segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

......P O T I R A

...................POTIRA - Inocência e Pecado
Por Rômulo > 25/12/11

Como qualquer criança, ela brincava de roda, pulava corda, e dentre todas, a indiazinha Potira era a preferida da aldeia. Os cabelos negros e lisos reluziam ao sol, e bailavam livremente ao sabor do vento. Juntou-se também aos demais irmãos e primos, a menina que contava apenas doze anos de idade, mas dava mostras de coragem e sabedoria. Exibindo destreza, se agarra com firmeza em um galho que pendia da Gameleira vivaz, e se lança num mergulho acrobático com a precisão de uma exímia, campeã olímpica! Naquela tarde quente, as crianças exauridas pelo calor, resolveram banhar-se nas águas do Rio Tory.

Observadas à distância, sequer temiam da Sucurí faminta, o seu ataque fulminante. A convivência com situações de risco era algo tão natural, que elas usavam apenas a intuição como defesa ao perigo iminente. Despreocupados, os índios se ocupavam da rotineira caçada, enquanto suas mulheres preparavam o jantar, onde podiam farta-se com beijus e peixes assados na palha da bananeira. Findava assim, o dia na aldeia".

O amanhecer, que em nada lembrava os centros urbanos, chegava e enchia de sons, alguns bucólicos como o canto da Araponga, e outros maviosos, qual o do Rouxinol, despertando a todos para um novo dia! Os adultos reunidos naquela manhã, me faziam crer na quebra da rotina, em breve, pois alguns traziam do mato ali perto, muitos troncos, cipós e palhas. Começaria nova atividade dentro do círculo festivo da Aldeia.

A iniciação sexual, como de praxe, acontecia muito cedo, até mesmo pela irrestrita liberdade que tinham. Bons observadores, viam dos animais silvestres, o coito; e por quê não imitá-los? Instintivamente, trepavam.
Seguindo os ditames já estabelecidos, a entrega em definitivo das supostas virgens aos parceiros, atendia a um ritual, quase macabro; teriam que mostrar bravura e coragem, nas provas, pra conseguir delas, o amor!

Potira, qual fêmea de leopardo no cio, exalava ferormônios, e aguçava dos participantes, a sua conquista. Era de fato, muito bonita, e seus seios rijos despertavam nas concorrentes, o sentimento vil, da inveja! Separadas dos outros adolescentes, as meninas em cárcere privado, ansiavam pelo início da competição que lhes restituiria a liberdade, e a chance da procriação. Ao vencedor, o direito da perpetuação da espécie.

Os índios que postulavam a vitória no embate, vestiam uma espécie de tanga de tecido natural do babaçu, abundante na região. Na cabeça, usavam da mesma planta, os frutos, unidos, formando uma vistosa tiara. À frente das duas colunas formada pelos jovens, havia um fosso, onde teriam que atravessá-lo tendo às costas uma tora muito pesada. Vale ressaltar que seriam tentados a parar também pelas ferroadas de formigas pretas e venenosas, previamente selecionadas e colocadas na madeira. O martírio começava...

De repente, surge por trás da oca onde estavam, um índio adulto e convence a ingênua Potira a deixar-se por ele ser pintada. Afirma que seria rápido, e que voltariam a tempo pra ver iniciada, a competição. Agarrada pelos cabelos, somem os dois pelo milharal, à cata, dizia enfático o malfeitor, de tintas especiais. Enquanto isso, competiam com a determinação de titãs, os guerreiros, pois sonhavam receber do chefe, o prêmio mais importante e cobiçado por todos...a indiazinha dos lábios de mel - Potira!

Deitada à força, cede aos caprichos do astuto e malvado índio, seu irmão de sangue. Sim, haviam nascidos da mesma mãe, e eram filhos do poderoso Cacique Aimoré. Impedido de concorrer por motivo óbvio, o filho planeja e cumpre seu insano desejo de possui-la. Violentada várias vezes, volta cambaleante, e desmaia ao ser amparada pelo próprio, Pai - o valente Acauã. Momentos antes ele validara a vitória do seu futuro genro. O incesto não era uma prática do índio, traço esse, herdado do homem branco e cristão, que o catequizou!

