quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

...................O .N A T A L


........................A. .F E S T A. .N A T A L I N A

O que de fato existe? Natal, ou o tão esperado período natalino? De braços dados, há muito a mídia nos induziu a conviver com essa dupla farsa. Pra poucas famílias, um Natal cheio de alegria e prazer, é fato; mas, para a maioria, o engodo do desenfreado consumismo.

Em Belém, os sinos dobraram um dia, anunciando o nascimento de Jesus, o menino. Sem a pretensão de ser um Pop Star e humilde desde sua origem, se fez uma realidade para seus seguidores; viveu com "Pais Escolhidos", mas não escolheu de quem seria Pai, um dia. Ao cumprir desígnios divinos, brilharia mais que a Estrela Guia e se tornaria em breve o Pai de toda a humanidade cristã. Nascera o Jesus de Nazaré, aquele que poderia ser chamado, Papai Noel.

Seus ensinamentos e exemplos como verdadeiro Filho do Deus Pai, fazia daquele homem de inteligência superior, ser destaque inconteste entre os doutores da época, quando semeou sua mensagem de Paz e Prosperidade. Difundiu a Fé e o Amor fraterno com a sabedoria de um Rei.

E o que vemos hoje? Pais e Mães que se esquecem ou ignoram o verdadeiro espírito natalino e se comprimem num frenesi alucinado em busca do presente ideal para seus filhos e parentes. Quão bom seria se junto às oferendas, víssemos o propósito de uma mensagem cristã, menos hipócrita, enfatizando os verdadeiros motivos do Natal: A fé em Cristo, e a difusão entre os povos, da necessidade de termos um mundo cheio de Paz, Prosperidade e mais Harmonia.

Nas noites iluminadas pelas coloridas micro-lâmpadas, e aí são milhões delas, ao som bucólico das músicas tradicionais natalícias, nos reunimos em família. A troca dos citados presentes fortalece os laços de amizade, inda que reconheçamos, alguns se perdem ao apagar das luzes.

Nem tudo é só alegria nessas festas regadas ao bom vinho, tortas e frutas cristalizadas. Não raro, vemos alguns repartirem esse momento fraterno com pessoas que abandonadas pela sorte, se isolam sob pontes e viadutos à espera dos abastados, mas, também ricos de coração. É certo faltar-lhes a boa comida, entretanto, aquecidos pelas chamas das fogueiras, demonstra em seus semblantes a fartura do amor familiar. A fraternidade sobrepõe-se à fome, portanto.

É Noite de Natal, mas não estou feliz, apesar do conforto que me cerca. Ao alcance das mãos, tenho o suficiente para aquela que seria nossa grande Ceia, no entanto, falta-me o essencial, pois estou distante da minha querida família que completaria meu sonho de confraternização. Vi sobrar criatividade quando fiz pra nosso deleite, um jardim trabalhado em detalhes natalinos, que iluminado pelas luzes de enfeites de rara beleza, faria a minha festa mais linda.

O Natal de fato existe, embora sua essência venha se perdendo ao longo do tempo. Posso assegurar que o momento maior de minha felicidade nessa festa que não aconteceu, não estava entrelaçado às luzes e nem às guloseimas sempre fartas, mas, à notícia de que seria em breve, avô, pelo nascimento da primeira netinha, a filha de minha primogênita, Milena.

Pouco depois do anoitecer, não mais brilhavam as luzes no meu jardim já sem os enfeites de Natal, os quais foram por mim retirados por entender que estavam ofuscados pela ausência da minha família, que circunstancialmente não pode estar presente nesse encontro tão especial.

Parabéns, Milena! Estou convicto de que no próximo Natal estaremos reunidos, e a festa terá mais brilho pela chegada tão esperada da sua filhinha que certamente fortalecerá o Espírito Natalino que tanto buscamos preservar na nossa grande família.

Feliz Natal e um Próspero Ano Novo com muita luz e Paz.

Rômulo – 24 de dezembro de 2009.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

..................SENHOR DOS PASSOS











................O GUIA DOS NOSSOS PASSOS

Concluí que a festa de Senhor dos Passos, em número e grandeza religiosa, só perde para a de Bom Jesus da lapa. Lençóis se destaca também ao se tornar centro de visitação ao culto religioso. Devido às reformas na Avenida e também na Igreja, os festejos foram transferidos para a matriz do Rosário, que acomodou muito mais gente e ficou mais confortável para a comunidade católica.

Dois de fevereiro chove! Isso é tão certo quanto à serpente que levantará voo, se em procissão, Senhor dos Passos não cruzar a ponte. Seria só uma lenda urbana? Acreditem! Choveu de novo.

Os instantes que antecederam a saída do cortejo foram de ansiedade, pois a chuva que ameaçava logo se precipitou muito forte. O vento e a água que despenteavam os fios sintéticos nas perucas das imagens à porta da Igreja, também incomodavam as madames em trajes suntuosos e calçados de saltos altos. Outro problema visível, era o temor das jovens que bem vestidas, tinham os cabelos previamente alisados e não poderiam sair porque a chuva forte teimava em não parar.

Enquanto isso, postada sobre os doloridos ombros dos homens e mulheres, via as imagens de Mãe e Filho, já molhadas, sem a certeza de que poderiam ser levadas em procissão. Os sinos que anunciaram pouco antes o começo do cortejo se calaram para que o sacerdote em dúvidas decidisse sobre o início da caminhada. O andor de Nossa Senhora das Dores que estava no adro, foi recuado e a Santa viu que mesmo com a torrencial chuva, o Senhor dos Passos começava a ser levado pelo povo. "Voltem e esperem um pouco mais”, dizia o padre aos fiéis! Mas aqueles homens, católicos fervorosos, ansiavam pra quitarem suas promessas. “Queremos carregar o Santo, de qualquer jeito, até mesmo na lama”, diziam inconformados. Sem ser ouvido, o Padre celebrante também junto ao povo, acompanhou em passos rápidos, agora também com a imagem da Santa, a procissão que de fato se iniciara.

Naquele instante, tive a certeza da fé daquele povo, e que Senhor dos Passos não era apenas uma imagem grande, não! Também era considerado o símbolo maior do surgimento da nossa cidade!

As graças alcançadas, fizeram desse povo, fiéis escudeiros dos nossos costumes e crenças. Mesmo voltando-se contra o pároco, desrespeito não houve, pois já acostumados, carregaram em anos anteriores sob aguaceiro também, a tão valorosa imagem do Santo, co-padroeiro da nossa cidade.

Já sem a chuva, rezavam e cantavam espremendo-se pelas estreitas ruas da cidade, acompanhados também pela conceituada Filarmônica, Lyra Popular de Lençóis e Cítara, centenas de pessoas unidas pela fé e pelo pouco espaço que dispunham pra caminhar.

A marcha dos fiéis foi de rua em rua, atravessando praças apinhadas de turistas que respeitosamente levantavam-se pra tirar fotos e filmar aquele show de fé que nos remete à música de Gilberto Gil, no trecho que diz: "Olhe lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão".

Suada e ainda molhada, foi se aproximando do final, toda aquela gente que de alma e corpos lavados, cantavam com o mesmo entusiasmo, o tão conhecido quanto o Hino do Senhor do Bonfim, o poderoso Hino do nosso querido Senhor Bom Jesus dos Passos.

A saudade aperta-nos o peito pela ausência dos amigos e dos conhecidos que passaram para o oriente eterno. Crescemos vendo-os participando dos festejos, e com alguns, tivemos o prazer de dividir espaço e caminhar com eles pelas ruas lado a lado. Cometerei injustiça em não me lembrar do nome de muitos deles, entretanto, permito-me citar: Cícero Preto, Seu Maninho, Frederico, Natalino, Dona Santinha, Toninha, e meus queridos pais e mentores, Angelina e Isidoro Bispo dos Anjos. É bem provável que se recordem de tantos outros não citados por mim, mas que abrilhantaram com suas presenças ao longo de muitas décadas, o nosso dois de fevereiro.

A cidade hoje é composta de vários segmentos religiosos, entretanto, o convívio harmonioso entre eles é uma realidade. Não creio na possibilidade de um mesmo relacionamento da comunidade católica conservadora e também de moradores junto a uma minoria de empresários da área de turismo, posto que, insatisfeitos, disseram-me alguns nativos, não pouparam criticas a alguns de nossos costumes, como por exemplo: Fogos de artifício nas alvoradas e também nas missas diurnas e noturnas; Show com banda musical mesmo ao término das noites do novenário.

