terça-feira, 11 de maio de 2010

......LUIZ OLIVEIRA









...............UM MENINO VIRTUOSO. ..........(T a t u)

De índole humilde, aquele menino irrequieto desde muito pequeno demonstrava um quociente de inteligência bem mais elevado do que o dos seus outros irmãos, também dotados de muita inteligência. Era filho de um garimpeiro e excelente lapidário, Sr. Almir Andrade, vulgo, Tonico. Muito observador já que pouco falava, foi aprendendo com seu pai, no dia-a-dia, a arte de comercializar as pedras preciosas, como diamantes brutos, brilhantes e até os carbonatos.

Luiz Oliveira de Andrade, de codinome “Tatu”, tinha pequena estatura, olhos miúdos e muito espertos. Cortez, ele sabia ser agradável também fora do âmbito profissional.
Demonstrou facilidade no aprendizado escolar, com ênfase em ciências exatas, e se destacou em matemática, matéria que tanto lhe auxiliaria na profissão que teria no futuro.
Não poderia deixar de frisar que se formou em magistério e cursava faculdade de direito.
O garoto honesto gozava da confiança dos donos de dragas, os quais lhe repassavam lotes com raras pedras preciosas e isso lhe rendia bons lucros. Estimulado pelo pai, com capital familiar, iniciou seu próprio negócio. Pouco tempo depois, já como sócio do cunhado, assimilando com ele experiências em extração de diamantes, rendeu-se à nova profissão.

Casou-se com uma nativa filha também de um garimpeiro, Anízio Macedo, e com ela, Wilma, teve duas filhas: Luma e Luíza Macedo, a caçula.
Amadurecido, o negociante forte em compra e venda de pedras não deixou de lado seu vínculo familiar. Admirado que fora na sua infância pelas tias Maria e Alda Ribeiro de Andrade, dizia sempre que por elas nutria respeito e afeição. Era comum vê-lo visitando-as e lembrando-se das travessuras vividas naquele casarão; ali também residia Cássia, que por sua tia consanguínea Maria Andrade, fora adotada desde que nascera.
Participei com ele em muitos desses encontros de família, pois namorava sua prima Cássia, a qual se tornou minha esposa, e também por isso, estávamos sempre reunidos naquela casa.

Lembro-me que Luiz, um “Tatuzinho” ainda, acidentou-se quando brincava em umas das janelas do salão; também caíra de um velho “Pé de Cajá” que ficava nos fundos da casa. Muito traquino, quase sempre se envolvia em pequenos acidentes, mas nenhum se igualou àquele que o levou ao hospital, quando caiu em um tonel sem tampa. Com fortes dores teve sério inchaço na virilha, pois descera até o vasilhame onde havia se machucado, de pernas abertas. Ao visitá-lo, como “cadeirante” corria veloz pelos estreitos corredores, exibindo não apenas seu restabelecimento, mas, a ansiedade de viver, de um predestinado, vencedor.

Ele administrava “um dia qualquer”, como se aquele fosse o derradeiro, e era visível seu interesse e dedicação em tudo que fazia. Esse traço lhe era peculiar, e justificou seu rápido e invejado sucesso. Candidatou-se a vereador e foi vitorioso, mas um imprevisto o impediria de executar bons projetos em benefício da comunidade. Empossado que foi, o egrégio edil ainda que por um ano prestou relevantes serviços àquela Casa de Leis, e até hoje é lembrado por seus “pares” e munícipes. Seu nome em placa de bronze nomeia um dos salões da Câmara de Vereadores de Lençóis, em justa homenagem, feita por aquela Nobre Instituição.

Os negócios prosperaram de tal forma que era já admirado e visto como um grande empresário. Além dos garimpos de dragas que possuía em sociedade, outros foram adquiridos muito longe, obrigando-os a comprar um pequeno avião que encurtaria as distâncias, tornando mais fácil o controle dos empreendimentos feitos por ambos os sócios.
Algumas viagens aéreas foram feitas e tudo parecia estar de acordo com o planejado.
Havia um detalhe! Há quem diga ter ele afirmado que tinha muito medo de aeronaves e que não mudaria sua opinião a respeito de voar. Havia nascido o tatu pra andar! Por que voar?
Sim, era preciso e imperioso. Mesmo relutante pô-se a viajar em busca dos seus objetivos.

As pessoas ainda em meio a uma tediosa manhã percebem o inconfundível ruído de um pequeno avião se aproximando, e rasgando os céus com seu único e barulhento, motor. Era, pois, a aeronave que voltando de uma de suas viagens faria como de costume um voo rasante, indicando aos familiares dos sócios, da sua chegada no aeroporto.
Curiosos às portas das casas volviam seus olhares para o alto, na tentativa de ver o avião.
O que mais intrigava, sem dúvida, era o ruído do motor que não podendo manter uma aceleração contínua, tinha sua potência cortada, ameaçando parar seu funcionamento.

