiz Oliveira de Andrade, de codinome “Tatu”, tinha pequena estatura, olhos miúdos e muito espertos. Cortez, ele sabia ser agradável também fora do âmbito profissional.
Demonstrou facilidade no aprendizado escolar, com ênfase em ciências exatas, e se destacou em matemática, matéria que tanto lhe auxiliaria na profissão que teria no futuro.
Não poderia deixar de frisar que se formou em magistério e cursava faculdade de direito.
O garoto honesto gozava da confiança dos donos de dragas, os quais lhe repassavam lotes com raras pedras preciosas e isso lhe rendia bons lucros. Estimulado pelo pai, com capital familiar, iniciou seu próprio negócio. Pouco tempo depois, já como sócio do cunhado, assimilando com ele experiências em extração de diamantes, rendeu-se à nova profissão.

Casou-se com uma nativa filha também de um garimpeiro, Anízio Macedo, e com ela, Wilma, teve duas filhas: Luma e Luíza Macedo, a caçula.
Amadurecido, o negociante forte em compra e venda de pedras não deixou de lado seu vínculo familiar. Admirado que fora na sua infância pelas tias Maria e Alda Ribeiro de Andrade, dizia sempre que por elas nutria respeito e afeição. Era comum vê-lo visitando-as e lembrando-se das travessuras vividas naquele casarão; ali também residia Cássia, que por sua tia consanguínea Maria Andrade, fora adotada desde que nascera.
Participei com ele em muitos desses encontros de família, pois namorava sua prima Cássia, a qual se tornou minha esposa, e também por isso, estávamos sempre reunidos naquela casa.

Lembro-me que Luiz, um “Tatuzinho” ainda, acidentou-se quando brincava em umas das janelas do salão; também caíra de um velho “Pé de Cajá” que ficava nos fundos da casa. Muito traquino, quase sempre se envolvia em pequenos acidentes, mas nenhum se igualou àquele que o levou ao hospital, quando caiu em um tonel sem tampa. Com fortes dores teve sério inchaço na virilha, pois descera até o vasilhame onde havia se machucado, de pernas abertas. Ao visitá-lo, como “cadeirante” corria veloz pelos estreitos corredores, exibindo não apenas seu restabelecimento, mas, a ansiedade de viver, de um predestinado, vencedor.

Ele administrava “um dia qualquer”, como se aquele fosse o derradeiro, e era visível seu interesse e dedicação em tudo que fazia. Esse traço lhe era peculiar, e justificou seu rápido e invejado sucesso. Candidatou-se a vereador e foi vitorioso, mas um imprevisto o impediria de executar bons projetos em benefício da comunidade. Empossado que foi, o egrégio edil ainda que por um ano prestou relevantes serviços àquela Casa de Leis, e até hoje é lembrado por seus “pares” e munícipes. Seu nome em placa de bronze nomeia um dos salões da Câmara de Vereadores de Lençóis, em justa homenagem, feita por aquela Nobre Instituição.

Os negócios prosperaram de tal forma que era já admirado e visto como um grande empresário. Além dos garimpos de dragas que possuía em sociedade, outros foram adquiridos muito longe, obrigando-os a comprar um pequeno avião que encurtaria as distâncias, tornando mais fácil o controle dos empreendimentos feitos por ambos os sócios.
Algumas viagens aéreas foram feitas e tudo parecia estar de acordo com o planejado.
Havia um detalhe! Há quem diga ter ele afirmado que tinha muito medo de aeronaves e que não mudaria sua opinião a respeito de voar. Havia nascido o tatu pra andar! Por que voar?
Sim, era preciso e imperioso. Mesmo relutante pô-se a viajar em busca dos seus objetivos.

As pessoas ainda em meio a uma tediosa manhã percebem o inconfundível ruído de um pequeno avião se aproximando, e rasgando os céus com seu único e barulhento, motor. Era, pois, a aeronave que voltando de uma de suas viagens faria como de costume um voo rasante, indicando aos familiares dos sócios, da sua chegada no aeroporto.
Curiosos às portas das casas volviam seus olhares para o alto, na tentativa de ver o avião.
O que mais intrigava, sem dúvida, era o ruído do motor que não podendo manter uma aceleração contínua, tinha sua potência cortada, ameaçando parar seu funcionamento.

Perplexo e tão estarrecido quanto os transeuntes, eu estava próximo a um bar, quando vi passar um carro branco, dirigido pela esposa de um dos tripulantes do monomotor, em pane.
Percebido o sinal, aquele carro iria à busca dos ocupantes que estavam chegando de avião.
Enquanto isso, o barulho ensurdecedor foi sumindo aos poucos e muita gente pode ver a pequena aeronave que com seu motor a tossir, tentava dar a volta sobre o rio Lençóis.
Sem que pudéssemos entender o que de fato ocorria, até porque foi muito rápido, desapareceu na serra por detrás do Grizante, agora apenas como um pequeno ponto escuro, a nave agonizante levando em seu bojo a expectativa de vida, talvez de morte.

Os segundos pareciam intermináveis quando se elevou com a magnitude de uma explosão atômica, o bizarro cogumelo de fumaça negra. O pânico tomou conta das pessoas, que atônitas corriam sem direção, mas sabiam que algo ruim acontecera. A multidão se dirigiu às pressas ao local da presumível tragédia, inclusive autoridades policiais e os salva-vidas.
Amador, mas com experiência como cinegrafista em resgates, peguei minha câmera e segui esperando registrar não um provável desastre, mas, um grande milagre. Fui para a serra!

A trilha calçada com pedras e areia não me permitia um rápido acesso, mesmo assim, muita gente havia chegado ao local. Vez por outra encontrava alguém descendo transtornado, e sem esconder as lágrimas, dizia não ter conseguido prosseguir rumo ao pico da serra.
O grupo tendo à frente um Delegado de Polícia parou à minha solicitação para que eu o entrevistasse. À primeira pergunta, veio a resposta que eu temia. Sim, ratificou o policial. “O avião que há pouco sobrevoava a cidade, explodiu depois do choque com os rochedos e à sua volta tudo está em chamas. Não houve sobreviventes e os cadáveres estão sendo consumidos e carbonizados pelo fogo que tudo queima e avança incontrolável”.