Atendendo ao grito de dor daquele pai sofrido, toda a aldeia em pé de guerra se mobiliza em busca do depravado nativo que maculou e envergonhou o povo indígena. A festa não mais continuaria, pois piorava a hemorragia decorrente do bestial, estupro. Seus lábios entreabertos não mais cantariam, e nem seus olhos poderiam ver novamente o por do sol, pois se fecharam para sempre. Inerte, ela jazia nos braços do Pai.

As toras e as palhas antes recolhidas pelos guerreiros, ardiam numa enorme fogueira. As altas labaredas pareciam das suas contorções, querer passar a ideia de serem festivas, pois elas dançavam. Dançavam frenéticas as chamas, ao som de gritos horripilantes que vinham do moribundo assassino da linda Potira. Com músicas e gritos de júbilo, os índios batiam os pés descalços no chão, numa ritualística toda especial...
Em transe, e num círculo que lembrava a "cadeia da união", executavam a temida, DANÇA DA VINGANÇA#

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

......T A Y N A R A

Vestido Branco

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O ano letivo findava, e mais uma vez estava convicto da minha aprovação também naquele último semestre. No boletim de notas, lia-se em destaque o termo "distinção", como de costume, e até por isso planejaria com antecedência as férias, mais uma que marcaria a minha adolescência. Chegara o dia, enfim!

A noite que antecedia a viagem, em especial, aquela, parecia mesmo não ter fim. O Fusca azul que ainda exalava cheirinho de carro novo, fora arrumado de véspera, e parecia incomodado não apenas pela excessiva bagagem, todavia, pelo orvalho frio e abundante em seu teto, a escorrer como lágrimas, até o chão! Da fresta, também via o dia amanhecer, e com ele, a certeza que partiríamos para Redenção.

Meu pai, um homem de prendas mil, no ofício de motorista deixava a desejar; mas era determinado. Seguíamos no Fusquinha sem sustos e sem paradas, exceto quando acometidos da ânsia de vômitos. No interior do carro, além do calor sufocante, tínhamos que inalar como se fumantes fôssemos, a maldita fumaça daquele cigarro Continental sem filtro. Meu "velho", o meu herói, não percebia até por conta da dependência ao fumo, que nos expunha a graves doenças respiratórias. A viagem transcorreu dentro do esperado, e na manhã de um sábado, dia da feira, adentramos no povoado, o berço do meu nascimento.

A rua que dividia ao meio todo o povoado, lembrava sem exageros, uma gigantesca colmeia. Em lugar das abelhas, feirantes em frenesi e aos berros, tentavam vender os seus produtos. Respeitadas as proporções, o barulho na extensa via pública, guardava em decibéis, similaridade com o característico som da torcida do Flamengo em festa, no Maracanã. A feira ao ar livre, essencialmente um lugar para negócios, cedia espaço também para encontros e acordos amorosos; e quase sempre terminavam em casamento!

O seu final acontecia à tarde, quando das praças e adjacências, recolhiam amorfas, dezenas de barracas.

Rostos conhecidos desfilavam diante do embaçado vidro, em profusão, mas nenhum deles me interessava. Mãos acenavam à nossa passagem, como se desses gestos simples quisessem nos desejar, boas-vindas; aquilo, enchia de orgulho o meu ego, entretanto, sofria por não ver entre tantos outros, o seu rosto lindo, minha querida "Taynara". Dessa vez seria diferente! Iria procurá-la, nem que fosse à porta de sua Igreja. Essa adolescente com traços da raça indígena, me encantava não apenas pela candura e ingenuidade, sobretudo, pelo desafio da conquista, já que professava diferente de mim, segmento religioso não católico!

Colégio, matérias e professores, coisas do tipo, ainda que importantes preferia nem lembrar; a propósito. Queria como sempre, e isso ocorria em todo verão, andar a cavalo na fazenda do saudoso tio Octávio; pescar piabas e tomar banho de "cuia" no tanque de tia Branca, a convite do primo Nondas; jogar uma "pelada" em dia chuvoso e lavar o meu corpo suado nas frias águas das "bicas", de cueca, e nu, às vezes!

