Bispos e Anjos;
Costas;
Teles e Oliveiras.
Despertamos com um intenso feixe de luz que adentrou por uma fresta do telhado, invadiu sem cerimônia o nosso quarto, e anunciou um novo alvorecer. O dia que acabava de nascer era sem dúvida o mais lindo espetáculo visto na natureza; trouxe com ele um denso nevoeiro que restringiu e nos fez lamentar, que do sol o seu calor gratuito, ainda não podíamos dele, desfrutar. Àquela hora da manhã, nadar no riacho? Nem pensar! O frio, debalde, tentava manter-se ante a presença ofuscante da estrela maior, que logo iluminaria com seus raios, o nosso farto pomar.
Toda aquela geração de garotos sadios e sem vícios, formada de primos, sobrinhos e tios, fazia tremer o chão da velha chácara em não raros encontros de verão, quando os “Bispos e Anjos” se juntavam com inusitadas e variadas formas de agitação. A disputa pra quem subisse na maior Jaqueira, mesmo com torrenciais chuvas, não impressionava tanto quanto aquele que conseguisse saltar de um para outro galho nas copas das mangueiras. É evidente que essas peraltices resultassem em acidentes às vezes, sérios, a exemplo das fraturas de pés, braços e luxações pelo corpo. Também se destacava quem derrubasse com uma pedrada certeira, o mais alto fruto do não tão baixo, cajueiro. Entre uma e outra travessura, quais Griôs, contavam estórias, nem sempre verdadeiras. Entretanto, não havia um vencedor, uma vez que todos, sem exceção, mentiam.
O tempo parecia inexistir quando entrava em ação a garotada do eletrizado grupo familiar. Como as formigas também nós não parávamos, exceto em obediência ao horário de almoçar. Uma rústica mesa feita de tábuas de jaqueira estava servida não só pra nós, Oliveiras, Teles e Costas, bem como para nossos pais e convidados que ansiavam por degustarem a suculenta feijoada. Findo o almoço, logo pensávamos na sobremesa. Nossos estômagos de tão cheios mais pareciam roliças melancias, e, ainda assim, saíamos à cata das doces mangas Rabelo, exclusividades da nossa propriedade.
Fomos cercados por senhoras, algumas delas, nossas professoras, que esquecendo as etiquetas e regras de higiene, se fartavam com os frutos caídos ao chão. Embaraçadas, portanto, não souberam responder à pergunta a elas dirigida pela sábia, Angelina: “Por que não usam vocês também, a higiene e boas maneiras que ensinam em suas escolas”. Ante o silêncio, uma frase foi proferida em uníssono: “Bobagens, professoras; o que não mata, engorda”. Aquilo era um sofisma, claro, mas amenizou o merecido constrangimento por elas sofrido. Sempre franca, assim era minha mãe.
Em nosso tour pela chácara não nos limitávamos apenas ao lazer e à degustação. Ajudar nas tarefas diárias nos fazia sentir úteis, e ainda adquiríamos novos conhecimentos. Nosso criativo pai, que por tantos netos foi chamado carinhosamente de: “Vô Zidoro”, Ioiô ou ainda por “Meu Vô, percebe que aquele desativado barreiro poderia ter melhor proveito, se construísse ali, o forno por ele idealizado.
Dentro do seu bojo em brasas e alimentado por nós com troncos e galhos secos, dezenas de abóboras assavam com o propósito único de nutrir a criação de suínos para o consumo interno do nosso clã. Adotado e com irrestrita liberdade, o porquinho albino de codinome “Relógio” era diferente dos demais e fazia jus ao apelido. Guiado pelo aroma da boa gastronomia caseira, se juntava a nós, e na cozinha, sob a mesa, grunhia insistente pra ser servido primeiro. Poupado por ser inteligente e dócil, nem como adulto e bem cevado, correu o risco de ser transformado em churrasco. Além do pontual “Relógio”, o porquinho, estava prestes a juntar-se à nossa família, outra mascote.
Em meio a um viçoso plantio de macaxeiras foi construída uma Casa de Farinha. Extraía-se das suas raízes, depois de passarem por toda a cadeia de produção, uma branca e fina farinha de mesa. O barulho do pequeno motor quando cessado, era sempre substituído pelo canto dos motivados trabalhadores naquela divertida, porém cansativa arte de transformar tubérculos em nutritivas substâncias. Senhoras, moças e rapazes se revezavam nas tarefas rotineiras da fábrica de alimentos.