Chegando ao local, vi destroços do avião por toda parte. O pequeno motor que tanto esforço fizera pra se manter acionado jazia chamuscado e envolto em labaredas; finalmente se calara.
Tudo em volta era silêncio! Apenas olhos incrédulos se moviam na expectativa de que alguém pudesse ter sobrevivido incólume, daquele incontido, inferno em chamas.
Os gritos de dor daquela corajosa e sofrida mãe se fizeram ouvir nas serranias, quando ao se aproximar do suposto filho afirmou em prantos: É ele! Esse é o meu Luiz! Oh, meu filho!


Embora sem a comprovação de um laudo pericial, desnecessário, portanto, os outros corpos foram identificados como sendo do piloto do avião, e do cunhado e sócio, de Luiz. Analisando as imagens dos destroços da aeronave, a Aeronáutica sugere que a navegação aérea sobre a cidade pode ser segura, se respeitados no plano de voo, os limites de altitude.

Há pessoas que conseguem o benefício da longevidade e não tiram proveito disso; outras, como o saudoso Luiz Andrade, por viverem intensamente realizam seus sonhos e deixam como legado maior, exemplos e virtudes, além dos merecidos patrimônios conquistados.

Luiz, um menino invejado e rico, não juntou apenas, bens materiais. Conseguiu sendo um Jovem Virtuoso, acumular riquezas muito mais valiosas que as jóias e brilhantes, por isso sua passagem apesar de precoce, não foi em vão. Deixou com sua esposa e filhas um legado inexaurível: O tesouro da Espiritualidade, do Amor Fraterno e da União Familiar.


Desastre aéreo em Lençóis-Ba. (As gravações da R.B.Vídeo foram cedidas à Aeronáutica).

Créditos- Rômulo Bispo dos Anjos. Setembro de 2008.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

......COMO UM JOVEM IDOSO

.............................Caros Leitores...

Essa mensagem tocou-me profundamente, por isso resolvi e fiz esse comentário que espero sensibilizar quem porventura falte com o devido respeito a um idoso!

A longevidade nem sempre premia de forma justa àqueles que resistiram como bravos à ação do tempo, e os nossos idosos, em grande número, são relegados a viverem na exclusão social.
A velhice não é um mal, entretanto muitos chegam com ela, dentre eles, o descaso e o abandono. Essa maldade que transforma e torna invisível o ser humano como veremos no texto abaixo, é uma vergonha, mormente se oriundo dos familiares. Apesar do meu repúdio, sei que o fato é mesmo crível.

O Mito da Invisibilidade - crônica postada em www.romulobispo.blogspot.com é verossímil tão somente para com os maus políticos, os prepotentes e arrogantes que se fazem notar pelo poder, ainda que efêmero. É inadmissível que se dê tratamento igual para com nossos velhinhos que certamente se doaram, tanto aos filhos, quanto aos seus netos, orientando-os na formação de suas cidadanias.

A sociedade terá de repensar esses valores, até porque não somos mais um país de tantos jovens, e a expectativa de vida é crescente e as pesquisas comprovam.
Estou convicto de que um idoso pode até prescindir do pão que o alimenta, e ainda sobreviver; embora morra sua alma se lhe faltar: Atenção, Carinho e Amor!

Quiçá sejamos vistos um dia, não apenas como “velhos”, mas como idosos dignos do respeito de nossa família e da atenção daqueles que dirigem o destino da Nação.

Grande abraço,
Rômulo Bispo dos Anjos.

.....................“A Idosa Invisível”

NOTA –
O comentário acima diz respeito a uma reflexão, embora creia verdadeira, sobre uma velhinha que de tanto ser ignorada pela família, sentiu-se como invisível fosse, pois não interagia com ninguém apesar das várias tentativas de aproximação que fazia.
Sentiu também perder sua voz, já que não a escutavam. Um dia comentou: “Quando eu morrer vocês vão se arrepender”. Ao que o netinho disse: “Você está mesmo viva, vovó”?! Sozinha, buscava a paz do seu pequeno desvão onde dormia.
Um dia os garotos alvoroçados diziam que todos iriam passar o dia seguinte no campo. Ela acordou cedo naquele sábado e começou a arrumar suas coisas para a viagem. As crianças agitadas levavam para o carro que já os aguardava no jardim, seus brinquedos e tudo que usariam no passeio. De repente o carro saiu e ela notou que não havia sido convidada.
Talvez porque seus passos não acompanhariam os dos demais e assim seria um incômodo, talvez porque não houvesse lugar para ela, ou mesmo porque não a queriam junto deles naquele dia que ela tanto esperou chegar. Seria um passeio ao ar livre o que há muito tempo não fazia.
Sentiu seu rosto contorcer-se para conter o choro, mas não conseguiu. Decidiu perdoar-lhes até quando foi impedida de beijar sua netinha para que não a contaminasse. Coisas da saúde, diziam enfáticos os filhos que ela tanto beijara.

Afinal, tendo reconhecido que de fato se tornara invisível, aquela velhinha se recolheu e não mais tentou convencê-los de que estava viva, sem antes perdoar a todos os seus familiares.

LENÇÓIS – BA, 30/04/2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

..........V E R D E...(N O V O)




......................Meio Ambiente

A histórica Lençóis na Chapada Diamantina deve seu nome às brancas espumas que roladas nos seixos do Rio Serrano, desciam rápidas e da sua junção remete-nos a confundi-las com imenso lençol branco em épocas de não raras cheias.
O verde peculiar ao seu redor, os rios que outrora esbanjavam riquezas com jazidas minerais preservadas, sofreriam em breve pela ganância de exploradores irresponsáveis, que sem nenhum manejo volveriam com máquinas e em busca do diamante, seus leitos que sucumbiriam tragados pela ação das dragas poluidoras.

De família sem tradição mineradora, sou o penúltimo dos dez filhos; viemos com nosso saudoso pai e fomos recebidos pelos nativos que em 1959, nos acolheram como se filhos da terra, fôssemos. Foram anos memoráveis, pois aprendemos que os homens podiam ficar ricos não apenas pela extração do minério, mas também por evoluírem intelectualmente. O respeito que tivemos pela mãe terra, fez de nós, uma grande família.

A Chácara São Benedito onde morávamos foi preservada, e ali cultivávamos sem agrotóxicos nossos saudáveis alimentos. Plantávamos desde as hortaliças, até a mandioca com a qual fazíamos em oficina própria, a farinha e muitos de seus derivados.

Por tradição, o garimpo de serra era sem dúvida o sustentáculo daquela população; garimpeiros aprendiam desde cedo, a arte de revolver barrancos à procura do diamante.
A exploração em nada prejudicava o meio ambiente, posto que o garimpo manual como é sabido, tem seu momento maior às épocas das cheias quando o cascalho trazido pelas enchentes, afloravam entre as trinchas, facilitando assim a busca pelo precioso minério.