Guiado por amigos de infância, não resistia à tentação do banho nas barrentas águas do Tanque da Nação. Aconteceu, e logo comigo... Depois do nado que em nada parecia com o sincronizado, de volta pra casa, até pelo capim em viço que feria nossos rostos, velozes, corríamos em fila indiana. Desatento, me embaracei num fio de arame farpado, reminiscência do que fora antes uma cerca. Fiquei suspenso, qual manta de carne em açougue, e do meu tórax escorria em abundância um líquido quente e viscoso...sangue! A cicatriz não mais existe no meu peito, embora tenha perdurado em definitivo, a dantesca cena de horror.

Redenção, de tantas vitórias, e muitas delas com participação efetiva de seus fundadores, Izidoro e Angelina, jamais será por nós, seus filhos, esquecida. Mesmo à distância, ainda assim, torço pra que outros filhos seus, administradores políticos te coloquem em destaque, mormente diante de suas coirmãs, cidades históricas da Chapada Diamantina. Sua ascensão ao patamar de cidade nos fez sentir, deveras, honrados.

E o menino que em férias, aprontava todas?! O que mais fizera, ele? Continuemos a falar de suas estórias... Acolhido por todos os parentes, hospedava-se sempre com as irmãs, Jandira e Valda! Já ouviram o adágio, "galo onde canta, janta"? Pois é, caro leitor, o garoto moreno, de olhos graúdos e cabelos fartos, Rominho, carinhosamente chamado, se sentia em casa. Simpático e "metido" a galanteador, às vezes se dava, bem.

De minha preferência, a Praça do Mercado, bem iluminada, não diferia das demais, exceto por um motivo - residia em uma daquelas casas, uma adolescente morena, muito especial, pra mim. Com uma plástica singular, Taynara a filha de um comerciante local, me fascinava. Garota tímida, de formação religiosa rígida, estava tão perto de mim, mas um abismo nos separava - ela, era evangélica, e eu, um iniciado católico!

Os dias, quais ponteiros de relógio Suíço, não paravam nunca, e a segunda semana das férias, findava. Precisava encontrar rapidamente, um jeito de transpor aquele incômodo, obstáculo. Minhas bucólicas manhãs eram todas preenchidas com atividades lúdicas, razão pela qual detinha corpo e mente, sã.
À noite, refém do desejo da aproximação, vagava de um lado ao outro do jardim, na expectativa de ficarmos juntos. Isso só ocorria ao término das obrigações religiosas, e sempre na companhia dos fiéis escudeiros.

A quarta semana havia chegado, e algo parecia nos dizer quão próximos estávamos da separação. Todos os amigos, apiedados, tentavam nos animar, em vão. Angustiado, tinha muita pressa, por isso ansiava que findasse o dia e surgisse a noite, mesmo sem o luar, quando poderia ver e quem sabe, até acariciar a face daquela menina de jeito dengoso, e com sorte, até poderia beijá-la; ah, quem dera, fosse factível...

Cruel destino! Ingrato destino...roubastes de mim, sem piedade, um amor adolescente que imaginava não ser correspondido. Restou-me saber, ainda bem, ter ele sobrevivido todo esse tempo, embora adormecido!

Naquela noite, ao final de mais um culto de oração, me dirigi à pracinha e notei você, mais linda ainda pelo contraste do seu "Vestido Branco", que envolvia como se fora um manto, o seu juvenil corpo, bronzeado. Me veio à lembrança a visão do seu ombro desnudo, e dele pendia sem malícia, uma parte de suas vestes; era uma manga desgarrada displicentemente, como se a propósito, para delírio meu, seu eterno admirador.

As férias, antes tão esperadas, não tinham mais de mim, o mesmo interesse e razão. A cidade perdeu toda a graça, se é que a graça dela partia, o que duvido, pois quem de fato dava vida e graça a tudo, era você! Você se foi, Taynara, de maneira sutil e definitiva. Jamais ousei criticar a escolha que fizestes, e que tantos bons frutos desse relacionamento, colhestes. São dádivas divinas os teus filhos, criados na Paz do Senhor!

O jovem entusiasta, que vivia a cantar, não mais cantou, principalmente naquela praça onde tudo começou. Como bem dissestes, "de caju em caju" eram assim as minhas visitas, e isso implicou na sua tomada de decisão. Ratifico isenção de culpa, até pela hipótese da não reciprocidade afetiva, que parecia verdadeira.

