...................POTIRA - Inocência e Pecado
Por Rômulo > 25/12/11
Como qualquer criança, ela brincava de roda, pulava corda, e dentre todas, a indiazinha Potira era a preferida da aldeia. Os cabelos negros e lisos reluziam ao sol, e bailavam livremente ao sabor do vento. Juntou-se também aos demais irmãos e primos, a menina que contava apenas doze anos de idade, mas dava mostras de coragem e sabedoria. Exibindo destreza, se agarra com firmeza em um galho que pendia da Gameleira vivaz, e se lança num mergulho acrobático com a precisão de uma exímia, campeã olímpica! Naquela tarde quente, as crianças exauridas pelo calor, resolveram banhar-se nas águas do Rio Tory.
Observadas à distância, sequer temiam da Sucurí faminta, o seu ataque fulminante. A convivência com situações de risco era algo tão natural, que elas usavam apenas a intuição como defesa ao perigo iminente. Despreocupados, os índios se ocupavam da rotineira caçada, enquanto suas mulheres preparavam o jantar, onde podiam farta-se com beijus e peixes assados na palha da bananeira. Findava assim, o dia na aldeia".
O amanhecer, que em nada lembrava os centros urbanos, chegava e enchia de sons, alguns bucólicos como o canto da Araponga, e outros maviosos, qual o do Rouxinol, despertando a todos para um novo dia! Os adultos reunidos naquela manhã, me faziam crer na quebra da rotina, em breve, pois alguns traziam do mato ali perto, muitos troncos, cipós e palhas. Começaria nova atividade dentro do círculo festivo da Aldeia.
A iniciação sexual, como de praxe, acontecia muito cedo, até mesmo pela irrestrita liberdade que tinham. Bons observadores, viam dos animais silvestres, o coito; e por quê não imitá-los? Instintivamente, trepavam.
Seguindo os ditames já estabelecidos, a entrega em definitivo das supostas virgens aos parceiros, atendia a um ritual, quase macabro; teriam que mostrar bravura e coragem, nas provas, pra conseguir delas, o amor!
Potira, qual fêmea de leopardo no cio, exalava ferormônios, e aguçava dos participantes, a sua conquista. Era de fato, muito bonita, e seus seios rijos despertavam nas concorrentes, o sentimento vil, da inveja! Separadas dos outros adolescentes, as meninas em cárcere privado, ansiavam pelo início da competição que lhes restituiria a liberdade, e a chance da procriação. Ao vencedor, o direito da perpetuação da espécie.
Os índios que postulavam a vitória no embate, vestiam uma espécie de tanga de tecido natural do babaçu, abundante na região. Na cabeça, usavam da mesma planta, os frutos, unidos, formando uma vistosa tiara. À frente das duas colunas formada pelos jovens, havia um fosso, onde teriam que atravessá-lo tendo às costas uma tora muito pesada. Vale ressaltar que seriam tentados a parar também pelas ferroadas de formigas pretas e venenosas, previamente selecionadas e colocadas na madeira. O martírio começava...
De repente, surge por trás da oca onde estavam, um índio adulto e convence a ingênua Potira a deixar-se por ele ser pintada. Afirma que seria rápido, e que voltariam a tempo pra ver iniciada, a competição. Agarrada pelos cabelos, somem os dois pelo milharal, à cata, dizia enfático o malfeitor, de tintas especiais. Enquanto isso, competiam com a determinação de titãs, os guerreiros, pois sonhavam receber do chefe, o prêmio mais importante e cobiçado por todos...a indiazinha dos lábios de mel - Potira!
Deitada à força, cede aos caprichos do astuto e malvado índio, seu irmão de sangue. Sim, haviam nascidos da mesma mãe, e eram filhos do poderoso Cacique Aimoré. Impedido de concorrer por motivo óbvio, o filho planeja e cumpre seu insano desejo de possui-la. Violentada várias vezes, volta cambaleante, e desmaia ao ser amparada pelo próprio, Pai - o valente Acauã. Momentos antes ele validara a vitória do seu futuro genro. O incesto não era uma prática do índio, traço esse, herdado do homem branco e cristão, que o catequizou!
Atendendo ao grito de dor daquele pai sofrido, toda a aldeia em pé de guerra se mobiliza em busca do depravado nativo que maculou e envergonhou o povo indígena. A festa não mais continuaria, pois piorava a hemorragia decorrente do bestial, estupro. Seus lábios entreabertos não mais cantariam, e nem seus olhos poderiam ver novamente o por do sol, pois se fecharam para sempre. Inerte, ela jazia nos braços do Pai.
As toras e as palhas antes recolhidas pelos guerreiros, ardiam numa enorme fogueira. As altas labaredas pareciam das suas contorções, querer passar a ideia de serem festivas, pois elas dançavam. Dançavam frenéticas as chamas, ao som de gritos horripilantes que vinham do moribundo assassino da linda Potira. Com músicas e gritos de júbilo, os índios batiam os pés descalços no chão, numa ritualística toda especial...
Em transe, e num círculo que lembrava a "cadeia da união", executavam a temida, DANÇA DA VINGANÇA#
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