A ambição pelo enriquecimento rápido fez mudar a rotina da pacata cidade, quando de repente chegaram com imensas máquinas, as conhecidas dragas, homens vindos de toda a região inclusive de outros Estados, causando danos irreparáveis àquele santuário ecológico.

A paisagem não mais conservava o esplendor do verde farto. Apareceram grandes crateras poluídas pelo óleo combustível, que lagoas piscosas poderiam ser se aqueles garimpeiros tivessem a consciência ecológica por uma extração sustentável que minimizariam o impacto ambiental. Não foi o que vimos e a natureza gritava pelo socorro que demorava a chegar.

Pequenos rios foram sufocados por restos de cascalhos, os concorridos rabos de bica, que já sem suas gemas maiores eram de novo mexidos por garotos, filhos de pais garimpeiros que tentavam faiscar algumas pedras perdidas. Todos os “mosquitos” ou pequenos diamantes ali encontrados seriam vendidos aos lapidários.

Ações isoladas deram início a uma grande mudança e pessoas se mobilizaram voltadas a uma preservação ambiental que não mais poderia esperar. Grupos de trabalhos foram criados e com a participação Estadual e Federal, os garimpos de dragas foram proibidos.

Nosso município teve revitalizado o seu ecossistema, e novas perspectivas foram criadas. Tombada como Patrimônio Histórico e Cultural, tem seus suntuosos casarões conservados e se torna uma realidade o turismo sustentável. Os frutos dessa mudança são imediatos e surge como em passe de mágica a consciência pelos moradores na defesa das riquezas naturais quase extintas pela ação do extrativismo predatório.

Orgulho-me por ter participado do redirecionamento sócio-econômico de nossa comunidade com o advento do turismo. Também vivenciei em família a experiência de extrair da terra tudo que dela necessitávamos, sem que fosse preciso depredá-la.

A chácara São Benedito, agora transformada na pousada “O Solar dos Moraes”, continua cercada por árvores frutíferas, e ainda podemos apreciar as águas límpidas onde tomávamos banho em época de verão, do tradicional córrego, “O Lava Pés”.

De novo o verde!

A cidade preservada é um patrimônio de todos, e isso demonstra que a luta não foi em vão, quando garimpeiros, nativos e empresários se irmanaram pra fazer do passado, um rico presente para o futuro de Lençóis, hoje importante Centro Turístico da Chapada.


23.07.2008
Lençóis – Bahia.
Autor – Rômulo Bispo dos Anjos.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

..........S Á T I R A DA C A S I N H A



...............A Casinha do Alto da Estrela

Os móveis chegaram e foram testados, à exceção do fogão, pois nele não tinha o que cozinhar. Como a geladeira estava em boa situação, deixei-a funcionando no "mínimo", e o "mínimo" que poderia acontecer seria a sua morte, e por inanição! Apesar de nova e vistosa, seu bojo vazio lembrava o abdome de um infeliz haitiano, sobrevivente da pós-tragédia. Mas que comparação!

Os colchões! Esses eu vi na madrugada e pelo jeito estavam mesmo com muito frio. Pudera! Prometeram-lhes umas "caminhas decentes", mas não enviaram nem uma "mísera esteira". Consternado tive que separá-los, pois o outro "quarto", o segundo e o último que havia na casinha, chateado pela companhia apenas das aranhas, ameaçou organizar uma rebelião de insetos.

De plástico reciclado também a mesa foi comprada, mas sua cor branca estava mais prá pálida. Por descuido lhe puseram de pernas pra cima no carro, e eram visíveis os muitos arranhões em todo o seu tampo. Imaginem! Um simples papelão daria proteção para ela e aos seus quatro filhotinhos, aliás, para seus banquinhos, que apesar de assustados, quase não se machucaram. Amarrada com cordas pouco ou nada podia fazer, e suplicante, ansiava pelo fim da viagem.

Suas cicatrizes ainda recentes por certo seriam disfarçadas sob providencial toalha de Came, e com sorte poderiam ganhar cobertura de tecido "fino" ou quem sabe, até mesmo de "fuxicos". Vejam bem: pediram-me, e eu me prestei a olhar se tudo havia chegado conforme foi pedido. Pra mim, "fuxico" é apenas um artesanato, e o resto fica por conta da imaginação de cada um.

A sala! Essa daí mereceu minha atenção. Cauto, evitei a poça d’água, pois temia o escorregão; ledo engano. Eram lágrimas abundantes, e aquilo me cortou o coração. Chorava de inveja e eu lhe dei razão. Sentia-se nua, pois ali não havia um reles rádio, quanto mais, uma televisão. Ao adentrar na cozinha, sem dúvida, a prima rica, cantei pra amenizar sua ira, um samba do irreverente, Jorge Aragão. Deixa-te disso, amiga. “A inveja é um dos sete piores pecados”. (Disse-lhe a arrogante geladeira, que de tão "pura” lembrava a imaculada, Senhora Conceição.

Dessa vez abusei da sintaxe e sem poder evitar, usei as sílabas tônicas pra chamar a atenção. Mais ao fundo, ou melhor, precisamente nos fundos do imóvel, o barulho de uma "descarga solitária" fazia-me ver que mais alguém não estava satisfeito, por ali; o velho sanitário fora enganado impiedosamente. Disseram-lhe que seria um dos mais bonitos cômodos do tal "novo prédio”, e ele, satisfeito, acreditou!

A pia, deixando à mostra algumas rachaduras, quase não podia olhar-se naquele que fora um dia, um orgulhoso espelho. Pendurado numa parede sem prumo e pintada com sobras de tinta branca, debalde, insistia em se exibir para mim, naquela parede úmida com resquícios do antigo verde. Restara-lhe apenas uma metade, pois a outra...

Terminada a visita, teria que me retirar, mas como tive dificuldade para abrir a porta, pensei: Hum...Não querem que eu me vá. (Me reporto aos pequeninos cômodos da casinha humilde, que acabara de reformar). Passei vexame e decepção ao constatar o quanto me enganara.
A porta resistiu em abrir e a explicação tava na cara, ou melhor, na fechadura: ENFERRUJARA!

......................Fim!
................................Autor – Rômulo.

