quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

........................B R U N A

.................A N J O S .D O .A S F A L T O

Descendente de uma família numerosa nasceu a Bruna. Apesar disso, tinha apenas dois irmãos com os quais dividia espaço no seu mundo encantado. Seu clã, em conseqüência, ficara reduzido a poucos elementos, portanto. Escolhida que fora por seus pais, a cidade em que moravam era serrana, possuía cachoeiras, e era entrecortada por um rio nada sereno em épocas de cheias. Ali, a família parecia estar feliz, e isso se percebia, pela afabilidade dos amigos.

Ramiro e Carmem, os pais de Bruna, ele bancário, ela professora, criavam seus filhos com a segurança de quem vive no interior de qualquer Estado. Uma vida mansa onde podia educá-los, orientando-os sem temer os riscos das saturadas metrópoles. Estavam tranquilos, planejando o futuro dos filhos que por certo sairiam um dia, pra estudar numa cidade grande.

O tempo passou rápido, e de repente sua primogênita que já contava com treze anos e era uma linda garota, surpreendendo a todos, disse estar grávida. A fantasia dava lugar à realidade.
Angustiados, e ainda assim, os seus pais não a abandonaram. Refeitos, procurariam outra cidade onde daria à luz a não mais inocente, Bruna, vítima do turismo sexual que avassala nosso país.

Como estava a quase menina que trazia no ainda juvenil ventre, a certeza de ter gerado as gêmeas? Com a garra das mulheres fortes, sem ceder ao pedido de aborto feito pelo pai que exibia seu passaporte de turista americano, abandona-o e abraça a missão de parir e criar as suas filhas. Nada a separaria delas, até porque sabia contar com a compreensão dos seus pais.

Decorridos alguns meses, o plano de transferência finalmente se efetivou. Partiram numa manhã fria, pois o inverno chegara. Deixaram pra trás as boas amizades, mas levavam com eles a lembrança das bonitas paisagens daquele lugar acolhedor, e, ainda, a certeza da chegada das netas. Já no nono mês da gestação, a garota Bruna se sentia à vontade e ansiava pra conhecer o novo lar.

Seus irmãos e pais a cercavam de carinho, e sabendo da proximidade do parto, viajavam em alta velocidade em detrimento da espessa e perigosa neblina que comprometia a segurança de todos.
Foi impossível, evitar a colisão; aquele vulto negro cresceu de repente e foi de encontro ao veículo.

O cavalo acidentado caiu em uma lagoa, próximo à estrada, e junto a ele o verdadeiro horror se estabeleceu. O carro é atingido violentamente e submerge em suas águas escuras e poluídas. Apesar da terrível tragédia não se ouvia gritos e nem lamentos, apenas o silêncio. Assim como o animal atropelado, também as pessoas, adultos e crianças tiveram as suas vidas ceifadas, e por afogamento.

O tênue fio que separa a vida da morte se rompera. Mas dessa vez, havia outro, conhecido como fio da esperança, que milagrosamente fez com que a jovem Bruna fosse arremessada de encontro a um monte de folhas secas que amortecendo sua queda, livrou-a de morte certa. Sim, estava viva, todavia, o líquido amniótico escorrido de sua bolsa, era o indício que ela estava prestes a dar à luz.

Na escura noite, além dos grilos cantantes ouviam-se os soluços da resignada gestante, buscando forças pra enfrentar o que estava prestes a acontecer. Sem surpresas, a previsão se concretizou.
Espasmos intermitentes fizeram surgir a primeira criança, e ao ser colocada na relva, fez lembrar o Menino Jesus que também em forragem, nasceu. Sem muita dificuldade também nasceu a segunda filha, porém o cordão umbilical envolto em seu pescoço quase lhe causou a morte, não fora a intervenção da corajosa menina agora transformada em mãe e mulher!

Algo estranho foi visto da estrada por um motorista solitário. De dentro da lagoa onde o carro caíra, de fora apenas ficaram os faróis que permaneceram acesos e apontavam pra o céu, como um sinalizador. Foi o bastante pra que o homem ao descer o terreno íngreme, entendesse que aquele quadro era resultado de acidente com animal na pista, pois o cavalo agonizava ali, próximo à lagoa.

Nada percebeu quanto a sobreviventes, entretanto, em meio ao coaxar dos sapos e rãs, ouviu o choro de neném. Quando se aproximou não viu apenas uma, mas duas recém-nascidas e pelo jeito estavam vivas e bem amparadas. Só não observou que a mulher seminua, assim se fez para que suas roupas aquecessem aquelas duas crianças, gêmeas, portanto, envoltas em um abraço, quiçá, o derradeiro. Não resiste e morre apenas uma garota bonita, sobretudo, uma mãe zelosa e abnegada.

Levadas rapidamente a um pronto socorro, as irmãs reagem bem e não mais correm risco de morte. Mamãe Bruna usara um bracelete pra fazer a incisão do cordão umbilical, mas não atentara para os riscos prováveis de uma contaminação. “A hemorragia a fez perder sangue e a sua própria vida”, dizia a enfermeira. Qual alternativa teria Bruna, face às circunstâncias? Perguntava-se outra!

Infeliz se dizia o desconhecido por não conseguir salvar a mãe das garotinhas, mas agradecido reconhece ser dela o mérito de hoje estarem vivas, e legitimadas por ele como verdadeiras filhas.
Senhor Ramiro e esposa, os filhos, inclusive a Bruna, foram enfim resgatados e sepultados em um mausoléu, gentilmente ofertado pelas enlutadas famílias daquela cidadezinha, por eles, tão amada!

Onde estariam as duas belas morenas, Carol e Carolina que tanto se assemelhavam à mãe?
Estão com o pai adotivo, que não por coincidência as fez Para-Médicas, e ambas trabalham não em clinicas e hospitais, mas são vistas sempre juntas nas Rodovias Estaduais e Federais, com a missão de salvar vidas humanas em acidentes rodoviários.
São conhecidas como os ANJOS DO ASFALTO, por socorrerem as vítimas de trânsito.

A Lagoa do Farol ainda existe, e é lembrada como o local do sinistro que culminou também na morte precoce de Bruna, uma adolescente que deu sua vida pra realizar o sonho de ser mãe.

Ergueram um busto em bronze e o colocaram rente à estrada, em homenagem póstuma à corajosa garota que conscientemente deixara de praticar o abominável e cruel ato de abortar.

Os motoristas poderão ver às margens da Lagoa do Farol, inscrição em letras graúdas, grafadas num mármore branco, com frases que provavelmente jamais esquecerão:


..........O MILAGRE DA VIDA TEM QUE SER PRESERVADO
.......O ABORTO É UM CRIME TAMBÉM AOS OLHOS DE DEUS
.........................Obrigada, querida mamãe.

............................Carol .e. Carolina


Lençóis – Bahia, 14 de fevereiro de 2009.

Rômulo Bispo dos Anjos.
......Autor do conto

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