Do meu casamento, qual o seu, Taynara, também vi nascerem filhos maravilhosos, e até netos. Creio, portanto, que temos algo a mais em comum: Amor irrestrito pela família que constituímos. Deus há de preservar nosso vínculo de amizade, à semelhança do que fez no passado, com nossos estimados, Pais.

O tempo passou, é evidente, e a menina ingênua e meiga, que por timidez até "chorava às escondidas" se fez excelente Mãe de Família. Que apesar da precoce perda de um ente querido, não se deixou abater, e buscou na fé, a continuidade de um importante Projeto de Vida; criar e educar os seus filhos com dignidade.

Querida Taynara - externo incondicional admiração por você, nessas três fases de sua vida: infância, como amigos; na adolescência, até mesmo pelo envolvimento todo especial que tivemos; e, já como adulta, pela serenidade ao administrar sozinha, sua família, e ainda preservar princípios fundamentais, como: honestidade e fidelidade, dentre outros! Me obrigo a apontar o fator determinante pra muitas das decisões equivocadas...o seu inquebrantável "Princípio Religioso", que como dogma, era fundamental. E as regras? Regras são regras, e podiam ser ignoradas.

Como teria sido diferente o desfecho, se as tivéssemos violado!

Fim

Por Rômulo Bispo Em 15/11/11

domingo, 18 de dezembro de 2011

......F O B I A S

FOBIAS PRECOCES - por Rômulo

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Maria Luísa, essa menina serena e meiga, aos seis meses de idade se vê diante de um desafio, o primeiro, quiçá, derradeiro; colocada diante de um sapo, não o teme, e surpreendentemente o acaricia. Parecia entender que o animal ao alcance de sua mão não a incomodaria, até porque era um artefato moldado em barro cozido, apesar de sugerir em incautos curiosos, do próprio bicho, similaridade de imagem.

Decorrido algum tempo, agora com quinze meses de vida, ela não mais se aproxima do amigo com outra intenção, senão a de machucá-lo. Com o olhar fixo, dedo em riste e a sobrancelha em arco, aproxima-se cautelosa e chuta o bicho. Aquela reação sinalizava, a meu ver, o início precoce da primeira fobia. A melhor defesa é sempre o ataque.

O espaço de sua preferência, nosso jardim florido, conserva nas gramíneas, os desenhos e esculturas que também encantam o sapo, agora preterido. Cata-ventos coloridos, pinheiros com enfeites e luzes do Natal, tão belos, e nem assim fica sozinha, ali, a menina que agora teme as aranhas, e as baratas. Detesta as moscas, fustiga e pisoteia certeira, os insetos, com ênfase aos peçonhentos.

Do escuro ela não foge, e se esgueira entre os móveis sem contudo reclamar de suposto, apagão. Mas tem horror em ficar só, e logo escuto seu insistente clamor: "vovô" - "vovô". De braços erguidos e com o sorriso de volta aos lábios, se deixa erguer faceira, buscando em mim, aconchego e proteção.

Quando se iniciam e findam as fobias? Não se sabe ao certo, entretanto, nas crianças ocorre muito cedo, e salvo algumas exceções, perduram por toda a infância. Há casos, e não são raros, de adultos e até mesmo idosos que não conseguiram debelar o mal, e em decorrência disso, graves acidentes são registrados e até com óbito.

Vejamos, pois, um relato de um desses fatos, onde um veterano e habilidoso motorista sem conter o medo de baratas, deixa à deriva o automóvel que sai desgovernado da rodovia, caindo de uma altura considerável, matando-o de imediato. Outro episódio de veracidade incontestável, ocorreu com um colega do Banco do Brasil, que mesmo estando no seu posto de atendimento e com um cliente à sua frente, abandona-o, e corre alucinado, escada abaixo. A camisa rasgada por ele deixava ver seu tronco nu, e dos trapos caídos ao chão, um gafanhoto que sem nada entender, fora esmagado.