Deixaram transparecer a intenção futura da quebra desse traço cultural. Justificavam que essas atividades incomodariam e quebrariam a paz que tanto buscavam os turistas. Ao que parece, teríamos que abrir mão de parte de nossa cultura religiosa, para que a cidade fosse vista tão somente pelo aspecto natureza e turismo. Frustradas tais intenções, o certo é que haja o bom senso e, natureza, tradição, filhos da terra e empreendedores outros, convivam em harmonia.

Voltemos ao final da nossa festa religiosa, aonde pouco vimos daqueles que só acreditam no fortalecimento de suas contas bancárias. Daqueles que se preocupam mesmo é com a defesa dos seus bens patrimoniais, acobertados por um pseudo amor pela nossa terra.

A Igreja Matriz ficou lotada com o retorno das imagens e pelas pessoas que não esbanjavam senão, o poder da religiosidade.

É isso que faz a diferença. Lençóis não pode viver sem o turismo, é verdade. Também é verdade que pela força da tradição, dos costumes e dos traços religiosos, é que o turismo se fez uma realidade para todos os segmentos da nossa comunidade.

A noite chegou e vimos iniciada a missa final. Com a mesma disposição do dia, os romeiros vindo de outras praças, ainda faziam suas últimas preces, onde se ouvia claramente pedidos de que pudessem retornar no ano seguinte com a mesma saúde e fé, redobradas.

A bênção final foi dada ao som do Hino dos Garimpeiros e em seguida o toque inconfundível da Lyra, com o Hino ao Senhor Bom Jesus dos Passos, fechava com louvores, nossa grandiosa festa.

Zelar pela tradição e pelos nossos direitos vai ser sempre nosso ideal. Tudo que vier em fortalecimento dessas causas terá importância, pois fortalecerá nossas origens e nos identificará como um povo. A identidade de um povo é sem dúvida, seus costumes e a sua tradição.

Créditos- Rômulo Bispo.
Lençóis - Ba, 02 de fevereiro de 2008.

sábado, 21 de novembro de 2009

...................O VOO DO SABIÁ



.........A...... V I D A...... P O R...... U M...... F I O

Caía a tarde, e o sol agonizante no crepúsculo, indicava o fim de mais um dia sob um calor infernal. Como paisagista que me fiz, refestelado nas grades do meu jardim, contemplava aquelas estrelas recortadas na grama verde, minha criação mais recente em alusão ao Natal.

Meu vizinho molhava suas plantas, que sedentas, clamavam por aquele banho refrescante. Findo o trabalho e com minhas ferramentas já recolhidas, como ele, aspergi água em minhas rosas quase todas elas murchas, pela ação do indescritível e muito quente, sol de primavera.

Falávamos sobre as chuvas que teimavam em não cair; sobre animais de estimação, com ênfase aos gatos e cães criados pelo amigo em sua casa, e a harmonia reinante entre eles. Sorria ao lembrar do meu cãozinho Fox e sua aversão não só aos gatos, mas também ao vizinho, amigo paciente, que acostumado às suas ameaças, preferia tê-lo sim, a uma boa e segura distância.

Um pequeno filhote de sabiá, em voo errante, chega e pousa em frente ao portão. Seu canto era mais um lamento, que saído do seu bico ainda tenro e circundado de amarelo, mostrava que prematuramente tentara ganhar a liberdade. Agachado e trêmulo fica entre as pedras, seus olhos graúdos, aumentados que estavam pelo medo, buscavam, quem sabe, um socorro.

O que fazia tão próximo ao cantante sabiá, aquele também barulhento, Anum-Branco? Parecia querer protegê-lo, ou talvez, devorá-lo. Com seu andar desengonçado e a crista eriçada, dava voltas ao seu redor e parecia não temer minha aproximação. Cauteloso, fotografei a avezinha que logo estava confortavelmente na segurança das minhas mãos.

E agora? O que faria para devolvê-la aos seus alucinados pais que cantavam sem parar, exibindo-se com voos rasantes, ameaçando tomá-la de mim, com suas garras e afiados bicos! O meu amigo que também assistia ao concerto agora formado por várias espécies de pássaros permitiu-me adentrar no seu pomar, e assim tentaria devolver ao ninho, o pássaro desgarrado.

Apenas com uma das mãos, tirava fotos das aves, a exemplo dos pardais, dos rouxinóis ou sofrês, e percebi que de volta e ameaçadores, chegaram novamente desafiando-me, os anuns-brancos. Os sabiás não percebiam e nem os outros pássaros que também eu queria ajudar, apenas isso. De galho em galho, se revezavam na vigília, curiosos e muito mais barulhentos do que antes.

Percebi que a cantoria nada maviosa tinha outro sentido e me pus em alerta. Vi ao meu redor, sob as ramas das fruteiras abundantes daquele bem cuidado quintal, os cães e vários gatos. Em minha mão, angustiado pra retornar ao aconchego dos aflitos pais, se esgoelava o filhote. Nos galhos mais baixos, ao invés do ninho que tanto procurava só as aves em desespero tentando avisar-me do risco iminente que os traiçoeiros gatos traziam à segurança de todos.

Que devo fazer, já que seus animais, à exceção dos cães, estão ávidos para degustarem o passarinho? “Coloque-o sobre o telhado da garagem, que é o local mais seguro e apropriado”. Ficamos ali embaixo das mangueiras, e eu em particular estava ansioso pra ver o reencontro. Determinado, subi os degraus que me levariam até a garagem, e escolhi onde deixaria a ave.

Os transeuntes, pasmos, se deliciam com o costumeiro chilrear dos Pássaros-Pretos ao se aninharem nas copas das Mangueiras. Entretanto, algo diferente estava acontecendo no quintal. Afugentadas, as aves naquela tarde se refugiariam bem longe daquele local, onde aos bandos, e ao final de cada dia, todas convergem e até os morcegos ali se instalam aos montes.

Seguido de perto pelas aves, podia sentir o ar sendo deslocado próximo à minha cabeça, pelo frenesi de suas asas. Esticando o mais que pude o braço sobre o telhado cheio de folhas secas, deixei escorregar mansamente a ave indefesa que pelo visto, de mim, já se afeiçoara. Naquele instante, senti-me aliviado e com a sensação do dever cumprido ao vê-la novamente, livre.

De novo pude ouvir o cantar alegre dos sabiás, os pais que nem chegaram a pousar no telhado, pois seu imprudente filhote em mais um voo cego, desafia a sorte, e a morte; pousa no chão. Tão rápido quanto um raio, sai das folhagens aquele gato negro de olhos verdes, e salta com precisão sobre o infeliz. Ouve-se o grito do seu dono, meu amigo, que tanto quanto eu estava perplexo, a ordenar: “Solta, solta”. O instinto do felino prevaleceu, pois sem mostrar piedade, o devorou.

Atônitos, ficamos os dois sem ter o que falar, e aproveitamos para ouvir do quintal, o silêncio que se fez por longos minutos, até que apercebidos do fato, os sabiás, voltaram a cantar. Um canto de chamamento se repetia, e o voo era mais calmo, todavia, horas depois, incansáveis os pais buscavam ainda por aquele filhotinho que por meses criaram, e que não mais iria voltar.

Créditos – Rômulo Bispo dos Anjos.
Lençóis – BA, 15 de novembro de 2009.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

>>>>>SÚBITA ENCHENTE







....E N C H E N T E.. Créditos.Rômulo Bispo- 10/09

Saímos muito cedo, não obstante a manhã fria, com uma chuva intermitente. Nossas mochilas com víveres tinham seus volumes aumentados pela abundância das águas que caíam sobre a sinuosa e estreita estrada de pedras, via única de acesso ao Capão.
Do alto da serra, bem abaixo, lembrando-nos uma maquete, víamos as ruas e o casario de Lençóis. Éramos cinco obstinados jovens e tínhamos um ideal comum: tentaríamos fazer por baixo, sob riscos, a perigosa trilha para a Cachoeira Glass, em época chuvosa.
Numa fila indiana, seguíamos arfantes pelo caminho escorregadio, até que fiquei pra trás em função das fortes dores que fui acometido no baixo ventre. O short úmido, qual cilha apertava minha virilha, e uma sensação de estrangulamento intensificava o sofrimento naquela região sabidamente, sensível; Parei! Preocupados, me cercaram de cuidados, mas nada fizeram. Uma massagem, quem sabe, resolveria meu problema. Qual nada! Do rápido diagnóstico feito à distância, vi que continuaria com a minha dor.