.........Aos amigos, JoãoBa e sua esposa, Amazília/01/2010


quinta-feira, 25 de março de 2010

..............P R I M A V E R A







..........P A R A L E L O

Sentado num banco de um jardim onde podia admirar o luar, fui acariciado por uma garota que me acompanhava naquela noite especial; era Joana, a minha namorada. Recostada em meu peito e pensativa, buscava nos meus braços a segurança que lhe faltava. Senti que algo a incomodava e busquei explicações no passado. Revivi por instante um episódio triste, mas que contribuiu pra que ficássemos juntos ainda mais, quando não nos permitiram da Festa das Orquídeas, participar.

Setembro chega de novo e trás a Primavera, estação de realce pela beleza que se pode ver em cada galho florido, com tons do esbranquiçado das Margaridas, ao roxo das Quaresmeiras. Persistentes lembranças de uma remota Noite Primaveril ameaçavam em não nos deixar em paz.

Lençóis à época se exibia ao povo, pois naquele dia festivo os pórticos foram adornados com arcos de jasmins, acácias e orquídeas. Recordo-me ainda das moças e rapazes, filhos legítimos de uma casta privilegiada, adentrando com seus trajes típicos, no seletivo Centro de Ação Social.

Desci a praça, alegre também, todavia com uma roupa velha, limpa, mas muito amarrotada. Lembro-me bem: calças de mescla azul marinho, camisa de pano de saco e sandálias de couro cru, calçavam meus calejados pés. Nada poderia tirar minha vontade em ver tudo aquilo de perto.
Uma famosa banda de jazz chegou de Salvador e iria tocar na festa que antecedia à ágape, para deleite de uma elite composta por donos de serras e famílias ilustres de Coronéis da Chapada.

Sob um rústico poste de madeira e sem exibir convites, sapos se fartavam das mariposas que desgarradas do frenesi em volta da tênue luz, debalde, se esquivavam das famintas e pegajosas, línguas. Curioso, vi entrar pela única porta do sobrado, com acesso pelo beco, aquela gente radiante e perfumada pelas flores trazidas nos cabelos, ou em orla de ricos vestidos, e nas lapelas dos ternos de linho puro, muitos deles importados de Paris.

Sem que me obstassem e nem poderiam, do alto de um muro na praça central, constatei que o baile havia começado. Via também o vaivém dos garçons servindo aos casais que preferiam de suas mesas ouvirem a orquestra, degustando de fabricação caseira, o saboroso licor de jenipapo.

Nas esquinas, excluídos da Festa das Orquídeas, volviam olhares tristes para o casarão em festa.
Chato, penoso, sei lá como posso adjetivar ao que senti; tripas roncavam vazias, e no meu bolso, apenas trocados. Vontade e necessidade de me integrar àquele povo, pois eu era gente, humano!
Por que não podia ver de perto tudo aquilo e também saciar um pouco a fome que me castigava?

O lampião iluminava o apertado beco que dava acesso ao velho prédio, onde ao fundo, percebi alguns garotos carregando cadeiras e mesas que serviriam aos convidados que se atrasaram. Difícil seria como entrar ali sem que me pusessem pra fora, pensava, contorcendo as mãos, muito ansioso. Nem tão bem trajados, os meninos passaram na portaria, e foi aí que tive uma boa idéia.

O último deles, um moleque de aproximadamente catorze anos, levava sobre a cabeça uma mesa e na mão esquerda um antigo jarro de porcelana envolto junto às flores em uma rica toalha em bordados. Com maior interesse em me ajudar, fui e ofereci meus préstimos. Antes que me impedissem, subi os degraus desgastados pelo tempo com os olhos muito abertos, pois queria aproveitar todo meu tempo escasso. Quando me livrei do peso da mesa, senti um cheiro gostoso subindo até o meu nariz, revirando sem piedade e fazendo roncar o meu estômago, ainda vazio.

De repente percebi que era orgulhoso o bastante para não pedir coisa alguma ali, muito menos ser negado em um pedaço de pão. Certamente que não, e desceria agora mais tranquilo, pois vira de perto aquele espetáculo esnobe em baile dançante. Numa última olhada, senti como seria maravilhoso convidar uma daquelas mocinhas pra dançar. Se minhas pernas não o fariam, deixei que meus olhos dançassem no ritmo daquela canção que aqueles dois jovens sem modéstia, estavam com passos seguros a executar.

Quando satisfeito pisei o lance primeiro de degrau, notei que haviam deixado sobre o mesmo uma recheada carteira na cor rosa, que poderia pertencer a alguma abastada e rica senhora. Sem perder tempo subi em busca de quem a perdera, e em troca ficaria mais um pouco naquele ambiente que fui rejeitado, e onde o fausto sem se esconder era sempre notado.
A gentil dama gratificou-me em dinheiro que me assegurava alguns dias de barriga cheia. Sem que lhes pedisse, encheram-me as mãos com doces, bolos e salgados. Era tudo que eu queria.
Com o estômago sem reclamar a dor da fome, e vendo satisfeitos os meus propósitos, devagar e pensativo, caminhava rumo ao meu tosco barraco que com papelão e madeira, improvisara.

Que era aquilo? Parei encabulado. Soluçando e tiritando de frio, reconheci a silhueta de uma menina pobre, também excluída que nem eu, sentada numa calçada escura e sob uma neblina fina que começara a cair, deixando o local úmido e assustador.

Que tem você, Joana? Sei que estás com fome. Mas que outra coisa ti aflige? Ela ergueu a cabeça deixando que caíssem sobre seu rosto bonito os cabelos castanhos, onde entre os mesmos eu percebia que seus olhos não escondiam de mim, sua grande decepção.

Joana, a minha namorada, ao ver preterido seu intento de participar da grande festa, adoecera.

“NADA MAIS ME ATORMENTA, MÁRIO. VOCÊ ESTÁ COMIGO”

Sua voz parecia trêmula, mas havia firmeza no que expressara. - Trouxe pra você esses doces e tenho uma economia que nos proverá por algum tempo. - Estamos juntos novamente, Joana.

Uma delicada mão pousou sobre as minhas fazendo-lhes pressão. Cingi sua cintura com um abraço e coloquei em seus carnudos lábios vermelhos pelo frio, um beijo demorado e sincero. O seu corpo tremia de emoção, e entre soluços, confirmou que sempre fora meu, o seu coração.

“Sobre a Festa da Primavera, que tens a dizer, Mário? Que de todas as jovens ricas, vistas ainda há pouco no baile, nenhuma delas se igualava a você, Joana. Você é pura. Você é felicidade.