Sutil e gradativamente devemos orientar a criança portadora de fobias, a confrontar-se com a realidade. A fuga nesses casos só tende a agravar o mal. Com Maria Luísa, minha neta, tenho obtido resultados positivos, e é fato, aproximando-a das situações supostamente, de risco. Certa noite, escrevia distraído, e só percebi o terceiro dos seus chamados; levantei-me e fui ao seu encontro. Encostada na parede tinha ela nas mãos suadas, creio que em decorrência da aflição, uma pequena lagartixa, já morta.

Seus olhos não demonstravam sinal de júbilo, mas de dor e compaixão. Isso eu pude observar no semblante daquela menina peralta, que sem temor, exibia aquele animalzinho sem vida. Inclinando lateralmente a cabeça, abre os braços, e exclama a todo pulmão: Ooooohhhhhh - Ainda que expletivo, caro leitor, jamais traduziria com as frases, outro sentimento para aquela exclamação, senão o de tristeza e piedade.

No trato com os cães, é carinhosa, mas o relacionamento não é tão amistoso, assim.

Convive com dois deles: Willy, o Poodle, e o arredio Fox com raça não definida. Dizem, e até concordo, ser ele um verdadeiro, cão chiuawa. Com o Poodle tem maior afinidade, mas em verdade, se percebe pelo chiuawa, relação pública de amor e ódio, fruto das mordidas dele, em crises de puro ciúme. Os cães não lhe causaram fobias!

Via da regra, os adultos inscientes são responsáveis por parte das fobias, irreversíveis às vezes, adquiridas pelas nossas crianças. Autores consagrados, os pais e a própria mídia, insistem na mediocridade do repasse oral das lendas urbanas e de músicas voltadas ao público infantil, com indução clara ao medo e ao terror.

Cito por exemplo - Mula sem Cabeça; Saci Pererê e outras tantas focadas no sobrenatural mundo das trevas, como: Drácula e Lobisomem. (essas, para crianças maiores), como se tamanho fosse posto! As músicas que persistem ao tempo, remetem à lembrança do mal imediato: Atirei o Pau no Gato; Cai-Cai Balão; Pai Francisco (foi pra prisão), obras que despertam nelas - ódio, vingança e frustração.

Fim - 11/11/11

Crônica dedicada às crianças, especialmente pra Maria Luísa que reacendeu em mim, seu vovô predileto, o hábito saudável da leitura e da escrita.

Minha amizade por você é tão forte quanto o aço, e tão resistente quanto o mais puro dos diamantes. JAMAIS se DESGASTARÁ com o tempo, e é inversamente proporcional às suas fobias que apenas permanecerão vivas, em suas lembranças.

08 de Dezembro - Sra. Conceição

Em um dia oito, diferente do oito de hoje, mas, igual a tantos oito de dezembro, me permito lembrar - cercado por crianças, ávidas pra degustar de sua esposa Angelina, as iguarias do almoço anual, meu Pai Izidoro cumpria mais uma vez sua promessa feita à Imaculada Conceição, pelas graças alcançadas.

Consagrado, esse dia enaltece e representa a família, célula máter da identidade de seus membros: pai, mãe e filhos, estilo que assegurava ensinamentos necessários à formação de probos cidadãos. Se manteve desde o Brasil Colonial, mas registra-se alterações significativas no Conceito de Família ao longo do tempo.

Autodidata, ele ministrava aulas como se fosse um mestre, e conseguia apesar das limitações, transformar o ambiente em que vivia. Transferia com simplicidade seus conhecimentos, legado exclusivo de poucos, em benefício dos conterrâneos, os moradores "Das Matas" que em breve seria Povoado, e a seguir, Redenção.

Afeito ao exercício da agricultura familiar, dormia cedo e acordava mais cedo ainda, tentando fugir do calor do sol de verão, e seguia determinado a cuidar do seu plantio de subsistência: mandioca, milho e feijão.
Na terra prometida, havia poucos moradores, e todos eram agricultores. À noite, cansados de tanto carpir se agrupavam os amigos num barracão, onde definiam ações para o dia seguinte. Depois de muita prosa e discussão, ébrios, erguem um brinde, o último, e retornam pra casa cambaleantes, imersos na escuridão.

Paciente, mas com a energia peculiar da mulher cabocla, minha mãe acolhe o marido, embriagado, alimenta-o e o induz ao sono reparador. No dia seguinte, à semelhança do ocorrido na noite anterior, a cena se repete, e o homem trabalhador, envergonhado tenta se explicar, em vão, pois nem podia se expressar.