Distribuí entre os amigos o que levava na mochila e sentei-me numa poça d’água gelada, convencido de que não mais os acompanharia naquela excursão. Sozinho e imóvel permaneci qual um abnegado Pinguim Imperador, ao cumprir sua tarefa de pai.
Após algum tempo de incubação e notando o inchaço diminuído, gritei a um retardatário que esperasse por mim, pois me sentia melhor e continuaria. De longe ainda podia ouvir do grupo palavras de ânimo e também de zombaria: Acabou o choco? Indagavam bem humorados os meus amigos quando de novo pude alcançá-los.
A chuva deu uma trégua e podíamos quando das paradas pra descanso, observar quão espetacular era a visão daquela área da serra, farta em verde e rica em mananciais; as cascatas despencavam surgidas das fissuras nos altos rochedos e pela junção de muitas delas, víamos alguns córregos serpenteando por entre bromélias e as roxas orquídeas.

Meus pés reclamavam a falta de um tênis adequado àquele tipo de esporte; as bolhas cresciam entre os dedos, e o seu rompimento tornaria insuportável o passeio. Mas, nada disso importava tanto quanto a chance de estarmos reunidos naquele santuário ecológico, e assim, cada um de nós contribuía para o sucesso da expedição. Ficávamos atentos aos relatos de amigos mais experientes, a exemplo de Estevão Horman e Heraldo Barbosa, entusiastas do turismo e da questão sócio-ambiental; aprendi muito com eles e fui um multiplicador das suas idéias. Movidos por objetivo comum, sonhávamos com o reconhecimento da Chapada Diamantina como um pólo turístico, e que Lençóis encantasse não apenas por ser atraente, mas, pela sua história e tradição.

Aquele cenário exuberante nos motivava a andar ainda que curvados pelo cansaço, até porque, a tarde se escondia sob um céu carregado por nuvens negras e ameaçadoras.
Escolhemos o leito quase seco de um conhecido rio não muito distante do nosso destino, A Glass, onde passaríamos a noite; descontraídos e ainda motivados, acampamos sobre a areia e seixos, e dormimos nas rochas enormes, ali abundantes. Raimundo Nonato, armado com facão e uma lanterna, faria a vigília. Depois de muitas estórias, piadas e risos, o sono camarada contagiou a todos, exceto ao vigia do primeiro turno que gritava possesso:

"Acordem! Peguem suas mochilas e saiam todos, porque isso mais parece uma tromba d’água”. Um estrondo ensurdecedor vindo de uma pequena cachoeira logo acima, não deixava dúvidas; era uma súbita enchente que trazia consigo e fazia rolar por sobre as rochas próximas do acampamento, troncos retorcidos e grandes pedras. Dessa vez dissera o que de fato vira o vigia, que antes afirmara ter avistado uma onça pintada. Seria aquela noite, palco de uma grande tragédia? A chuva caía forte e os pingos doíam em nós, como se fossem bolas de gelo.
A escuridão por vezes interrompida pelos raios mostrava um grupo alucinado em busca de seus pertences e de um lugar mais seguro fora do leito do rio enlouquecido. Parecia que não iríamos sobreviver, diante da fúria das águas turbulentas e velozes. Gritos e lamentos eram sufocados pelos trovões, e ainda assim, escutei do americano Estevão com seu parco português, um pedido ao meu corajoso mano, Augusto: “Meu mochilha, salve o meu mochilha”. À força, e arriscando a sua vida, arrebatou-a do rio.
Entre uns e outros relâmpagos vistos nos céus, vislumbramos a margem e buscamos sua segurança. Aquele aguaceiro nos fazia tiritar de frio e medo; em desespero, nos abrigamos em pequenas fendas nas rochas. Apesar do grande susto, estávamos salvos.

O dia surge afinal, e nos mostra um rio caudaloso, trazendo em suas ondas escuras o contraste das brancas espumas, como se de bravo, soubesse, dele termos escapado. Uma escalada íngreme e penosa foi determinante pra que continuássemos com o propósito de chegar até a cachoeira. Arremessamos do pico da serra em direção ao rio, na intenção clara de aliviar de nós, os excessos possíveis: Pratos, mantimentos, como arroz e feijão; sacos de dormir e até cobertores foram tragados pelo faminto, Capivari. Não mais ouvíamos o frenesi de suas tempestuosas águas, portanto, seguimos em paz.

As pedras cobertas de limo sob águas barrentas e rasas; os arbustos com seus galhos amorfos e fortes, qual manto verde, indicavam-nos, o final da trilha. Perplexo, inquiri: Com tanta beleza e fascínio, a ela podemos atribuir, a vida, ou o vil poder da morte?!

Eis que imponente e majestosa surge entre os galhos das árvores, diante de nossos olhos, jorrando de suas entranhas e saindo como se da garganta fosse, uma queda d’água do alto dos seus mais de trezentos metros de altura. Uma belíssima cachoeira! Suas águas descem suaves e bailam ao sabor do vento como tênue véu de noiva, que ao se desfazer em orvalho, retorna ao vértice, e perde-se na imensidão das serranias.

Sob os respingos desse véu de rara beleza e rendidos pela magia, adentramos e fomos batizados nas cristalinas e frias águas da Cachoeira Glass, hoje, Cachoeira da Fumaça.

Fotos ilustrativas - Fotógrafo... Zé Henrique.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CARTA- DESPEDIDA DE UM CÃO


Meus Irmãos: F O X e W I L L Y
Um dia cheguei de mansinho, apenas como uma visita, e me vi nos braços daquelas pessoas alegres, que me acariciando não disfarçavam seus encantos por mim. Sabia não ser um cão especial, pois não tinha pedigree, aliás, nem disso eu entendia, mas ainda recordava da frase dita sem cerimônias: “Cão que se preza tem que ter pedigree”, dizia uma vizinha a um canto. De pelos marrons e curtos, olhos negros e muito vivos, eu havia nascido ali mesmo, na Rua Vai-Quem-Quer. Minha saudosa mãe Chiquinha, uma cadela gorda e de pequeno porte, foi por muito tempo a dona do pedaço e encantava todos os cães da redondeza. A propósito, meu falecido Pai, apelidado de Governo, cedeu aos encantos dela e a fez sua nova companheira; os outros cães tiveram que admirá-la somente à distância, pois o meu Velho era muito valente. Não fui enviado de volta ao meu antigo lar; não por enquanto. Meu futuro patrão ainda ressabiado pela perda do seu último cãozinho, até então não me conhecia, e nem eu a ele.

Por uma longa semana fiquei no quartinho dos fundos, e não me faltava nada. Água fresca, comidinha caseira, e até um ventilador colocaram lá pra atenuar o calor daquela estação. De tão pequenino nem sabia latir ainda, mas, por vezes emitia grunhidos; isso não ia dar certo! Retrocedamos à história de Pluto, o pequinês que chegou e ficou por longos catorze anos junto aos seus donos e que fez sua passagem de maneira natural, embora sentida por todos. Cheio de mágoas, meu futuro dono achou por bem e assim decidiu: Não teremos mais um cão em nossa casa, até porque a saudade é muito grande quando eles se vão, e nos deixam tristes.

Era uma sexta-feira, fim de semana chegando, e de repente a porta se abre e entra um senhor simpático, e no seu rosto o cansaço de uma semana de muito trabalho, pedia por descanso. Fui retirado às pressas e de novo lá estava, no meu cantinho, quieto como se adivinhasse o que de fato estava acontecendo. Aquele leite fresquinho ainda quase todo na mamadeira foi retirado de mim, e só me restava protestar. Como dizem os humanos: “Quem não chora não mama”, fiz um estardalhaço. Notando algo estranho, aquele cara sem camisa e desconfiado, passou pelos fundos da casa e deu o flagrante. “Eu estava prevendo isso; de quem é o Cão”? Como se entendesse, calei-me e esperei o pior. Sem estar irado, acariciou-me e me aceitou!

Não por falta de conhecimento da língua inglesa, mas batizaram-me como White em detrimento de Brown, como de fato é minha pelagem, de um marrom escuro e muito brilhante. Por quase seis anos me vi sozinho naquele casarão, e toda atenção voltada pra mim. Gozava de muita saúde, mas nunca me deixaram arranjar uma namorada. Tive muitos sonhos desfeitos, pensava eu encabulado, até que um cachorrinho branco e peludo veio me visitar. Era Willy, que entrara por entre as grades do jardim e ganhou a amizade de todos; mas eu o via com reservas. Será que viera pra ficar? Não deu outra, pessoal! Tornamo-nos amigos, mas ainda não realizara meu propósito. Ah! Seria tão bom ter uma cadelinha, meus filhos, e pudéssemos juntos, envelhecer!
Sinto faltar-me as forças, e não mais desejo o que pra muitos cães era tão normal; havia nascido pra ser criado, mas não como um cão qualquer. Se vivo estivesse, Governo, meu pai, por certo haveria de dar uma mãozinha. Sim, metido em cachorrada, logo saberia fazer-me um iniciado.