Nosso saudoso pai, artesão e funcionário Público da Fazenda, lavrador nato, quer mais e inicia novo plantio, agora de sisal e de fumo em folhas. Alguns parentes convidados chegaram e trouxeram animais de carga, como “Jardim e sua mãe, Jardineira”. Esqueçamos as plantações e vejamos a história desse pequeno asno. Com seu jeito moleque de ser, chegou e se fez a nova mascote. Enquanto “Jardineira” trabalhava feito uma jumenta que na verdade era, ele já crescido e fogoso, rompia cercas em busca de romances às vezes bem sucedidos. As queixas contra ele, que elogios bem poderiam ser, eram assim ao meu pai, dirigidas:
“Solicitamos urgente solução contra esse jegue tarado, que apesar do seu pequeno porte não lhe falta o assédio das parceiras, ao que presumimos ser ele, um bem dotado”. “Depois da correria pelas ruas e becos, consuma seu libidinoso ato, em praça pública”.
Detido em cerca reforçada, não resiste e foge. Dias depois, contam os mais velhos, nós o encontramos na Rua do Lavrado, ferido e ensanguentado. Era nosso “Jardim”. Foi morto com uma estaca cravada em seu peito por um perverso e maldito soldado. Superada a perplexidade tudo volta à normalidade, exceto para “Jardim”, o tesudo. “Jardineira” foi levada de volta, mas como “avó”, deixou muito mais que vinte netos espalhados pelas ruas da cidade.
Naquele lugar também eram bem-vindos os filhos que eventualmente voltavam à casa paterna. Não havia preconceitos, e logo os recém chegados se tornavam nossos irmãos. Havia próximo à sede e abaixo do Tanque da Companhia, uma casa modesta onde residiam pra nossa felicidade, os primos: Silvandira, Sinval, Robério, e a mãe deles, a mana, Jandira. Sempre ouvíamos seus bons conselhos, e fazíamos dali, nosso porto seguro. Em um dia qualquer, atendendo a uma solicitação, fomos fazer compras na cidade, e por lá nos distraímos. De repente, anoiteceu. Sim, a noite havia chegado. Faltava-nos coragem, virtude que sabíamos não possuir, pra sozinhos, retornarmos à chácara, depois de ouvirmos aqueles “causos de defuntos e lobisomem”, que povoaram de medo, nossa imaginação.
Tão medroso quanto eu, o mano ficara apavorado ante as estórias contadas e teatralmente encenadas, pelo simpático amigo da família, o macilento “Babau”. Aceitos os nossos argumentos fomos alimentados por ela, a generosa mãe do “gago” contador de causos, que nos induziu a pernoitar. Em nossa casa certamente estavam todos preocupados conosco. “Por que não chegam logo, esses demônios de garotos”? Bradava nossa mãe, já angustiada! Era tarde da noite quando se lembrou de uma amiga que morava não muito distante, e foi à nossa procura; ali dormíamos o sono dos anjos. Depois de muita conversa, a pedido de nossa anfitriã, resolveu por não nos acordar. Aquele não seria um bom dia pra nós; tínhamos certeza disso. Amanheceu e fomos pra casa, envergonhados, todavia, não relutaríamos em relatar sem nada omitir, toda a verdade dos fatos.
Chegamos confiantes, e a nos recepcionar com a palmatória em mãos nosso pai nos fitava, mas não víamos ódio em seu semblante. Ao seu lado como para nos proteger, estava uma mãe carinhosa, mas aprovara tal atitude. Duas palmadas e um bem aplicado sermão nos fez convencidos do erro. O amor que nutríamos por eles era bem maior do que a suposta dor pela punição. Absorvido o ensinamento, não o julgamos como um castigo, apesar da imagem apavorante da palmatória, um mero inibidor psicológico. A missão de transformar filhos em cidadãos se inicia em casa, pelos pais, mas pode ser frustrada pela ação criminosa dos padrastos de plantão.
Acompanhados já de filhos e filhas visitamos às vezes a chácara onde morávamos, palco de tantas estórias, e reverenciamos a memória de nossos falecidos, pais. Árvores, riachos, enfim, cada pedaço daquele chão, além da emoção, nos faz ver quão fortes foram nossos laços de fraternidade e união.
Todos os filhos e netos desse clã são gratos a Izidoro e Angelina, por serem hoje, Pais e Mães, probos.
Fim
Autor – Rômulo Bispo/maio/09.
Autor – Rômulo Bispo/maio/09.
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