Sem ser brotada da minha fértil imaginação, por ouvi dizer, relato e me desculpo se maculo a sua imagem, Pai querido, um fato que culminou na sua abstinência etílica, irreversível. Aquele que te obrigou a refletir... Passava da meia noite, e levavas do Barracão às costas, provisões para a semana. Qual marujo em terra firme, seu andar nem tão firme denunciava a embriaguez, e sob chuva forte, parou à beira do Rio Parauaçu.

Seu olhar vago, deixava crer que desmaiaria, mas resistiu o quanto pode, e mesmo alcoolizado achou a trilha de pedras submersas, que o levaria em segurança para o outro lado do rio. Parecia ouvir da esposa, ou da filha adolescente, gritos angustiados pedindo que voltasse, mas ele teria que continuar, e pôs o saco com os víveres sobre a cabeça, e caminhou sobre as pedras, confiante. Lograria êxito, o seu intento?

Não muito distante dali, na tosca casa de taipa, ansiavam, mãe e filha. Devotas fervorosas da Santa do dia, oravam por um retorno com saúde do companheiro amado, vítima da bebida; um alcoólatra em potencial... Seguia na trilha, cauteloso, mas não chegaria à outra margem, pois o tronco trazido pela correnteza, atinge em cheio suas pernas, e faz dele, um náufrago. À mercê das ondas, vê com pesar o saco com as compras, afundar, e num lampejo de lucidez, pede clemência. Em instantes, passa em sua mente o filme da sua vida! Imaginando-se diante da Santa de sua devoção, suplica: Imaculada Senhora da Conceição! Rogo-te seja a mim permitido a abstinência do álcool, e me livre de outros vícios, que coloque a minha e a vida dos meus familiares em risco. Que me seja concedida essa graça, oh, Mãe piedosa, e em troca prometo alimentar sete crianças pobres, e seus acompanhantes, a cada dia oito de dezembro, enquanto vida eu tiver!

Hoje, 08 de Dezembro de 2011, sem promessas e sem as típicas comidas caseira, nada comemoramos em família, senão o momento religioso, e de fé. Das iguarias à base de milho, quase nada se vê, nem mesmo a galinha caipira e o macarrão, dupla que marcava presença no variado cardápio dos banquetes!

Aceitos, também no povoado distante, terra que escolheram pra empreender, os meus pais fizeram por merecer de seus habitantes, sem exceção, o gozo do respeito e da admiração, plena! Homenageado, teve o nome Izidoro Bispo, emprestado para uma Escola, e também pra uma Via Pública no centro da cidade. Construiu a sua e tantas outras casas ali, a primeira, inclusive, num claro sinal que antevia a transformação daquelas terras boas, "As Matas", numa próspera e acolhedora cidade - a Nova Redenção.

Desejoso de conhecer outras paragens, fez algumas alternâncias de residência: em Ubiraitá, ainda no mesmo município, também construiu uma excelente casa, e ali passou uma boa parte de sua vida.
Na premissa de que os filhos, já em bom número, precisavam de boas escolas, ele parte, e dessa vez escolhe Lençóis, na Chapada Diamantina. Com características próprias, essa cidade oferecia além dos estudos, uma fonte inesgotável de lazer. Cercada por serras e com água em abundância, agradou a todos.

Mas...e o almoço do dia 08 de dezembro, sofreu perda de continuidade, ou não foi mais citado, a propósito? Sim, até pra não faltar com a verdade, posto que em citações anteriores, o fiz pelo bom uso do "ouvi dizer". Como poderia não mencionar de importância igual, a participação voluntária das mulheres da família, que davam graça e descontração ao evento, já em Lençóis, e por muito mais tempo, em Parnaíba.

Por quantas vezes tiveram elas, as crianças, de também nas esteiras se acomodarem, em virtude da escassez de cadeiras e mesas, já repletas de adolescentes, pais e convidados. Uma poltrona, entretanto, tinha lugar reservado...sentado, tinha seu prato à mão, e sorria feliz, o meu querido pai, o eterno, anfitrião!