Com a cumplicidade do jardim colhi uma viçosa flor amarela, e depositei em seus cabelos desfeitos pela rebeldia de um enciumado, vento. - “OBRIGADA, MÁRIO,” disse-me Joana, deveras comovida.

Fitando seu rosto lindo, esculpido por hábeis mãos divinas, vi as lágrimas caindo fartas daqueles olhos que me fitavam com paixão, e gritei-lhe num longo sussurro:

......VOCÊ É A PRIMAVERA, MINHA QUERIDA JOANA.


Lençóis - Ba, 15 de abril de 1975.
Créditos- Rômulo Bispo dos Anjos.

terça-feira, 16 de março de 2010

......................O .C A S A R Ã O








........O .C A S A R Ã O .D O S .A L C Â N T A R A

No início da Rua dos Negros e desafiando o tempo, podemos ver ainda o casarão com muitas portas e janelas, que em um museu deveriam tê-lo transformado; sem dúvida, cabia-lhe o dos Coronéis. Também como escola, diplomou o primeiro grupo de professores e ostentava o nome “Ginásio Afrânio Peixoto” como homenagem ao imortal escritor, médico e romancista.

Tive a oportunidade de estar bem próximo ao respeitado escritor e político, Manoel Alcântara de Carvalho, quando em convivência com seus netos, meus amigos de infância. Sempre juntos, ao término das aulas, as brincadeiras quase sempre ocorriam fora do Casarão. Entretanto, algumas delas pra desgosto daquele velhinho de terno e com óculos de aros redondos, aconteciam dentro de casa e sem fronteiras. Ao perseguir um inimigo oculto, e isso fazia parte da nossa imaginação, valia de tudo. Sequer poupávamos o escritório do poeta, onde sabíamos conter o acervo com as Peças Literárias e demais documentos da História Política de Lençóis.

Nasceu Manoel Alcântara em 19 de abril de 1886, na sua amada cidade serrana, Lençóis – BA. Veio a falecer também em sua cidade natal em 26 de agosto de 1968, com 82 anos de idade.

Naquela casa também moravam o Senhor Pimentel e sua esposa, Dona Beatriz A. Meireles, Dona Senhorinha e algumas de suas sobrinhas, moças queridas por todos da família Alcântara. As festas constantes, muitas delas em razão de aniversários dos filhos, levavam alegria e animação àquele lar. Até baile dançante havia nessas ocasiões, sempre no grande salão que ficava próximo à varanda, onde por suas janelas a brisa atenuava o calor dos pares a dançar.

Cercado por vasta área com fruteiras diversificadas, o casarão enorme aos meus olhos de criança, hoje não me parece tão grandioso quanto antes, mesmo assim, ainda me impressiona. Duas escadas davam acesso ao primeiro pomar, onde se destacavam o Pé de Abacate com seus frutos de tamanho avantajado, as mangas Margarida e os suculentos e fartos Sapotis. Quando atravessávamos pela garagem que servia também como galinheiro, víamos muitos Pés de Cajá, e o chão sob os mesmos sempre salpicado de frutos fulvos, de inconfundível aroma e sabor. Soberanos e imponentes, resistindo bravos ao tempo, já àquela época nos fartavam igualmente, o Tamarindeiro e a Jaqueira com suas deliciosas “Jacas do Pastão”.

O esguio João, dos filhos o primogênito e conhecido como “Cachambinha” o intelectual, demonstrava pendores precoces pela literatura. Manoel o Soneca, nem tanto, contudo fazia jus em ter o prenome do avô. Francisco, dotado de inteligência acima da média, tinha pouca tolerância às brincadeiras, mormente as de mau gosto, e quando irritado fazia-se notar pelo rubro repentino visível em ambas as faces. Paulo, bem como José Henrique e Antônio Cezar, completavam o clã Alcântara de Meireles. Desses últimos surgiria um business man e excelente gourmet (Paulinho), o sociólogo e literato (Zeinho), e o jornalista e publicitário, (Toinho). Aquele sexteto conhecido por Irmãos Meireles era formado pelos netos de Senhorinha e Manoel Alcântara, e filhos do casal Meireles. A Mãe, uma Mestra carismática, destacou-se também na difícil missão do ensino da Língua Portuguesa; o Pai, dedicado funcionário dos Correios e Telégrafos, um homem culto e de ilibada conduta na comunidade.

À exceção dos mais jovens, os desafios entre nós parecia mesmo querer apontar um líder para o grupo. Entrar sozinho naquele úmido e escuro socavão, e ainda achar algo, cápsulas não deflagradas de balas de fuzil na maioria das vezes, denotava muita coragem e um grande feito; as corridas como velocistas, empreendidas sempre em pastos repletos de esquivos animais; batalhas na chácara velha, onde os caroços das mangas e das jacas eram por nós utilizados como munição; vencer também, não apenas por ser o mais rápido a subir nas árvores, mas, por conseguir alcançar e colher os frutos naqueles altos e frágeis Sapotizeiros. Nessa aventura vencia o mais arrojado e nem sempre o mais cauto. Jânio Azevedo, serelepe amigo, habilidoso qual um símio exibia-se com destreza como se um desses animais fosse, e quase sempre se sagrava vencedor. Não duvide caro leitor, o menino afoito gostava mesmo era de cair ao chão.

Lúdicos e saudáveis foram os momentos vividos por nós no casarão, uma vez que assimilamos dos obstáculos enfrentados, sua essência, e vencidos e vencedores se irmanaram sem que houvesse no grupo, a necessidade de um líder. Aprendíamos, por tanto, lições de cidadania.

Não posso omitir fatos inexplicáveis e desnecessários, como a derrubada inconsequente das belas cornijas que tão bem ornavam o Portão Principal da chácara, por um dos nossos amigos. Também surripiavam como se de fato fossem troféus, potes com caldas do vivaz Tamarindeiro, que a Matriarca Senhorinha produzia e pensava tê-los fora do alcance dos “Pestinhas” que tanto amava. Nosso território também incluía incursões pelos salões e quartos, nem sempre permitidas pelo anfitrião maior, Manoel Alcântara de Carvalho. A algazarra que fazíamos naquela manhã por certo irritou o ilustre poeta, que sem fazer alarde, sutil, entreabre uma porta e em tom imperativo, inquire: “Quem ousa perturbar o meu sono”. Ficamos agachados por entre os móveis enquanto seu neto João, com ares de pilhéria, me acusa: “Foi Rômulo Anjos, Vovô”. “Quem é Pomboângelos”? Uma pequena mão branca como se de luvas estivesse calçada se faz notar no vão da porta, e de novo fui denunciado: Foi Rominho, Vovô. “Quem é esse Pombinho”? Com a autonomia que lhe era peculiar, viu sem delongas acatadas suas ordens e o silêncio foi rompido quando dispersos corríamos para um novo campo de batalhas.