Não! Aquilo não era verdade. Vindo da Capital da Bahia, Spock, aquele yorkshire micro foi bem recepcionado e se fez mais um entre nós. Elegante, de pelos compridos e fulvos, causava inveja.
Por quase um ano se fez querido também pelas pessoas, e de sua esperteza foi crucificado. Rápido e veloz, sempre se adiantava e com ares de campeão, nos deixava angustiados. Foi vítima de sua peraltice quando em uma noite, no jardim, comeu algo com veneno e morreu. Minha vidinha de primogênito ainda alvo de atenção, de novo sofre uma recaída quando surge na família um vira-lata, Fox, cãozinho mestiço, de visível semelhança com uma pequena raposa.

Quase cego, ouvindo muito pouco e com passos inseguros, estou sempre perseguido pelos dois, Willy e Fox como se soubessem restar-me pouco tempo de vida; já não ando com elegância e minha cabeça pende sobre minhas patas trôpegas; há muito não brincamos juntos. A certeza de não tê-los mais como os meus filhos, já que não pude ter em verdade os meus, foi muito triste e dolorida. Por vezes sou atacado por ambos, e socorrido pelas pessoas, resta-me lamber as feridas que mal posso enxergar. Com dezoito anos de idade, recordista em longevidade canina, perdoo meus amiguinhos; por certo hão de envelhecer e mesmo que não mais exista, sei que farão felizes todos que se doaram tanto por nós três, sem distinção. Quantas vezes, também à noite, corríamos a perseguir gatos famintos no nosso escuro quintal, cheio de obstáculos. Hoje necessito da guia e sou conduzido pelas mãos cuidadosas de todos, quando das minhas idas pra fazer minhas necessidades, decorrente de minha pouca saúde.

Às vezes fico na área da nossa casa, fixo o olhar embaçado nas luzes brilhantes da cidade, agora opacas, e penso: Ainda sou muito feliz por estar vivo. Meu coração já não bate tão forte, meus pulmões não me deixam respirar como antes, mas quero continuar a viver. Nas noites insones quando sufocado fico a tossir, não demora e a ajuda chega dos meus fiéis escudeiros. Minha vidinha começa a esvair e isso faz doer o coração daqueles que tentam aliviar a minha tormenta, em vão. Se pudesse diria num latido bem alto, se me fosse possível reencarnar um dia, inda que pra viver por pouco tempo: “Conceda-me a bênção de voltar, mas se for para a mesma família”.

Faço ver aos amigos, Willy, Fox e até Spock que chegou e se foi qual um “cometa”, que apesar dos entreveros, deles não guardo mágoas, pois fomos bons irmãos. Ainda que me fosse concedido falar não diria nomes, até porque, de mim, eram todos donos! O instinto me diz estar próximo o momento da grande despedida. Rogarei por uma graça, talvez a última, antes que os meus olhos se fechem num sono calmo e profundo:

"Que meu suspiro derradeiro seja junto daqueles que amo, e as mãos que tanto me acariciavam, se unam e orem por mim”.

Sinto-me adormecer, mas ainda consigo vê-los. Adeus, meus queridos e fiéis companheiros”.

.............................W H I T E ............
Créditos – Rômulo Bispo
Lençóis – 08.10.2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ACESSIBILIDADE À CIDADANIA

...........INFÂNCIA SADIA, FORMA O CIDADÃO

Cantigas de roda, casamento oculto, vagão, vira-cartas, gudes, enfim, muitos desses jogos e brincadeiras compunham o lado lúdico da nossa bem vivida infância naquela cidade serrana, dos Lençóis. As cantigas de roda, composições e melodias simples, divertiam e faziam aflorar dons, muitos deles, recônditos; já o casamento oculto nada tinha a esconder senão com quem nos casaríamos, ainda que de mentirinha. Por vezes sonhávamos fosse verdadeiro, quando o acaso nos unia às pessoas de quem gostávamos, e que nos fazia sentir acelerar o coração. Não raro, burlávamos a ação do tirano destino, ao aproximarmos de alguém que nos interessava.

As ruas com calçamentos em pedras irregulares escondiam por meses a fio, um traçado ímpar que remetia ao formato de uma teia de aranha, e que pela rebeldia das gramas em viço, era sufocado e perdia seu esplendor. Ao aproximar o instante da festa maior, Senhor dos Passos, juntava-me a outros garotos, e com lâminas em forma de “V”, bem amoladas, ficávamos a carpir o caminho por onde certamente em breve passaria a procissão de “02 de fevereiro”.


Era comum e nos permitiam nossos pais, a troco de experiência e às vezes com remuneração simbólica, prestarmos pequenos serviços na comunidade. Hoje, corrompida por um sistema assistencialista, nossa sociedade afirma sem um embasamento técnico-educacional que: “crianças devem permanecer em tempo integral dentro das escolas”. Quem de nós em sã consciência gostaria de vê-las fora delas, e por vezes vítimas de abusos e sendo exploradas? Entretanto, se inseridas também em projetos comunitários, por certo não comprometeria o aprendizado; em verdade muitas ali estão e são forçadas a permanecerem, para justificar benefícios sociais a exemplo do Bolsa família e outros, oferecidos pelo governo. Diante das carências do ensino fundamental público, embora protegidas da exploração do trabalho infantil, sem o experimento de uma ocupação honesta, em oficinas por certo, deixam-se adotar e seguem um caminho quase sempre sem volta, junto aos seus padrastos, os traficantes. A criança que participa de tarefa extracurricular, ainda que por emulação seja remunerada, tende a interagir com outros grupos, como cidadã, verá com mais clareza seus direitos e deveres, e se bem motivada terá uma participação mais efetiva dentro da sua escola.

De volta ao presente sinto que roubaram das muitas crianças que vi nascer, sua infância e uma adolescência que poderia ser produtiva se contempladas por uma política séria e voltada para a geração de empregos. Descrentes e inconformados com as vãs promessas eleitoreiras, muitos deles não aspiram sequer, sonhar. Oriundas de uma casta menos favorecida, poucos tiveram chance de um crescimento sadio, pois nem todos puderam participar de associações como o Grão de Luz e Griô ou mesmo o Avante Lençóis, ONG’S com credibilidade e bons serviços sociais prestados no município. Esses jovens desmotivados ante a pouca perspectiva de inserção no mercado de trabalho, têm no turismo a oportunidade de evitar a exclusão, prestando serviços em agências, ou mesmo na ACVL, Associação de Condutores de visitantes de Lençóis. Alguns são qualificados com os cursos do SEBRAE, em convênio com órgãos municipais, mas não conseguem emprego. Outros adolescentes, vítimas dessa conjuntura e já dependentes, muitos se entregam aos vícios, com ênfase às drogas. Mesmo sendo a minoria, chegam alguns deles à prática de pequenos furtos, assaltos e com registro de um assassinato.


É incontável o número de garotas, meninas ainda, que se engravidam precocemente, contribuindo para uma explosão demográfica indesejada, onde a miséria e o sofrimento desses filhos e mães são aumentados quando do atendimento junto aos órgãos de saúde, já sufocados pela crise presente em nosso município. A educação sexual parece de fato inexistir.


Faz-se necessário inquirimos a nós mesmos: Julgamos ser suficiente o que fazemos para o desenvolvimento de nossa comunidade, ou vamos nos acomodar e tudo que lhe falte seja resolvido no âmbito do governo municipal? Espero que o cooperativismo desperte em cada um a vontade de contribuir mais, e que haja de fato um comprometimento dos segmentos vários, pra uma ação conjunta com o objetivo de trabalharmos o hoje, e que nos orgulhemos como cidadãos do que fizermos, ao focar o que queremos para o nosso amanhã.