Ainda que falte na mesa, alimentos como os do seu tradicional almoço de 08 de Dezembro, me sacio dos exemplos de fé, qual inquebrantável promessa sua, feita à Imaculada e piedosa, N. Senhora da conceição.

Homenagem (in memorian) aos meus pais, Izidoro e Angelina. (08/12/2011) Fim > por Rômulo

Os Filhos

O S F I L H O S

Fui agraciado com três deles, e com igual comoção lia dos testes preliminares, o resultado sempre positivo, em cada um dos eventos. O nascimento era pra mim singular momento de reflexão, pois sentia que Deus em sua infinita bondade, presenteava-me sem contra-partida; em compensação, jamais o decepcionaria.

Experiência inusitada, mas gratificante, decorreu do meu contato com aquela menina pequena, que se chamaria Milena. Nascia em 1979 - Ano Internacional da Criança, a minha tão esperada, primogênita!
Não estávamos sozinhos naquele desafio primeiro, vez que o suporte familiar clamava por cooperar conosco, e isso foi fundamental.

Maria Andrade, tia-avó abnegada, teve relevante influência na criação e na formação dos nossos filhos.
Intelectual notável, essa mulher, minha segunda sogra, escolheu nunca procriar, mas ironicamente, criou!
Fez como poucas teriam feito, o papel de Mãe, de educadora e de conselheira, ao assumir como se fora sua, a filha da irmã, não menos idolatrada. Credito também às tias tão amorosas, o mérito da participação.

Resultante de prévio acordo, surge não por acaso, Ricardo o nosso segundo filho. Um menino forte, sadio, e que à semelhança da Mãe, Cássia, fazia suscitar das visitas, elogios também por ser ele, muito bonito!
Crescia rápido, e de repente ficava surpreso com suas peraltices. Ao chegar do trabalho ficava radiante com os relatos, mas, em detrimento do serviço, não podia acompanhar, mormente em dias úteis, os meus filhos.

A participação familiar foi importante e decisiva! Ricardo, qual Milena, contava com mais um reforço; Dona Alda, uma professora super exigente, tia deles, que os orientava no aprendizado extra escolar; com afinco. Dona Elza, a outra tia, tão meiga quanto as outras, ministrava-lhes boas maneiras, traço presente até hoje.

Ah, lembro-me e eles também de "Beata", uma serviçal negra de alma branca, que os entretinha com seus causos e estórias. Por mim, demonstrava simpatia, e em tom de pilhéria, me chamava de "Romiu" o caixa do Banco do Brasil, única pessoa em quem confiava pra receber seu benefício da aposentadoria.
Beatriz, seu verdadeiro nome, batizara aquela mulher miúda e servidora, que certamente devíamos favores.

Amo todos os meus filhos, e Michelle a última filha a nascer, foi para nós como uma estrela brilhante que surgiu e encheu de luz as nossas vidas. É provável, e o tempo nos ajudou a concluir, até pela sua personalidade marcante, que seu nascimento veio contrariar a máxima: "três é demais", quando nos induz o velho ditado a aceitar que: "um é pouco" e "dois seria bom", por certo! Ledo engano!

Jamais iria prescindir da nossa linda caçula, garota inteligente e afetuosa, beneficiada por extensão divina com a bênção da gravidez. Muito em breve em complemento à nossa felicidade, nascerá Fernanda, a sua primogênita. Mas não para por aí... Milena, deu à luz a Maria Luísa, nossa neta, que apenas com um ano e meio, disse a todos a que veio; tornar mais feliz aquele que dela se aproximar! Qual "Maria", Luísa é Luz!

É provável não ter sido o Pai Perfeito, mas não tive essa pretensão, inda que estivesse bem próximo disso. Pautei minha vida na simplicidade, e fiz dos exemplos, ensinamentos. Confirmo sem modéstia ter colhido assim, dos meus filhos, resultados impressionantes. Com eles, e para nossos netos, o poder dos exemplos.

O ser humano, inconformado como sempre, esqueceu de evoluir espiritualmente, por se sentir realizado. Quantos de nós, pais e até mesmo avós, perdemos a chance de corrigir com acertos as falhas do passado.
Por certo, ei de considerar a evolução no plano material, um grande feito, mas nunca será uma realização.
A realização se dá quando conciliamos para o benefício de muitos, aquilo que apenas poucos têm acesso!