Persiste ao tempo como marco maior de uma época, imponente e histórico, o Casarão que o empresário e empreendedor, Paulo Alcântara de Meireles, se preocupou tanto em preservar.

Com a determinação e a fibra do falecido avô, transforma a propriedade em um requintado ponto comercial, o Lumiar Camping, onde no lugar do luxo, vê-se o bom gosto, estilo, e além de ser aprazível se destaca pela inigualável gastronomia francesa, onde o sabor da boa comida se mistura com a rica história do lugar. À frente desse sucesso, o mérito do Chef, Paulinho.

O Velho Casarão é um ícone dos Alcântara, e guarda no silêncio dos seus aposentos, histórias de uma família onde o fausto não se escondia, e nem a generosidade do culto e rico Patriarca. O ilustre filho de Lençóis foi amigo de Afrânio Peixoto, Ruy Barbosa, Horácio Mattos, dentre tantos outros notáveis que como ele, Manoel Alcântara de Carvalho, tanto lutaram pela Paz.

Dedico essa crônica aos Irmãos Meireles e em extensão à família Alcântara, homenageando seus antepassados que tanto fizeram por essa cidade, Lençóis, onde prevalecia o rigor da violência, e eles, com coragem e determinação, escreveram mais uma página de sua história.

Créditos- Rômulo Bispo (rbanjos@hotmail.com) * Lençóis – BA. 30/08/2009

domingo, 14 de março de 2010

.................Art - Paint Brush







...............CRIAÇÃO E ARTE NA PONTA DO MOUSE

A arte visual é um amplo canal de expressão e abrange formas e cores bem diversas.
Nessa edição apresento mostras, imaginárias, às vezes, mas incluo alguns casarios antigos.
Os desenhos, de minha autoria, compõem acervo inédito a partir do limitado Paint Brush.
Com o tempo a meu dispor, desafiei-me a criá-los, tendo como recurso apenas o mouse.

.........Autor - Rômulo Bispo.

P.s. (Desenhos com direitos autorais).






































































































































































































































































































































































































quinta-feira, 11 de março de 2010

STEVE - VOLUNTARIO DA PAZ


MEU PRIMEIRO PROJETO COMO VOLUNTARIO DA PAZ EM LENCOIS - (1970-73)

Quando cheguei em Lencois naquele epoca do onibus da ALTA PARAISO, soltei e fui recebido
por Seu Dim no bar dele na Praca principal da cidade. Ele logo me reconheceu como “gringo”
e me-ofereceu alguns brindos de pinga p/ver se eu caisse p/traz. Depois de tomar dois, pedi licensa e sai um pouco tonto p/a pensao Sao Jose de D. Julinha onde hospedirarei nas proximas meses…..

Assim eu “nasci” com um brindo de pinga e entrei na vida desta velha cidade pequena, quase escondida e esqueicida na Chapada Diamantina no coracao da Bahia.
No inicio quase nao falava Potuguese. A minha vocabulario estava pequeno e era dificil de
comunicar ideas ou ate frases completas. A minha “professora de lingua” era Dona Ivanyce
quem chegou todos as noites na hora de jantar, sentava-se na minha mesa e “gritava” (talvez
pensando que a minha falta de conversa era a surdez, ate que fiquei tao irritado com isto que comencei pegar a lingua e pude comencar ate me-comunicar aos poucos. Agradeco este
“tortura educative” que recebi dela.

Various pessoas me ajudarem no inicio como Olimpio Senna, Itamar Aguiar, e o Mestre Osvaldo quem sempre dava do seu tempo de conversar comigo e mostrar a sua preocupacao pessoal com a situacao precaria e a decadencia da sua querida cidade natalina.
Nesta altura, a estrada BR-242 que iria um dia ate Brasilia era ainda uma linha de barro pois o asfaltamento dela progredindo lentamente estava completo, vindo de Itaberaba so ate mais ou menos a entrada de Ruy Barbosa.

Com pouco tempo na cidade, teve a visita de um outro Voluntario da Paz, vindo de
Salvador de Rural. Ele chegou na estrada perto do ponto conhecido como a “entrada p/Lencois” depois do por do sol e no escuridao nao consegiu achar-la pois esta tal “entrada” parecia mais uma estradinha de terra entrando no meio da mata que talvez iria p/uma fazenda e nao uma entrada atual p/uma cidade. Ele ate passou direto, subindo a serra ate o “Posto” (casinha de taipa e barro com lanterna de kerosene) de Pai Inacio onde recebeu direicoes mais detalhadas e na sua volta achou a estrada de entrada p/Lencois chegando muita tarde da noite e achando a cidade - quase sumida no escuridao, com a sua rede electrica nada mais do que algumas luzinhas pinduradas em postes de madeira como se fosse algums fifozinhos ou vagalumes. Muitos bares teve que manter lanternas de kerosene pois a energia electrica fallava frequentemente especialmente em epocas de seca pois a energia estava toda gerada pelas aguas do Rio Lencois numa pequena hidroelectrica local.

Depois da visita do meu conterraneo teve a idea que o que faltava na tal “escondida” estrada
de entrada no mato era pelo menos uma placa que a-indicava a direicao p/Lencois.
Levei a esta minha idea ao um representante do poder publica local. Ele me-disse que a Prefeitura “nao tinha dinheiro” para fazer ou colocar tal placa e quem necisitavam saber o local exata da estrada de entrada no meio do mato p/cidade - ja sabiam….

Entao decidi que eu mesmo colocarei uma placa na entrada p/Lencois. Consegui madeira e
postes doadas por Sr. Deodato da sua serraria local. A madeira estava serrada numa forma de
“acertos”. Pintei (com tinto tambem doado) os 2 postes - pois vamos ir colocar duas placas - uma na entrada p/BR-242 e outra no entroncamento onde uma outra estradinha virava esquerda p/Remanso.
Com a minha educacao em desenho grafico, eu mesmo pintou as duas placas com o nome
da cidade LENCOIS e a kilomatragem 13KM naquela p/entrada e LENCOIS 4KM para aquela
do entroncamento p/Remanso.