Créditos – Rômulo Bispo.
Lençóis – 30.09.2009


Foto - Ilustrativa (Internet)

domingo, 20 de setembro de 2009

........NOVAS PERSPECTIVAS

LENÇÓIS EM CRISE BUSCA NOVAS PERSPECTIVAS

A Loja maçônica Amor e Luz III, Instituição operativa e progressista, preocupada com os rumos incertos que norteiam a sociedade lençoense em crise, faz cumprir seu dever como guardiã dos bons costumes e de liberdade, convidando o povo, inclusive os poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário, para um ato público. Sem fugir aos princípios éticos, e voltada para o bem-estar do cidadão, a maçonaria em Lençóis não fica omissa e se engaja de forma igualitária aos demais segmentos na criação de um fórum de debates e diagnósticos. Enriquecida pela marcante presença do escritor e cineasta Orlando Senna, a noite de 17 de setembro de 2009 reuniu um público aproximado de cento e setenta pessoas no anfiteatro Afrânio Peixoto.
O palestrante Orlando Senna com profusão de conhecimento da crise que enlaça o mundo, afirma ser um momento profícuo para crescermos, mesmo que na adversidade. Com o tema- “Perspectivas para o futuro de Lençóis” retrata de forma inconteste, a situação caótica dos vários setores de nossa comunidade, com ênfase na Saúde e Segurança; que as ações isoladas não teriam proveito, e vê na vontade cooperativa o sucesso dessa luta que visa à segurança, saúde e paz do nosso povo, principalmente os excluídos e miseráveis que se avolumam em nossa periferia. Mostra com sabedoria os caminhos a serem seguidos, a exemplo da extração mineral não predatória; do turismo que é uma realidade, contudo, sozinho não é um segmento economicamente viável e passa por um período de estagnação; defendeu, até mesmo pela rica história que temos, seu enfoque cultural. Que nossas terras e potencial hídrico fossem revistos em benefício de uma agricultura mais significativa, embora saibamos da pouca aptidão do nativo nesse ramo de cultura. Conciso e enfático, concluiu sabiamente sua palestra ao dizer: “Só sairemos dessa crise com esforço conjunto; pelo semblante de vocês, seremos vitoriosos”.
A mesa diretora foi composta por autoridades de vários segmentos da sociedade, que anunciados pelo apresentador, Jânio Azevedo, externaram desejo de cooperar e se dispuseram a participar sempre que possível dos trabalhos do nosso fórum. O médico, Doutor Luiz Paulo; o também recém-chegado na cidade, Meritíssimo Juiz de Direito, Sami Storch; a Delegada de Polícia, Doutora Janete B. A. de Carvalho, que afirmou ser de fato crítica a situação da segurança; que a criminalidade tende a aumentar, pela omissão da sociedade. Representante das associações, professora Ivanyce Alcântara; Felipe Sá, presidente do Grêmio Estudantil, Márcia Martins; a Maçonaria, representada pelo Venerável de Honra, Raimundo Dourado; Antônio Jorge, do Convention Bureau, que ao lado da dinâmica e estratégica associação da qual também se insere a turismóloga, Michelle Andrade, em parceria com o poder público tem prestado relevantes serviços, promovendo a Chapada como destino turístico; vereadora, Sibélia Viana, que defendeu a Educação como instrumento de transformação social, e o representante do Poder Executivo de Lençóis, Marcos Ayrton Alves de Araújo.

Não nos parece difícil crer que também o prefeito tenha visto nessa iniciativa do fórum, oportunidade de interação maior com os munícipes, ganho com encaminhamentos, e até com soluções para os problemas citados pela mesa diretora e ratificados também por ele. Mostrou-se seguro em relação às suas metas de trabalho ao afirmar que em breve colheríamos os resultados, ainda que reconheça ser muito difícil esse momento de sua administração, em virtude de uma crise globalizada que também afeta nosso município.

Agradecido, externou sua satisfação pelo convite feito pela Maçonaria, e não escondeu seu contentamento por estar diante de uma platéia tão motivada e com personalidades que sabidamente ajudarão nessa fase crítica vivida pela sociedade civil lençoense. O fórum foi aceito, e do esforço conjunto dos seus membros surgirão ações para uma política social mais abrangente, reforçadas sem dúvida, pela efetiva participação do Poder Público Municipal.

A assembléia é finalmente convocada a participar com depoimentos, e vários deles nos enchem de esperança porque de fato queremos unir forças em prol da comunidade. Não obstante o adiantado da hora, muito mais pessoas falariam não fossem contidas por nosso gentil apresentador. Ouvimos atentos os relatos não apenas dos nativos, mas de empreendedores, ambientalistas, jornalistas, empresários e estudantes, todos imbuídos do desejo de ver que a tão importante e visitada Lençóis, possa continuar a se destacar no cenário nacional e até internacional, pela história e cultura de seu povo, e não mais por ser vista e comentada em jornais e televisão, pelo crescente índice de criminalidade, com assaltos, furtos, roubos e até assassinato. Estamos confiantes em Deus, no povo e nos poderes constituídos, para que essa situação vista como sazonal seja sanada e a paz e a tranquilidade volte a reinar.

Aparentando estar muito à vontade, ao final de sua fala o prefeito inquiriu a platéia, que votou e decidiu que o Festival de Lençóis de novo será realizado na Praça Horácio de Mattos.

Destacava-se fulgurante o estandarte, símbolo da nossa Loja Maçônica Amor e Luz III, quase centenária, a testemunhar a luta conjunta de cidadãos, filhos ou não dessa cidade histórica e cultural que certamente continuará sendo referência em toda a Chapada Diamantina.


Lençóis – BA, 17 de setembro de 2009.

Créditos – Rômulo Bispo dos Anjos.
Chanceler- Amor e Luz III

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

.............CONSIDERAÇÕES





Jardineiro
Que as ferramentas não apenas desbastem o meu gramado, mas que o torne sempre agradável e mais bonito.
Que eu nunca apare as gramas do meu jardim por crescerem demais, todavia, para vê-las mais viçosas e cobiçadas.
Que eu possa fazer do meu gramado uma tela viva, e que o vejam como uma obra criativa, cheio de graça, e de arte.
Que eu possa conservar e até alimentar os insetos ali existentes, à exceção das formigas, das ervas daninhas e dos parasitas.
Que não me falte a sensibilidade ao tocar nas plantas, especialmente as flores, ainda que muitas delas, não sejam as ROSAS.
Um dia trabalhei com TIJOLOS e PEDRAS e vi surgir uma CASA e um JARDIM.
Pensei ter construído uma MORADA, mas em verdade, EDIFIQUEI o nosso LAR.


Lençóis – BA, 26 de Agosto de 2009
Rômulo Bispo dos Anjos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

......ANIVERSÁRIO - 80 anos!!!












...M i n h a P r i m e i r a P r o f e s s o r a

A noite teimava em não findar-se, e o amanhecer ainda distante só prolongava minha ansiedade ante a expectativa daquele que seria o meu primeiro dia de aula, onde com sete anos me vi matriculado, e realizaria o sonho em estudar na inesquecível, Escola do Lavrado.

Acolhido com as honrarias costumeiras, ao adentrar na sala, fiquei encantado com a recepção. Todos os alunos levantaram-se e presentearam-me com uma bonita canção de boas-vindas. Senti que estavam curiosos em melhor me conhecer e fui logo me apresentando. “Rômulo é o meu nome, moro em uma Chácara, tenho muitos irmãos e primos e sou feliz por estar aqui.

Aquela professora morena e alta, elegante e bem vestida, fazia contrastar os seus olhos negros e miúdos com seu coração grande e muito generoso, pois sabia ser justa e igualitária. Com a sabedoria peculiar dos dedicados Mestres da época, se esmerava na missão de Educadora. Havia nascido minha querida professora para ensinar, para desbastar as pedras brutas que éramos nós, seus alunos, que filhos poderiam dela ser, não fosse a decisão Divina em não fazê-la Mãe apenas de alguns, mas de tantos a quem sempre com muito carinho, educou.

Essa mulher forte que por sorte nossa se doou a Lençóis, foi uma militante política e prestou relevantes serviços nessa área. Sempre coerente a seus princípios, defendeu seus ideais por uma cidade melhor e mais humana. À frente da Casa de Cultura Afrânio Peixoto, difundiu sem igual, entre os que tinham a avidez do saber, os objetivos do imortal Afrânio, o grande escritor. Também soube sem que preciso fosse ser uma Mãe, a importância de se cuidar dos filhos, quando trabalhou por muito tempo junto à creche Mãe Fifa e Clube de Mães, na nossa cidade.

Com a fé Cristã, cativou e foi uma multiplicadora de sua religiosidade ao ministrar o evangelho. Abnegada, está sempre disposta a ajudar o semelhante e fez de suas ações, exemplos de vida.

Meu eterno agradecimento a você, a quem sempre respeitosamente chamei de Dona Ivanyce, não por faltar-me a intimidade, contudo para destacá-la dentre todas as minhas professoras. Quão orgulhoso me faço em saber que não me ensinastes apenas as primeiras sílabas, sobretudo que das suas junções, formaria palavras e as frases. Que ao tirar dos meus olhos a venda da ignorância, enriquecia-me com ensinamentos imprescindíveis para minha formação.

Aos oitenta anos, lúcida e produtiva, você nos orgulha não apenas pelo que fez no passado, mas, pelo que ainda poderá contribuir para o futuro de nossa comunidade Lençoense. Orgulho-me de ter sido um dos seus melhores alunos, embora reconheça que o mérito foi todo seu, Mestra.