ACREDITEMOS em DEUS, sempre, e AMEMOS MAIS aos NOSSOS FAMILIARES.

Fim

terça-feira, 13 de setembro de 2011

.......................Willy - O Cão


Já vi cenas repugnantes, mormente em filmes "trashes", entretanto, menos intrigantes do que aquelas vistas no idoso e enfermo, Willy. Outro dia, em um passeio matinal com os cães, ao fazermos a higienização e trocar a fralda já cheia de urina e fezes, de um deles, percebemos que uma mosca de cor azul, incomodada, se espreme e voa insatisfeita, portanto.

Registrado o incidente, ouvimos de suas asas o zumbido pouco audível, e continuamos a limpar a área da persistente, ferida; julgamos ter sido tão somente uma visita esporádica, da inescrupulosa, "mosca azul". De um porte maior, e até por isso mais lenta nos rasantes voos direcionados, a meu ver, não fosse ela transmissora de doenças, aquela, de cor de um azul intenso e metálico, seria dentre todas as dípteras, a mais bela. Prefiro, apesar de expletivo, vê-la de mim, bem distante, posto que sem limites, busca incansável saciar o seu voraz apetite.

Apesar da higiene dispensada ao poodle, na noite do dia seguinte fui acordado com latidos que mais pareciam gemidos de dor, vindos do sofrido, animal. O cachorro que se mostrara bastante incomodado durante todo o dia, não despertou em nós nenhuma suspeita da gravidade do seu problema, em virtude de ser esse o seu comportamento depois que foi acometido da doença.
Serena e convicta do que fazia, Milena esbanja técnica e segurança, e inicia ali mesmo, no sanitário, o socorro ao seu cãozinho indefeso; alguma coisa parecia querer devorá-lo vivo!

Meu pai... Ouço seu apelo, agora entre soluços, quando buscava em mim, apoio ao que fazia. Indubitavelmente, ficar à distância seria mais prudente não tivesse também sido despertada em mim, uma co-responsabilidade pelo bem estar daquele animal moribundo. Sempre disposto a ajudá-la, atendi de pronto ao chamado e me postei também ali, ao seu lado. Suas mãos que se igualavam à sua voz, também tremiam ao apontar com uma pinça, e delas pingos de sangue me sugeriam entender que algo inusitado teria acontecido ao enlouquecido, animal.

Portador de uma doença não rara em cães, e já com úlceras que o afligem há tempos, não foi difícil crer num diagnóstico do temido câncer prostático. Além do mal que já sabíamos ser incurável, temos também a certeza de não poder operá-lo, face os sérios riscos de morte.
Animal de estimação que nos acompanha há mais de quinze anos, nosso Poodle Willy tem uma vontade enorme de viver. Alimenta-se bem, faz parte do nosso dia a dia, e ainda consegue apesar de tudo, ter uma sobrevida satisfatória. Recentemente nos acompanhou a uma viagem a Salvador, em 31 de julho de 2011 local onde se deu o incidente que volto a comentar...

Assustadores, os "bichos" brotavam aos montes da região anal, com forte indicativo ao óbito, não fosse a intervenção da minha filha, que incansável, o socorreu. Passava da meia noite e nós, ali, sem contar com recursos outros, fazíamos o possível prá amenizar o sofrimento do pobre animal. A idéia da ducha quente com esguicho forte, além do Baygon, foi providencial.
Mais calmo, posto que apenas alguns persistentes bichos carnívoros relutassem em deixar o pútrido banquete, Willy se deita e aceita os afagos daquela dedicada, enfermeira. Um a um, todos foram retirados, apesar da resistência, e finalmente podemos descansar, sem esquecer o apoio logístico de Cássia, minha esposa, que possibilitou que a operação fosse exitosa.
Imagino como seria o desfecho desse apavorante drama, aos nossos olhos, se não fosse pela intervenção corajosa da sua "dona", Milena. Pena que outros cães não tenham dela, cuidados.
Me orgulho de tê-la como técnica na área de saúde, vez que assim como nossos animais de estimação, também os seus pacientes, sem exceção, são alvos de seus préstimos.