Assim que as placas ficarem prontas, este mesmo assessor do Prefeito vem a mim e pediu que in vez de colocar o nome de LENCOIS nas placas seria “mais interresante” de colocar, usando os dois“acertos” os nomes de PALMEIRAS e ITABERABA demonstrando a kilometragem p/estes locais e nao identificando a estrada de entrada como a de Lencois. Achei a sua sugestao sem logica pois a placa era justamente feita p/indicar onde era a entrada p/Lencois.

Mas agora com uma retrospectiva e reflexcao a sua pedida demonstrava a mentalidade dos do poder local de manter Lencois no “escuridao e isolacao” e fora da vida moderna. Os seus
motivos p/manter este controle eram facil de intender depois de saber various aspectos
economicos e politicos mais complexos do lugar que naquela altura nao sabia….
Entao as placas feitas procurava um transporte p/entrada. Infelizmente ninguem ofereceu
uma carona os 13 kilometros a entrada. Ate o jeepao do Mestre nao estava pronta para
fazer esta viajem de “re-descrobimento” da cidade.

Sem ter transporte pedi a assistencia de alguns garotos voluntarios. E o nosso pequeno
equipe carregando baude, cemento, pa, poste e a madeira saimos a pe p/andarmos
os 13 kilomteros ate a entrada. Passando na frente da Capela parecia ate a processao do Sr. dos Passos com placa e posto nas costas sobre um sol quente e estrada longa.
Chegamos na entrada onde carvavamos um burraco p/o poste depois, encheimos com pedras
maiores e achando agua num corrego por perto, colocamos o poste com o cemento em baixo.

Assim erguimos a nossa placa “rodoviaria”, com o seu ascerto em direicao a Lencois. Como se fosse uma “bandeira de discobrimento”. Demonstravamos que a cidade, desta dia e diante, nao ficara mais “perdida ou isolada” e com esta placa simbolica abriamos uma “porta de entrada” para um futuro melhor e mais seguro p/todos os Lencoense.

Texto de Steve Horman – Voluntário da Paz em Lençóis em 1970/73 e o seu primeiro projeto.

Postado conforme sua autorização.

sábado, 6 de março de 2010

..L E A N D R O .B I S P O .L I M A

.................C A M P E Ã O N a t o

Era meio dia em ponto, e o sol no zênite, reinava absoluto naquela triste manhã fatídica.
A sombra dos parapeitos que não eram abundantes na estreita Rua da Boa Vista, foi disputada por dezenas de pessoas que se espremiam em busca de um lugar menos quente. Com ansiedade, esperavam pela chegada dos amigos de outras cidades, que confirmaram presença para juntos levarem ao Campo Santo, o corpo do saudoso atleta.
Os vizinhos, amigos e parentes, cansados e sonolentos pela mal dormida noite quando em desespero aguardaram pelo carro fúnebre, revezavam-se na vigília, prestando ali mesmo nas calçadas, ou debruçando-se nos peitoris das janelas, suas homenagens derradeiras ao corpo sem vida daquele jovem rapaz. Ali era, pois, a casa dos enlutados pais e irmãos, que não obstante as dores da separação buscavam o consolo nas orações.

Voltemos, portanto a outra noite, àquela que antecedeu a saída de um grupo de atletas, reunidos em festa, pois disputariam em uma cidade vizinha, jogos em modalidades várias, tendo como objetivo maior, a vitória do excelente time de basket.
Reunidos em uma movimentada cantina na Praça das Nagôs, muito a vontade, contavam causos e piadas entre um ou outro sanduíche acompanhado de suco, mesmo porque cervejas não tomariam pra que em boa forma física, pudessem viajar na manhã seguinte. Liderados por um técnico, professor de educação física e apaixonado pelo esporte de quadras, obedecendo às suas recomendações, foram todos dormir mais cedo.

O dia amanhece e os atletas de primeira viagem, ajudados por familiares, arrumavam as mochilas com roupas e tênis novos, que exibiriam logo mais em defesa dos seus times. Os veteranos já acostumados com intercâmbio esportivo sorriam tentando minimizar as tensões também notadas no semblante das garotas do conhecido time de handebol.
Enfim, bem humorados e determinados, partiram buscando conquistar medalhas e troféus, e curtiriam ainda um final de semana diferente em convívio esportivo. Participar desses jogos de confraternização também servia para a descoberta de talentos.
A animação daqueles jovens era como sempre, contagiante. Cantavam sambas de roda e todo repertório conhecido, tentando encurtar a distância e assim chegar logo naquela cidade também pequena, onde certamente todos seriam bem recebidos.
Faixas de boas vindas eram vistas penduradas entre postes de iluminação, demonstrando inconteste a força de coesão que há no esporte. Enfim, chegando ao alojamento foram recepcionados pelas pessoas que se dispuseram a acomodá-los junto aos seus familiares.

Recuperados do cansaço da viagem, e acompanhados do incansável treinador foram se organizando pra desfilarem até o local onde disputariam efetivamente, o torneio. Naquele instante a egrégora é fortalecida, pois é o momento em que os atletas de todas as cidades têm pra interagirem, desejando boa sorte para suas respectivas equipes.
Nem tudo necessariamente ocorre conforme o planejado. A disciplina, o bom senso e a humildade são fatores importantes na vida de um atleta. Naquela expedição, sem que pudesse ser evitado pelo professor e líder, fatos ocorreram, como por exemplo: ausência inexplicável de jogador importante no desfile; outros que pela inobservância das normas, excederam no uso de bebidas e tabaco, expondo não só o resultado das partidas, bem como a saúde do próprio jogador. Aqueles que assim procederam foram severamente repreendidos pelo técnico e logo depois reintegrados ao grupo.
O ginásio todo iluminado e repleto de torcedores, irradiava alegria. Feito o sorteio, vimos iniciado o primeiro dos jogos daquela noite esportiva.
O time de basket de Lençóis me faz lembrar a vitoriosa seleção do passado, da qual fiz parte, e atuando bem, brilhou em Bonito – BA. Aliás, não poderia ser diferente, pois tinha em quadra, Leandro, um jogador conhecido no meio, como Negão, “O Papa Medalhas”.