PARABÉNS, QUERIDA PROFESSORA E AMIGA, IVANYCE A. DE SOUZA


Rômulo Bispo dos Anjos.
Lençóis – BA – 20.08.2009

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

D i a d o s P a i s


P A I S - Os H e r ó i s

Quão bom seria se esse meu amigo e herói a quem chamo de pai, fosse eterno. Entretanto, esse senhor grisalho que de mim tem o respeito, jamais será esquecido.
Às vezes, em determinadas circunstâncias, vemos nossos heróis que ainda julgamos serem capazes e muito produtivos, acometidos de lapsos de memória. Relutante em aceitar as suas deficiências, poderia compreender que a velhice não tem início, mas por certo, toda ela há de ter um final, e, nem sempre previsível.
A terceira idade muitas vezes mexe com a auto-estima dos nossos heróis, forçando-nos a ter piedade deles quando se perdem em meio a tantas informações. A tolice maior é quando os julgamos por parecerem sábios, mas que já não têm o mesmo reflexo e raciocínio lógico. Aí, muitas vezes nós os maltratamos fazendo-os chorar. Um choro que quase nunca nos permitem ver, com lágrimas que teimam em não cair, mas que descem silenciosamente por trás das já cansadas pálpebras, fechando sob si, aqueles olhos úmidos e entristecidos, outrora vivos e radiantes.

Os filhos de hoje serão os pais de amanhã. Não existe melhor maneira de retribuição pra com eles, que ser justo, que ser paciente, que ser tolerante, afinal.
Sempre temos algo a aprender com a velhice. Senão, que fazer quando lá chegarmos? Por certo vamos cometer os mesmos erros e as mesmas falhas.

Nunca devemos deixar transparecer dó ou compaixão para com nossos pseudos heróis. Concedamos-lhes apenas a verdade, a paciência, e veremos o brilho da esperança renovada, emergir do fundo de seus sombrios e temerosos, olhos.

Ser Pai é uma dádiva que por ser divina nos faculta o poder do perdão, da abnegação, e evidencia o propósito incondicional em ver nossos filhos felizes.
Ser Pai é ser tolerante, é ser amigo, é ter a humildade em tornar também seu, o sucesso por seus filhos, alcançado. Ser Pai é admirar mesmo que à distância, o voo por ele ensinado ao filho, em detrimento de um ninho vazio e menos alegre.
Que nos orgulhemos sempre em sermos os PAIS dos nossos filhos queridos, ainda que por alguns, sejamos exilados e esquecidos nos tediosos Abrigos para Idosos.

domingo, 26 de julho de 2009

.....O Mito da Invisibilidade

Crônica.........Mito ou Realidade.........Rômulo Bispo

Apesar do avanço científico e tecnológico, ainda assim não há indícios da invisibilidade humana, nem mesmo pelo mais famoso ilusionista do mundo, o mágico Harry Houdine.

Há momento em que essa fantasia se evidencia quando nos deparamos com pessoas prepotentes, a exemplo de alguns arrogantes políticos nossos de cada dia, que aos olhos dos homens de bem e simples, se tornam de fato invisíveis, e por instantes o mito vira realidade. Indiferença é o prêmio cabível àqueles que a custa dos incautos conseguem um efêmero poder, e ainda assim, usam-no quase sempre a serviço da mesquinhez e da perseguição.

É preconceituosa e inaceitável a postura de muitos detentores de privilégios, a exemplo de alguns políticos, os quais envaidecidos pelo cargo distanciam-se e relega quase à exclusão social, aqueles a quem em visitas eleitoreiras, chamava de "Meus Parceiros da Mudança".

Relutei em não tornar pública uma experiência com vivência própria, onde pude ser admirado e respeitado, apesar de não ostentar nenhum cobiçado título público. Ao usar a Régua e o Compasso como instrumentos básicos edifiquei meu caráter e conceito, sem a presunção do fausto e nem do falso e transitório poder. Um líder nato não dita, ele conduz seu povo em direção ao rumo certo, e o reconhecimento do seu poder aflora naturalmente sem ostentação e sem arbitrariedade. Aceitar ser derrotado é menos sofrido que ser um vencedor frustrado.

A experiência veio contrariar a máxima de que somos vistos e ou apenas reconhecidos tão somente pelo que exercemos e de como nos apresentamos, e até pela nossa indumentária. Sem o costumeiro e imponente terno preto, peculiar e freqüente nas Oficinas Maçônicas; sem o habitual e necessário traje Esporte-Social das festas comunitárias ou mesmo a informal camiseta e bermuda do dia-a-dia, me fiz um jardineiro, descamisado, com um surrado calção. Ansiava pelo desafio de eu mesmo, projetar e construir o jardim de minha casa. No primeiro dia, inseguro, mal conseguia usar as ferramentas que em nada lembravam os computadores que com habilidade tanto utilizei quando da minha vida funcional no Banco do Brasil. Para minha surpresa o trabalho fluía e muito bem. Os transeuntes nas suas idas e vindas cumprimentavam-me e demonstrando carinho, diziam sempre: “Parabéns pela criatividade”.

Todas as pessoas, velhos, jovens e até as crianças, ao me verem agachado no jardim, sempre tinham palavras de incentivo, e isso me fez refletir. Na verdade, apesar de suado e sem camisa, eu sempre era enxergado por eles e em nenhum momento senti a sensação de invisibilidade. Deduzi que não basta ao povo que alguém esteja em traje de gala e usando de inflamada oratória para que seja realmente visto e notado. É preciso que a sabedoria sobreponha à arrogância e que a humildade o torne visível não pelo poder que detém, mas sim pela maneira inteligente de como usá-lo. O que torna o homem invisível são suas ações antagonistas e radicais. O resto, é mito.

Ao elogiarem o meu trabalho, diziam: “Você cuida muito bem do seu jardim". Respondia-lhes: Não o faço só pra vê-lo atraente, mas, sobretudo pra retribuir o apoio de todos vocês, a quem chamo sem demagogia, "Meus Parceiros da criatividade".

A experiência da jardinagem foi fantástica, pois proporcionou-me além de um grande número de novos amigos, derrubar o mito da invisibilidade humana, à excessão do mau político.

Construindo o JARDIM, embelezei minha CASA, mas em verdade, exaltei o meu LAR.

domingo, 28 de junho de 2009

Sabedoria de Um Povo - Lençóis











sátira - História em Versos de Nossa Gente.

JABUTI constrói casas e é bom pedreiro,
CURIÓ trabalha em banco, mas não voa e nem canta.
DUNGA
que não é o anão, da cidade é o leiteiro,
CORUJINHA é um poeta que com seus versos encanta!

CARNEIRO não é macho de cabra, da caçamba é motorista,
PIMENTA não é tempero, mas jogando foi quase pimentão!
BACURAU não é ave, é do posto um frentista,
JOÃO PADEIRO, o homem da chave, prendia e soltava o vilão.

TATU era um vereador e por pouco não foi deputado,
GALO o enfermeiro, réu confesso, de injeção tem pavor.
CÚ, menino prodígio da bola, sempre estava sujo e melado,
LIBÓRIO
, o amigo da farmácia, esse jamais foi um doutor!

PINGUIM toca guitarra, sanfona e tambor,
PEIXE só vivia fora da água e foi bom arqueiro.
ROSA
em nada parecia com uma flor,
DIONÍSIO nunca foi cachorro e sim um garimpeiro!

CARECA usa espelho, brilhantina e ainda o pente,
CABURÉ, caboclo da serra, solitário tem fim misterioso.
JOAQUIM que era de LINDOLFO, agora é Magalhães, somente,
DÃO VALENTE nunca foi de briga, dos irmãos, o mais medroso!

ARMANDO já não arma nada, também pouco promete,
BARÃO é assalariado, que mesmo estando duro, fica sereno.
KIN BONGÔ na verdade tocava um trompete,
RAIMUNDO DOURADO, pasmem, sempre foi moreno!

ONÇA joga bola e é atacante esperto, garante,
DOMINGO RICO nunca fez fortuna e ainda diz que não mente.
ZÉ CÃO era um professor, católico praticante,
SURUBIM é bancário, mas na Semana Santa, foge de gente!

JACARÉ dirigia carro e não morava em lagoa,
COCA-COLA é do Remanso pescador, não é uma bebida.
NEQUINHA é um senhor, não é mulher, mas é coroa,
CUSCUZ que foi um grande atleta, voltou a ser comida!

CORRÓ é guarda valente, mas foi visto em pé, dormindo,
MORENO era quase mulato, e nem sempre estava sereno.
ZANGADO que em nada parece um anão, só vive sorrindo,
BRANCO é pardo, não duvidem amigos, quase moreno!

BOTÃO não chegou a ser flor, mas cresceu feliz com a Rosa,
SCOOBY DOO o empresário foi tão perseguido quanto um cão.
MEIA NOITE dorme as onze, e cansado de moto, nada de prosa,
BOLINHA saudoso atleta, no time que fui artilheiro, também foi campeão!