Perplexo e tão estarrecido quanto os transeuntes, eu estava próximo a um bar, quando vi passar um carro branco, dirigido pela esposa de um dos tripulantes do monomotor, em pane.
Percebido o sinal, aquele carro iria à busca dos ocupantes que estavam chegando de avião.
Enquanto isso, o barulho ensurdecedor foi sumindo aos poucos e muita gente pode ver a pequena aeronave que com seu motor a tossir, tentava dar a volta sobre o rio Lençóis.
Sem que pudéssemos entender o que de fato ocorria, até porque foi muito rápido, desapareceu na serra por detrás do Grizante, agora apenas como um pequeno ponto escuro, a nave agonizante levando em seu bojo a expectativa de vida, talvez de morte.

Os segundos pareciam intermináveis quando se elevou com a magnitude de uma explosão atômica, o bizarro cogumelo de fumaça negra. O pânico tomou conta das pessoas, que atônitas corriam sem direção, mas sabiam que algo ruim acontecera. A multidão se dirigiu às pressas ao local da presumível tragédia, inclusive autoridades policiais e os salva-vidas.
Amador, mas com experiência como cinegrafista em resgates, peguei minha câmera e segui esperando registrar não um provável desastre, mas, um grande milagre. Fui para a serra!

A trilha calçada com pedras e areia não me permitia um rápido acesso, mesmo assim, muita gente havia chegado ao local. Vez por outra encontrava alguém descendo transtornado, e sem esconder as lágrimas, dizia não ter conseguido prosseguir rumo ao pico da serra.
O grupo tendo à frente um Delegado de Polícia parou à minha solicitação para que eu o entrevistasse. À primeira pergunta, veio a resposta que eu temia. Sim, ratificou o policial. “O avião que há pouco sobrevoava a cidade, explodiu depois do choque com os rochedos e à sua volta tudo está em chamas. Não houve sobreviventes e os cadáveres estão sendo consumidos e carbonizados pelo fogo que tudo queima e avança incontrolável”.

Chegando ao local, vi destroços do avião por toda parte. O pequeno motor que tanto esforço fizera pra se manter acionado jazia chamuscado e envolto em labaredas; finalmente se calara.
Tudo em volta era silêncio! Apenas olhos incrédulos se moviam na expectativa de que alguém pudesse ter sobrevivido incólume, daquele incontido, inferno em chamas.
Os gritos de dor daquela corajosa e sofrida mãe se fizeram ouvir nas serranias, quando ao se aproximar do suposto filho afirmou em prantos: É ele! Esse é o meu Luiz! Oh, meu filho!


Embora sem a comprovação de um laudo pericial, desnecessário, portanto, os outros corpos foram identificados como sendo do piloto do avião, e do cunhado e sócio, de Luiz. Analisando as imagens dos destroços da aeronave, a Aeronáutica sugere que a navegação aérea sobre a cidade pode ser segura, se respeitados no plano de voo, os limites de altitude.

Há pessoas que conseguem o benefício da longevidade e não tiram proveito disso; outras, como o saudoso Luiz Andrade, por viverem intensamente realizam seus sonhos e deixam como legado maior, exemplos e virtudes, além dos merecidos patrimônios conquistados.

Luiz, um menino invejado e rico, não juntou apenas, bens materiais. Conseguiu sendo um Jovem Virtuoso, acumular riquezas muito mais valiosas que as jóias e brilhantes, por isso sua passagem apesar de precoce, não foi em vão. Deixou com sua esposa e filhas um legado inexaurível: O tesouro da Espiritualidade, do Amor Fraterno e da União Familiar.


Desastre aéreo em Lençóis-Ba. (As gravações da R.B.Vídeo foram cedidas à Aeronáutica).

Créditos- Rômulo Bispo dos Anjos. Setembro de 2008.

3 comentários:

  1. Apesar de tantos anos do ocorrido, o relato me tocou profundamente... Realmente uma perda irreparável!

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  2. RECORDO-ME QUE EU QUANDO CRIANÇA, OUVÍ MUITOS COMENTÁRIOS SOBRE ESTE INCIDENTE. PORÉM, SOMENTE AGORA, DEPOIS DE SEUS RELATOS, PUDE TER CIENCIA DE MAIS DETALHES.

    Marília Mirella

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  3. Quando criança vi a eoronave sobrevoar a então imensa árvore à porta de minha casa o saudoso Jenipapeiro, não podia imaginar que viria ocorrer tão grande tragédia porém me recordo do ruidos feito pelo motor, e dos gritos dos moradores da Rua Vai Quem Quer dizendo: Caiu , o avião caiu!.
    Todos assustados porém ninguém poderia fazer nada o que fico feliz hj ao ler e ao mesmo tempo emocionado é de por foto conhecer uma pessoa ilustre de nossa cidade que eu não conheci em vida. Parabés Romulo por ter me dado a oportunidade de conhecer essa pessoa Luiz (Tatu) que aonde vou ouço muito bem de tudo o que fez na vida.

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