A manifestação daquela torcida organizada fazia chegar aos nossos atletas, incentivos pra que continuassem aguerridos e buscando sempre a vitória, por um placar esmagador.
A supremacia na equipe tornava óbvio o desfecho para aquela partida de basket.
Já se ouvia os aplausos vindos da torcida contrária, vez que nossos atletas faziam da quadra, uma similar pista de dança. Sem dificuldades, envolviam os oponentes com jogadas ensaiadas à exaustão, forçando-os a dançarem, literalmente, quase sem pegar na bola. Amadores, por certo, mas dentre eles havia um menino prodígio, que era campeão.
Naquela quadra, um jogador fazia a diferença. Era um negro alto e forte, jovem, mas já com histórico de ter vencido pela FTC, em um disputado torneio baiano de basketball.

Estava próximo o final da primeira etapa, quando o gigante negro bem servido que fora, sai da zona de defesa e parte com passos largos com a intenção de marcar mais alguns pontos. Se esquivando com habilidade, dispara em definitivo pra finalizar o seu intento.
Foi como se estivesse em jogo oficial e não em uma simples partida amistosa. Elevando-se o mais que pode e com os olhos fixos na tabela que se aproximava do seu rosto, num lance rápido e digno de aplausos, fez a tão conhecida, “enterrada”. Precisa e veloz como uma flecha a bola passou pelo aro e deixou no ar o inconfundível chiado ao atritar os ressecados cordões do cesto. A espetacular jogada fora completada.
Bela cesta, meu garoto”. Ao grito do torcedor anônimo, a galera se levanta e aplaude.

O apito do mesário se fez ouvir e um tempo técnico foi solicitado pelo time adversário.
Sem sinais de cansaço, os jogadores bem humorados seguiram o técnico e se juntaram aos reservas. Assimiladas todas as estratégias, o time se dirige à quadra pra etapa final.
O Negão se aproximou, sentou-se junto a um companheiro e sem qualquer evidência de dor ou lamento, declinou-se lentamente ficando de costas no frio piso de cimento. Foi cercado rapidamente de amigos que perplexos nada entendiam, mas, previam algo pior.
E o pior parecia mesmo que aconteceria. Olhos fechados, lábios lívidos, não sorriam mais. O que estaria acontecendo? O garoto forte, agora sem forças, jazia inerte no chão.
Inconsciente, foi socorrido pelo irmão e por dirigentes do evento que o levaram ao hospital. A noite iluminada e alegre, enfim mostrava-lhes sua face escura e melancólica.

A angústia se fazia notar nos semblantes, a tensão deixava todos em pânico, e o boletim médico era a única esperança pra ver restabelecida, a tranquilidade perdida.
Abraçados, rezavam pela recuperação do enfermo, mas a demora no repasse das informações irritou o técnico auxiliar, que num gesto impulsivo entrou na sala de emergência fazendo-se passar por tio do paciente. O médico, incisivo, deu-lhe a notícia que mais temia. “Fiz o que pude, mas o quadro clínico dele era irreversível.”

ELE NÃO RESISTIU E MORREU. Nada mais posso fazer, senão orar por esse jovem".
Foi derrotado em quadra por um mal súbito, o Negão querido, que fez sua “passagem” praticando seu esporte favorito, cercado de torcedores que sabiam ser ele um vencedor.
A notícia foi repassada ao outro técnico da delegação, que sem esconder as lágrimas, cedeu seu ombro amigo aos jogadores e jogadoras que sofriam com a triste realidade.
Sempre otimistas, planejavam a volta pra casa como vitoriosos, e sequer imaginavam fosse um deles colhido por aquela inaceitável e cruel fatalidade. Ímpio e nefasto destino.
Cabisbaixos, sem troféus nem medalhas, traziam no peito cada um deles uma flor branca imaginária, na volta aos seus lares. Os familiares acordados e tensos aguardavam os filhos derrotados pela dor da perda, inda que consagrados campeões daquele torneio.
Lençóis lamenta a notícia do triste episódio, e está certa de que a noite anterior fora terrível para o esporte e desportistas filhos seus. É lamentável a perda desse filho querido, orgulho sem dúvida para tantos amigos, de volta também à casa paterna, todavia, envolto em misterioso e trágico fim.

Como era previsível, uma multidão seguiu para a casa do falecido atleta, que há poucas horas brilhara em quadra ao fazer feliz até adversários pelas jogadas sempre precisas.
O repicar incessante dos velhos sinos anunciava o momento do enterro, enquanto o lar dos sofridos pais mais parecia um vespeiro silencioso, embora vez por outra visse rompido o silêncio pelo abafado choro de parentes e companheiros desportistas.
Religiosos se aproximavam para a bênção derradeira, onde o padre paroquiano e freiras, inclusive sua própria irmã, rezariam à missa de corpo presente.
O padre conseguiu com sua retórica convincente, passar a todos, sensação de paz e resignação, ao afirmar que a morte apesar de traumática, é um chamamento de Cristo. Que Deus tudo sabe, portanto tudo decide. Eis que foi feita sua vontade levando para si, aquele que há menos de vinte e três anos fizera nascer, para alegria de toda a família.

A praça principal ficou pequena quando por ela vi passar o cortejo fúnebre, levando com honras de campeão que fora, sobre um carro de bombeiros, o menino forte que de sorte não precisou pra mostrar que era predestinado a ser estrela, mas a morte o levou. Afirmar que aquele enterro em curso estava muito bonito, não era nenhum exagero. O fato é que as pessoas irmanadas seguiam umas às outras, em demonstração clara de solidariedade para com a família enlutada. Homens, mulheres e até crianças caminharam em absoluto pesar até o pequeno cemitério. Não muito conformados, muitos deles deixaram que rolassem as quentes e fartas lágrimas, antes contidas.

O momento final se deu sob um sol abrasador e inclemente, onde discursos de amigos e parentes pediam a Deus na sua infinita bondade, conforto espiritual para todos. Convictos na fé sabiam que o saudoso Leandro Bispo, pertencia desde a noite do dia anterior, ao seleto time dos “escolhidos,” cumprindo ordens do técnico maior, o todo poderoso, Nosso Senhor Jesus Cristo.

A multidão ainda presente, percebendo que chegara o instante da separação definitiva, ao ver que a urna funerária está sendo conduzida à sepultura, decide e faz como última despedida, calorosa salva de palmas que se fez durar por alguns minutos, em honra ao atleta Leandro Bispo, CAMPEÃO BAIANO DE BASKETBALL.


Essa é uma história real, baseada em fatos verídicos ocorridos durante intercâmbio esportivo, em Bonito, com a participação especial de atletas da cidade de Lençóis - BA.

Autor – Rômulo Bispo dos Anjos – ex-jogador de basket, em homenagem a Leandro. (31.05.08)