RONCADOR é rio que apenas geme,
CAPIVARA é rio que roedor, pouco tem.
CACHORRINHO
é um rio e o banhista não teme,
LENÇÓIS é rio e Cidade, histórica e culta também!

Lençóis – BA 27 de junho de 2009.
Autor – Rômulo Bispo.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

......COINCIDÊNCIA OU ACASO

Crônica Nada Acontece por Acaso

Ao quebrar meu círculo de conforto deixando de lado meu sofá, a leitura, a sala de áudio e tv, meus contatos pela Net por saudáveis pedaladas na minha Caloy 10, não imaginava que veria de tão perto, o acaso tornando-se por acaso, presente diante dos meus olhos.

O dia amanheceu ensolarado e não foi difícil optar por um passeio até o distante povoado Octaviano Alves. A brisa suave em meu rosto, o chilrear das aves amigas, os respingos de água trazidos pelos pneus velozes, o sol que teimava em ofuscar meus olhos, deixavam em meu corpo a sensação de felicidade e infinito prazer.

Aproximava-se o instante em que entraria na Br 242, já infestada de grandes caminhões. O perigo iminente servia para que os sentidos de alerta fossem acionados e não deixassem obstruir minha vontade de descer para o rio do Porto, em meio aos veículos menores, que competiam velozes, com ultrapassagens nem sempre precisas. A descida foi rápida, pois de velocidade também estava bem servido. A bike speed conduzida por veterano e destemido cinqüentão não fez feio, e logo estava passando pela Ponte do Porto que antecede o prévio destino, o Tanquinho, no Povoado acima citado. A leveza e rapidez de antes agora contrastava pela força física que teria que dispensar, pois iniciava um trecho em subida, longo e bem cansativo.

Infelizmente, a estatística mostra que nessa baixada entre a subestação de Luz, Coelba e o Porto, já ocorreram inúmeros acidentes fatais com causas nem sempre de falha humana, mas provavelmente por defeitos e ou erros quando da construção da pista. Cito como exemplo o tão conhecido trecho, A Cesta do Povo, responsável pelas mortes de tantos motoristas e de seus acompanhantes.
Vale ressaltar que a citação anterior se fez necessária, uma vez que sou nativo, conhecedor de muitas histórias de acidentes por ali, e, portanto, ciclista por opção, havia de precaver-me porque sempre faço esse percurso.
No domingo último, 16.09.2007, houve mais um acidente, porém sem vítima fatal. Devo explicitar de forma sucinta quando afirmo: Nada acontece por acaso!

O sol escaldante, a respiração ofegante pelo esforço da subida, fazia perceber nos músculos, o ácido lácteo em total ardor. Não ouvi, em detrimento dos fortes ventos que faziam naquele momento, o barulho de um desgovernado caminhão que sem direção, tombara a poucos minutos de onde com certeza, eu havia passado. Naquele exato lugar, parei pra tomar água. Não foi por acaso que tive minha vida poupada. Algo superior, uma força maior que não sei explicar, fez com que me adiantasse e não me expusesse ao perigo fatal de estar sob aqueles escombros.
Não mais que dez minutos depois de chegar ao destino, fui informado do acidente. Ouvi os relatos e percebi que uma viatura havia passado por mim e logo em seguida os bombeiros também. Algo tinha acontecido e com certeza, não foi por acaso que nada tivesse visto ou percebido de anormal. Tudo me leva a crer em um verdadeiro milagre.

Ao finalizar, agradeço a Deus por não se cansar de cuidar daqueles que nele crêem e que com sua mão protetora, deu mais uma prova que o acaso não existe.
Incidentes a parte, de volta ao meu lar, uma lição de vida: Não importa quais perigos esteja exposto. Valerá a pena correr os riscos, se busco a felicidade e minha paz interior.

A vida será plena quando os sonhos forem exeqüíveis.

Gentileza fazer comentário no campo próprio, logo abaixo.

Rômulo.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

...........Luz- Paz- Natureza..

............R E F L E X Ã O

...MÊDO ...... INSEGURANÇA .......COMODISMO.

...Dizia-me certa vez um filósofo amigo.

Atingirá o seu objetivo, aquele que humildemente pautar sua vida sobre estes três pilares acima mencionados. O conhecimento adquirido o levará a uma visão de vida mais sólida e cheia de realizações, por que:

O MÊDO é a atenção e o alerta pra quem busca o acerto.

A INSEGURANÇA é a reflexão pra se trilhar caminhos bem mais seguros.
O COMODISMO é uma pausa estratégica para um avanço direcionado, onde se pode alcançar, além do êxito, a felicidade como indivíduo.

Aquele que nunca sentiu Medo, não sabe o que é Insegurança e nunca se Acomodou, terá Acertos duvidosos, Caminhos Incertos e certamente se Acomodará e começará tudo outra vez, porque a vida é feita a cada dia, o que justifica a milenar afirmativa de sermos sempre os “Eternos Aprendizes”


Rômulo Bispo dos Anjos
rbanjos@hotmail.com
http://www.romulobispo.blogspot.com/

domingo, 7 de junho de 2009

Minhas Férias Ciganas

...C I G A N O S...

Um povo nômade e feliz!

União e coragem são traços predominantes dos Ciganos, um povo nômade que vive em acampamentos às margens das rodovias. Suas mulheres usam vestidos longos e coloridos, com blusas de decotes generosos a exibir seios fartos. Seus cabelos lisos são presos e encimados por presilhas e pentes sempre vistosos. Temidas, mas desejadas.

Bonitas na sua maioria atraem para si alguns incautos que vencidos por argumentos infalíveis, se vêem explorados pelas falsas mensagens nem sempre animadoras, depois de lidas as linhas de suas mãos. Não raro, muitos deles saem satisfeitos e contentes. “Na verdade cigano que se preza, antes de ler a mão, lê os olhos das pessoas (os espelhos da alma) tocam seus pulsos (para sentirem as vibrações energéticas) e a partir daí, fazem as suas conclusões, estudando a mente e o corpo pela quiromancia.”

Quem nunca ouviu falar da Raça Cigana? Provavelmente muitos afirmariam que sim. Confirmar que são hostis e perigosos é exagero, entretanto, reagem com violência. Calçados com botas e esporas, jaleco de couro sobre uma camisa de cor forte, calças com o mesmo tom escuro que o chapéu sempre caído de lado, caracteriza-se o cigano.

“Sua origem é muito contestada e tudo que disser sobre o Povo Cigano é conjectura. Eles não possuem até hoje uma língua escrita, o que dificulta sua verdadeira origem. Especula-se que surgiram ao Norte da Índia, há mais de 3.000 anos, em Gujaratna. Alguns são exímios ferreiros e como artesãos fabricam selas, utensílios e suas jóias. A citação acima foi extraída de uma entrevista com a cigana Sttrada – Em Fev de 1998.”

Saindo do Oriente para o Ocidente, esses artistas sem fronteiras deslocam-se facilmente por muitos lugares, sempre comercializando animais, e artesanatos. No interior da Bahia também se fizeram presentes, foi quando em férias, lamentavelmente eu os conheci.

Cidade onde nasci, Redenção era a preferida para as minhas férias de fim de ano. Garoto ainda com apenas dez anos, fui o vilão numa história que marcou minha infância profundamente. Convencido por Cristina Anjos, uma sobrinha muito querida, resolvi torná-la pública.

Era domingo e jogávamos futebol em um campo de várzea, perto de um Acampamento Cigano. O jogo foi interrompido por uma dezena de jovens que resolveram acabar com nossa pelada. Muito valentes apesar de tão novos quanto nós, tentavam nos acuar, quando o colega Juarez, com uma certeira pedrada fez sangrar a testa de um ciganinho, o menor do grupo. Temendo por um possível massacre, corremos pelas ruas em busca de um abrigo seguro. Optei por uma via paralela que me faria chegar à mercearia no centro da cidade, de propriedade de meu irmão, Antônio Manchinha. O tropel da cavalaria, os gritos dos ciganos adultos, mulheres inclusive, chegaram aos meus ouvidos e duvidei que conseguisse chegar com vida, ao meu destino. Fui mais rápido que aqueles enfurecidos homens que a todo custo queriam tirar o meu escalpo.

Obcecados pelo sabor da vingança, ameaçavam tirar-me à força do meu esconderijo. Uma batalha sangrenta poderia ter acontecido, pois muitos nativos também armados enfrentavam corajosamente os sanguinários, finalmente contidos por uma negociação. Cumprindo sua parte do acordo em que ambos se comprometiam não haver mortes, Manchinha leva o garoto apedrejado a uma farmácia deixando-me sob a guarda do chefe do bando, homem valente que me garantiu segurança desde que seu neto voltasse medicado e vivo. Lembro que fui por ele inquirido: “Foi você, gajão”? Seja franco, se não eu...Aquela ameaça me fez gelar mas respondi com firmeza: Não vi quem machucou o garoto. Só sei que eu jamais faria uma coisa dessas. Eu não fiz isso! Aquele homem rude envolveu-me em um abraço e disse-me: "Você está salvo, filho" Se mentisse, morreria.

Muitos conterrâneos se esgueiravam entre os patéticos ciganos que aos prantos, lamentavam e lançavam sobre mim suas terríveis pragas. Mal sabiam que se necessário fosse, seriam trucidados pelas armas bem escondidas dos amigos nativos. Todo o barulho cessou e o silêncio da rua foi quebrado pela voz forte do líder quando disse a todos que tudo terminara bem, graças ao corajoso “Gajão” Antônio Manchinha. Erguendo o esquálido neto, disse: Vejam! Ele está bem!

Em obediência ao Chefe Adelbrando que para tanto teve de usar muita diplomacia, o grupo carregando o ciganinho são e salvo começava a retornar ao acampamento. De braços e punhos erguidos, quais bestas-feras brandiam no ar inusitadas armas, verdadeiros troféus de guerra.

Como se fora um fugitivo, abri mão dos meus planos de férias e sem relutar fui convencido pela família a deixar a cidade pois corria ainda, risco de morte. Enfim, a segurança do meu Lar.

Não obstante esse episódio, o cigano que não tem Pátria, é livre, e tem meu respeito.


O Povo Cigano é guardião da liberdade. Seu grande lema é:

O Céu é meu Teto; a Terra é minha Pátria e a Liberdade é minha Religião

Rômulo Bispo – 05.06.2009


Os créditos das fotos não são meus. Foram extraídas da Internet para ilustrar a matéria.

Gentileza fazer comentários em campo próprio, logo abaixo.



































































































quarta-feira, 3 de junho de 2009

E S C O T I S M O - Lençóis - BA


E S C O T I S M O - Uma opção inteligente!

Baden Powell, um famoso Lorde inglês, idealizou e criou esse movimento em 1907. Sua primeira experiência como líder foi quando acampou com vinte jovens e teve a oportunidade de ministrar-lhes conceitos de primeiros socorros, de observação, orientação e segurança. A idéia foi um sucesso e o escotismo cresceu e se espalhou por vários países do mundo. O movimento é de caráter educacional, sem fins lucrativos, e tem como objetivo principal, levar aos jovens a chance de desenvolverem valores baseados na amizade, respeito, fraternidade e sempre cuidar do meio ambiente em respeito à natureza.

Escoteiros - Tropa Baden-Powell.

O grupo de escoteiros de Lençóis foi fundado por David Blackboard, um americano a serviço no Brasil como Voluntário da Paz e o Sr. Olímpio Senna, um nosso conterrâneo. Tínhamos presença garantida nas excursões, pois os nossos pais confiavam nos líderes. Sempre à noite, ao redor de uma fogueira e depois de cantarmos o Hino aos Escoteiros, éramos liberados pra brincar. Na verdade, as atividades lúdicas quase todas eram direcionadas de maneira sutil ao aprendizado do grupo. Pra nós, tudo bem! As boas ações, pré-requisito de um autêntico escoteiro, eram praticadas às vezes ao final das brincadeiras quando aprendíamos a fazer Torniquetes, Macas e Tipóias. Isso na verdade nos servia como verificação de aprendizado, e motivados, até parecíamos ser, artesãos.

A fitoterapia, exigida no simulado de sobrevivência no mato, a orientação pelos astros, e o uso com eficiência dos “Nós de Escoteiros”, fazia-nos sentir em segurança. Reflito: Deus, o bom Pastor, teria sido escoteiro um dia? Por certo, que não. Mas, nos protegia.
Não se registrou na história da Tropa Baden Powell, em Lençóis, um caso sequer de ataque por cobras, animais de hábito noturno e nenhum incidente que viesse nos amedrontar. Contarei alguns episódios do nosso dia-a-dia, também verificados à noite! Às margens do Rio São José, montamos acampamento na propriedade Curupaiti. Estávamos todos na formação do círculo do fogo, quando quebrando regras, canta o desentoado companheiro de patrulha, Humberto, divergindo do Hino Nacional por nós entoado, uma música de cunho imoral. O chefe David se irrita e mesmo com seu parco português, entende também que os gestos e palavrões eram a ele dirigidos e pune o indisciplinado por desrespeito também à Pátria. A noite fria e o vento faziam companhia aos chefes que à porta da Casa de Farinha, montavam guarda. Acordamos já em alta madrugada com choro e gritos de dor, vindos do cantor de meia tigela que adoentado, foi levado nas costas pelo chefe por quilômetros até a cidade. Às vezes as lições eram a nós repassadas, pelas atitudes virtuosas dos empenhados líderes de nossa Tropa.

As barracas de lona e com listras verdes foram erguidas, dessa vez no Sítio de Dona Ponem, na trilha Pai Inácio - Lençóis. A anfitriã destemida, mas não tão grande quanto nos parecia, com uma espingarda às costas se dizia ótima caçadora de pacas e mocós.
Depois das aulas teóricas e aplicação de testes pelos Monitores, atendendo ao seu chamado, corríamos para a natureza, que sem modéstia abria-se para nós como se uma Faculdade de Ciências fosse, e disso soubemos tirar proveito. Cada planta, flor ou inseto nos fazia vivenciar na prática, tudo aquilo que teoricamente nos fizeram aprender. Saciados com as delícias do saber, quase nos esquecemos do chão sob as mangueiras, repleto de frutos a nos esperar. Não satisfeito abri a lata de sardinhas, marca Coqueiro, e comi todas elas com um pão amassado e cheirando a mofo. Minha língua não parava de inchar e já sem poder falar, apontava a lata de conservas que vencida deveria estar. Chateado e sem querer voltar, vi minha língua que na boca já não cabia, e aterrorizado, me pus a chorar. O choro não era de dor e sim de pânico pois temia não poder respirar.

Os escoteiros são divididos em grupos, de acordo com suas idades. No Brasil, temos a seguinte divisão: Lobinho (7 a 10 anos), Escoteiro (11 a 14 anos), Sênior (15 a 17 anos), e Pioneiro (18 a 21 anos). Um jovem que se apoiado pela família conseguisse infiltrar nesse movimento, aprenderia dentre outras coisas a respeitar os símbolos nacionais, teria obediência aos chefes não por temê-los, mormente para absorver as orientações. Pratiquei escotismo dos onze aos catorze anos e fui um Sub-Chefe da Patrulha Leão.

Muitos amigos de infância, escoteiros de outrora, se lançaram ao mundo, hoje cidadãos. Com a determinação de um escoteiro que fui, afirmo não ter o tempo conseguido fazer-me esquecer os ensinamentos adquiridos. Uma vez escoteiro, sempre um escoteiro. Quisera contentar-me com suas lembranças sem que preciso fosse citar seus nomes. David e Olímpio, nossos líderes, Alberto Morais, Pedro Paulo, Raimundo Barros, Hilton Alcântara, Joilson, Sinval, meus irmãos, Augusto e Pedro, João de Neuza, Renato Rôla, José David, Jânio e tantos outros. Sou solidário aos amigos contemporâneos, que obstados por pais possessivos e inscientes, deixaram de participar desse movimento sabidamente sério e tão útil para a socialização e formação do caráter de um cidadão. A cada amigo citado, uma saudade. A cada excursão realizada, uma experiência de vida.

Dedico esse texto a Davi Americano, assim o chamávamos, não apenas por nos ter chefiado, sobretudo por ele ter surgido em nossas vidas com ideais e propósitos de nos ajudar. Também o escrevi em homenagem a todos os escoteiros do passado pelas boas ações praticadas por eles no escotismo, e principalmente junto à nossa comunidade.

O lema do escoteiro “Sempre Alerta” ou “Be Prepared” (esteja preparado), contrariando a lógica, pouco serviu ao competente Chefe dos Escoteiros, ante a morte sorrateira que em segundos tirou-lhe a vida, num estúpido acidente com uma descarga elétrica naquela chuvosa noite de temporal. (Fato ocorrido anos depois, já em Recife, sua última residência no Brasil.

Obrigado, Sir David por nos preparar pra sermos probos cidadãos.

Almejo que a idéia de revitalização do Escotismo em Lençóis seja de fato exequível, e que o novo movimento possa ser liderado também por homens livres e de bons costumes, como bem o fez Edgar (Gadu), num passado recente.

Rômulo Bispo. “SEMPRE ALERTA PARA SERVIR” Deus, Amor e Pátria.


03.06.2009


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